O Estado Invisível: Como o Setor Público Moldou (e Ainda Molda) a Economia dos EUA

Quando pensamos em economia americana, a imagem automática é de um capitalismo “puro”, dominado por empresas privadas, risco individual e mercado livre. Mas essa narrativa esconde um fato incômodo (e fascinante): os Estados Unidos são, desde o século XIX, uma das economias mais profundamente marcadas pela ação do Estado e por empresas públicas, autoridades portuárias, agências estatais e paraestatais. O capitalismo americano sempre foi muito mais “misto” do que o mito liberal deixa transparecer.

1. Começo de tudo: infraestrutura como missão de Estado

Desde o início da República, o governo federal atuou diretamente na construção da base econômica do país. O famoso programa de “internal improvements” – estradas, canais, pontes – foi patrocinado pelo Estado para integrar o território e baratear custos de transporte.

O Canal Erie (inaugurado em 1825), embora seja um projeto estadual (Nova York), foi o modelo de como investimentos públicos massivos em infraestrutura podiam disparar crescimento, transformando Nova York no grande hub comercial do país. Os ferrovias transcontinentais do século XIX foram financiadas com enormes concessões de terras e garantias do governo federal às empresas privadas – um “capitalismo de compadrio” pró-desenvolvimento: sem terras, subsídios e garantias estatais, não haveria a malha ferroviária que integrou a economia americana.

Ou seja, antes do “livre mercado” chegar, chegou o Estado com terra, crédito, subsídios e concessões.

2. O New Deal e a era das grandes empresas públicas

A Grande Depressão dos anos 1930 escancarou os limites do laissez-faire e abriu caminho para a mais profunda intervenção estatal da história americana. O New Deal de Franklin D. Roosevelt criou um verdadeiro “Estado empreendedor”:

Tennessee Valley Authority (TVA): talvez o caso mais emblemático de empresa pública americana. Criada em 1933, é uma corporação estatal responsável por gerar energia elétrica, controlar enchentes e promover desenvolvimento regional em vários estados do Sul, historicamente pobres. A TVA construiu hidrelétricas, barateou a energia, industrializou a região e segue até hoje como uma poderosa utility pública. Rural Electrification Administration (REA): a eletrificação rural dos EUA foi feita basicamente via cooperativas e crédito público barato. O resultado foi uma revolução de produtividade na agricultura e na indústria rural – financiada e coordenada pelo Estado. Home Owners’ Loan Corporation (HOLC) e depois a Federal Housing Administration (FHA): agências públicas que reestruturaram hipotecas, padronizaram o mercado imobiliário e permitiram a expansão da casa própria no pós-guerra. Grande parte da famosa “classe média suburbana” foi um produto de crédito público e garantias estatais.

O New Deal mostra que, no coração da economia americana, há empresas e agências públicas que criam mercados, assumem riscos e organizam setores inteiros.

3. Guerra Fria, complexo militar-industrial e Estado inovador

No pós-Segunda Guerra, a liderança tecnológica dos EUA foi construída em cima de gasto público e de um ecossistema híbrido entre Estado, universidades e empresas:

O Departamento de Defesa (DoD) e a DARPA (criada em 1958) financiaram tecnologias que hoje sustentam gigantes privados: internet, GPS, microeletrônica, semicondutores, software avançado, robótica. O “military R&D” criou a base da atual economia digital. A NASA, criada em 1958, empurrou fronteiras na aeronáutica, materiais, computação, telecomunicações e satélites, sempre articulando contratos públicos com empresas privadas – Boeing, Lockheed, Northrop, etc. Laboratórios nacionais como Los Alamos, Oak Ridge, Sandia (todos públicos) foram e são centros de P&D em energia, materiais e defesa, que irradiam tecnologia para o setor privado.

Por trás da aura do Vale do Silício, existe um triângulo poderoso: Estado como financiador de longo prazo, universidades como lócus de pesquisa e empresas privadas como capturadoras e difusoras do lucro e da escala global.

4. Autoridades públicas, “utilities” e empresas especiais

Além das agências federais, o sistema americano é cheio de public authorities e empresas públicas setoriais, muitas vezes pouco percebidas de fora:

Port Authority of New York and New Jersey: autoridade portuária e de transporte, pública, que administra pontes, túneis, portos, aeroportos (como JFK e Newark) e terminais de ônibus. É uma espécie de “holding” de infraestrutura, com enorme poder de investimento e endividamento próprio. Autoridades de transporte urbano (como a MTA em Nova York, WMATA em Washington): entidades públicas que operam metrôs, ônibus e trens urbanos, com tarifas reguladas, subsídios e dívida. US Postal Service (USPS): o correio americano é uma empresa pública de alcance nacional, essencial para logística, serviços financeiros básicos em regiões pobres e integração territorial. Amtrak: a empresa pública de trens de passageiros, criada em 1971, que mantém serviços ferroviários de longa distância e corredores estratégicos (como o Nordeste). É deficitária do ponto de vista financeiro, mas estratégica em termos de mobilidade e coesão territorial. Federal Reserve: não é “empresa pública” no sentido clássico, mas é uma instituição pública com poder de criar dinheiro, atuar como emprestador de última instância e sustentar mercados inteiros (como vimos em 2008 e 2020).

Essas autoridades e empresas mostram que, em setores de infraestrutura de rede, transporte, correios, energia e finanças, o Estado americano não é espectador: ele é operador direto ou regulador central.

5. Fannie Mae, Freddie Mac e o mercado imobiliário “estatizado por dentro”

O sistema hipotecário americano é outro exemplo de capitalismo profundamente moldado pelo Estado:

Fannie Mae (Federal National Mortgage Association), criada em 1938, e Freddie Mac (Federal Home Loan Mortgage Corporation), criada em 1970, são empresas patrocinadas pelo governo (GSEs – government-sponsored enterprises). Elas compram hipotecas de bancos, empacotam esses créditos e os securitizam, garantindo liquidez ao sistema. Na prática, isso significa que o Estado organiza, padroniza e garante o mercado imobiliário, reduzindo risco e alavancando crédito para famílias. Quando deu errado na crise de 2008, ambas foram colocadas em conservatorship, ou seja, sob tutela direta do governo federal.

É difícil imaginar um exemplo mais claro de “socialização do risco” com privatização de lucros na fase de bonança – um capitalismo fortemente intermediado pelo poder público.

6. Crises financeiras e o “Estado bombeiro acionista”

Nas crises, o Estado americano costuma ir além da regulação: ele vira sócio temporário, garante passivos e salva o próprio sistema:

Na crise de 2008–2009, o governo federal injetou capital na GM, salvou o setor automotivo, comprou ativos podres de bancos e interveio diretamente via TARP e Federal Reserve, que passou a comprar títulos privados e públicos em massa. Em 2020, na pandemia, o Fed e o Tesouro novamente atuaram como garantidores de última instância, sustentando mercado de capitais, crédito corporativo e renda de famílias com cheques diretos e programas de apoio.

Ou seja, quando o “mercado livre” ameaça ruir, o Estado entra como seguradora, banco, investidor e coordenador – exatamente o tipo de papel que, em outros países, é rotulado de “intervencionismo”.

7. Conclusão: o mito do laissez-faire e a realidade do capitalismo de Estado à americana

A história econômica dos EUA desmonta a ideia de um capitalismo “puro”, hostil ao Estado. O que existe, na prática, é um capitalismo politicamente estruturado, em que:

o Estado constrói infraestrutura, cria e regula mercados, financia inovação de alto risco, opera empresas públicas em setores estratégicos, socializa prejuízos nas crises e ancora, com seu balanço, a própria confiança no sistema financeiro.

A surpresa não é que o Estado americano esteja presente na economia. A surpresa é o quanto essa presença foi naturalizada dentro da narrativa liberal – a ponto de muita gente acreditar que os EUA prosperaram “apesar” do Estado, quando, na verdade, prosperaram por meio de um Estado poderoso, empreendedor e articulador de longo prazo.

Se olharmos com atenção, o que aparece é um modelo sofisticado de capitalismo de Estado às avessas: ideologicamente liberal, mas, na prática, profundamente dependente das capacidades públicas para criar futuro, sustentar risco e organizar o investimento em larga escala.

2 thoughts on “O Estado Invisível: Como o Setor Público Moldou (e Ainda Molda) a Economia dos EUA”

  1. Prof. Paulo Gala, como leitor assíduo de seus artigos, gostaria de sugerir um importante complemento a este, específico sobre os EUA. Trata-se da política advogada e praticada por Alexander Hamilton e, na sequência, o protecionismo pró-industrialização do séc. XIX, que inclusive foi, juntamente com a questão do escravismo, um foco de conflito entre o Norte industrial e o Sul escravocrata. Há muita generalidade a esse respeito. Como seu estilo é o descrever de forma mais detalhada os instrumentos e exemplos mais emblemáticos do tema de cada artigo, acredito que uma boa matéria sua sobre esse assunto seria importante insumo para a história do desenvolvimento dos EUA antes da Guerra de Secessão.
    Outro tema, correlacionado, é a distribuição de terras, que criou um mercado interno e articulou o Norte litorâneo com o Meio Oeste. Ligia Ozorio Cruz pontua que esse fator, em contraposição à nossa Lei de Terras – que dificultava a disseminação da propriedade fundiária -, está na raiz da diferença entre ambos os países. Embora, em minha opinião, outros fatores sejam igualmente importantes, parece-me indiscutível que a formação de uma classe de pequenos produtoras agrícolas tenha sido fundamental como mercado de consumo e de insumos agropecuários e alimentícios para as cidades industriais.
    Saudações acadêmicas.
    Prof. Dr. Roberto Vital Anau

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