Nas discussões sobre reindustrialização e desenvolvimento econômico, muito se fala sobre revitalizar setores estratégicos como semicondutores, veículos elétricos e energia renovável. De fato, esses setores são vitais para a competitividade tecnológica, a segurança nacional e a transição energética. No entanto, é preciso reconhecer um limite estrutural: essas indústrias, apesar de sofisticadas e de alta produtividade, empregam relativamente poucas pessoas. O modelo clássico da industrialização como alavanca de emprego em massa, como ocorreu na Europa, nos Estados Unidos e mais recentemente no Leste Asiático, parece não ser mais replicável da mesma forma no século XXI.
A indústria que criava milhões de empregos para operários em linhas de montagem foi transformada por décadas de automação, digitalização e racionalização de cadeias produtivas. Montadoras de veículos, por exemplo, que já empregaram centenas de milhares de pessoas, hoje operam com um número muito menor de trabalhadores, mesmo com produção recorde. O mesmo vale para as fábricas de semicondutores, que exigem altíssima qualificação técnica, mas são altamente automatizadas e robotizadas. A produtividade por trabalhador é altíssima, mas o volume absoluto de empregos é limitado.
Essa realidade impõe um dilema para países populosos como o Brasil: é inviável imaginar a alocação produtiva de mais de 200 milhões de pessoas apenas com base em setores industriais de ponta. Mesmo que o Brasil construísse um polo de semicondutores ou se tornasse uma potência exportadora de baterias ou painéis solares, esses setores não seriam capazes de absorver a massa trabalhadora disponível. A ideia de um retorno à era de “emprego de massa” via indústria de alta tecnologia é, portanto, uma ilusão. Isso exige repensar o papel da política industrial não como uma solução isolada, mas como parte de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento.
No Sudeste Asiático, especialmente em países como Vietnã, Indonésia e Tailândia, ainda se observa uma tentativa de aproveitar o “resto do tacho” da estratégia de industrialização manufatureira baseada em trabalho intensivo. Esses países estão recebendo fábricas deslocadas da China em busca de custos mais baixos, e colhem ganhos de curto prazo em emprego e exportações. Mas mesmo essa janela está se fechando rapidamente com o avanço da automação, o envelhecimento da população e a necessidade de sofisticar suas economias. Trata-se de uma fase final de um modelo que já atingiu seus limites globais.
Para países como o Brasil, a solução passa por combinar a indústria de alta tecnologia com setores que gerem empregos de forma mais intensiva — como serviços modernos, economia do cuidado, infraestrutura verde, bioeconomia e agricultura de valor agregado. O desafio não é apenas gerar produtividade, mas distribuir ocupação e renda em uma economia complexa. A era do “emprego industrial de massa” pode ter acabado, mas a necessidade de inclusão produtiva continua — e talvez seja o maior desafio econômico e político do nosso tempo.


Os problemas da empregabilidade dos trabalhadores e da criação de um sistema econômico que utilize esse capital humano é o problema econômico de “1 bilhão de dólares”, por dia. Mesmo porque é um problema do “sistema político nacional e dos sistema geopolítico geoeconômico dentro do qual existe o problems. A “virada sistêmica”, o retorno da habilidade de entender sistemicamente esse problema para poder começar a pensar em uma solução, ainda está em seu início, aós seu abandono na década de 70.