Santa Catarina é amplamente reconhecida como um dos maiores casos de sucesso industrial do Brasil. Com uma das economias mais diversificadas do país, o estado projeta uma imagem de dinamismo, abrangendo desde o agronegócio robusto até polos de alta tecnologia. No entanto, por trás dessa fachada de prosperidade, um desafio crescente se aprofunda: a desigualdade regional. Um novo e inovador estudo, realizado pela FIESC em parceria com a UFSC, mergulha nos dados e revela uma realidade complexa, expondo tanto os riscos de um desenvolvimento desequilibrado quanto um verdadeiro “mapa de oportunidades” para construir um futuro mais sofisticado e justo para todo o estado.
Os 4 Fatos Mais Surpreendentes Sobre o Futuro da Economia de Santa Catarina
- A Armadilha da “Vocação”: Por que fazer mais do mesmo é um erro fatal
A revelação mais contraintuitiva do estudo é que a estratégia de crescimento mais “segura” — apostar no que uma região já sabe fazer — é, na verdade, uma receita para a estagnação e o aprofundamento da desigualdade. Para entender isso, é preciso conhecer o conceito de relatedness (relação ou relacionamento), que mede a proximidade entre diferentes setores econômicos em termos de habilidades e tecnologias.
A lógica convencional sugere que a aposta certa é expandir para setores muito parecidos com os existentes. Contudo, o estudo mostra que essa é uma armadilha perigosa, especialmente para as microrregiões menos desenvolvidas. Focar apenas no que já se faz bem pode aprofundar a especialização em atividades de baixa sofisticação, levando a um beco sem saída.
Como resultado, focar apenas no que cada microrregião faz de melhor, ou seja, concentrar-se em vantagens comparativas estáticas e migrar apenas para atividades mais relacionadas, poderia ampliar a desigualdade nas capacidades produtivas. É por isso que as microrregiões menos desenvolvidas precisam acertar em setores com complexidade econômica e relatedness elevados, para não acabarem em uma armadilha de restrito desenvolvimento.
Essa armadilha da especialização de baixa complexidade não é apenas uma teoria; o estudo mostra que seus efeitos já estão criando um abismo profundo no estado. - O abismo regional é maior (e tende a piorar) do que imaginamos
O estudo utiliza o conceito de complexidade econômica — uma medida da diversidade e sofisticação dos produtos e serviços que uma região é capaz de produzir — para mapear a estrutura produtiva do estado. A análise revela uma disparidade gritante entre os polos mais desenvolvidos, como Joinville, Blumenau e Florianópolis, e as regiões menos complexas, como Tabuleiro e Curitibanos.
O quão grande é essa diferença? O estudo apresenta um exemplo impactante: mesmo que a microrregião de Concórdia conseguisse, em um cenário otimista, diversificar sua economia para os cinco setores mais complexos do Brasil, ela ainda estaria muito distante do nível de complexidade que Florianópolis possui hoje.
Isso ilustra a tendência de Litoralização, onde o desenvolvimento, a inovação e as oportunidades se concentram cada vez mais na costa. Se ignorada, essa tendência tem consequências reais: atrito social, êxodo de cérebros do interior e um estado que é próspero apenas no nome para muitos de seus cidadãos.
Mas o que impede uma região como Concórdia de simplesmente saltar para setores mais complexos? O estudo aponta para um gargalo que não está nas fábricas ou nas máquinas, mas nas mentes e habilidades de sua força de trabalho. - O verdadeiro gargalo não são as máquinas, mas as habilidades que faltam
O sucesso da diversificação econômica depende diretamente das competências da força de trabalho. É como ter um hardware de ponta rodando um sistema operacional desatualizado. A descoberta mais preocupante do estudo é que o “sistema operacional” de Santa Catarina precisa de um upgrade urgente.
A lacuna é alarmante: habilidades como “Programar” e “Proteger sistemas e acessar dados” estão presentes em menos de 6 das 20 microrregiões do estado, enquanto a “Operação de máquinas” é uma vantagem em todas elas. Isso mostra uma força de trabalho preparada para o passado industrial, não para o futuro. As carências mais críticas estão em três áreas principais:
- Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC): Habilidades essenciais como programar, proteger sistemas e analisar dados são escassas na maioria das regiões, limitando a capacidade de inovação.
- Habilidades Cognitivas: Competências como analisar, avaliar e processar informações complexas, fundamentais para a resolução de problemas e a tomada de decisões estratégicas.
- Habilidades Sociais (Soft Skills): Surpreendentemente, até mesmo regiões avançadas como Blumenau apresentam carências aqui. O estudo ressalta que para consolidar-se como um polo tecnológico, a região precisa urgentemente desenvolver as chamadas soft skills, como liderança e negociação, para gerir a inovação e orquestrar ecossistemas complexos. O gargalo não é técnico, é humano.
4. O futuro é hiperlocal: por que uma política industrial única está fadada ao fracasso
O estudo argumenta de forma contundente contra as políticas industriais genéricas, formuladas em Brasília ou mesmo em Florianópolis, que ignoram as realidades locais. Tratar Santa Catarina como um bloco homogêneo é um erro que apenas reforça as desigualdades existentes.
A proposta é uma abordagem radicalmente diferente: estratégias de diversificação inteligente personalizadas para cada uma das 20 microrregiões. Em vez de uma receita única, o estudo oferece um cardápio de caminhos possíveis, adaptados à vocação e ao potencial de cada local.
- Para uma potência como Joinville, o mapa aponta para uma estratégia de “Baixo Risco para Alta Complexidade”. Isso significa usar sua base industrial robusta como um trampolim para setores de fronteira, como a fabricação de componentes para aeronaves ou a criação de um polo de serviços financeiros avançados — movimentos que outras regiões do Brasil mal podem sonhar em fazer. O sucesso aqui dependerá de desenvolver as soft skills necessárias, como liderança e negociação, para gerir projetos de altíssimo valor agregado.
- Já para Campos de Lages, presa em uma economia de menor complexidade, a recomendação é de “Risco Moderado para Complexidade Intermediária”. O estudo não sugere um salto impossível para a biotecnologia, mas um passo estratégico e calculado: desenvolver a fabricação de máquinas especializadas para o agronegócio, alavancando sua vocação atual para agregar valor e sofisticação.
Conclusão: Um Mapa para o Futuro, Uma Escolha a Ser Feita - O estudo da FIESC/UFSC é muito mais do que um diagnóstico pessimista; é um verdadeiro mapa de oportunidades, detalhado e baseado em dados. Ele oferece uma base sólida para que o estado evite a armadilha da desigualdade e construa um desenvolvimento mais equilibrado e resiliente.
- A questão que fica é: com este roteiro detalhado em mãos, terão os líderes, empresários e a sociedade catarinense a visão e a capacidade de coordenação para construir um futuro mais sofisticado e equilibrado para todas as regiões do estado?
- Estudo aqui:
Podcast sobre o trabalho:

