*escrito por Rafael Codeço
Nas últimas duas décadas, o Brasil experimentou mudanças profundas na natureza dos investimentos estrangeiros diretos (IDE) que recebeu. Se, até os anos 1990, a presença de empresas transnacionais se dava principalmente pela criação de novas unidades produtivas — os chamados investimentos greenfield —, a partir dos anos 2000 cresceu de forma expressiva o volume de fusões e aquisições (F&A), operações em que empresas estrangeiras adquirem total ou parcialmente o controle de companhias já existentes. Essa transformação revela um deslocamento estrutural do papel do país no sistema produtivo internacional: de polo receptor de novos empreendimentos para destino de compra de ativos consolidados, processo intimamente ligado às políticas econômicas e às reformas de Estado implementadas ao longo do período. Os dados da UNCTAD mostram que, entre 2003 e 2014, predominavam os investimentos greenfield, concentrados em setores industriais e de infraestrutura. Essa fase coincidiu com o dinamismo econômico do segundo governo Lula e do primeiro mandato de Dilma Rousseff, quando políticas industriais ativas — como a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) e o Plano Brasil Maior (PBM) — ampliaram o crédito, estimularam o mercado interno e criaram um ambiente favorável à expansão produtiva. Mesmo com a valorização cambial — o real oscilava entre R$ 1,80 e R$ 2,00 por dólar —, o país atraiu valores recordes de IDE, impulsionado por expectativas de crescimento e pela estabilidade institucional. A partir de 2015, contudo, esse padrão se altera. Os gráficos da UNCTAD evidenciam que o peso relativo das fusões e aquisições cresce de forma acentuada, tanto em número quanto em valor. Essa mudança ocorre no contexto da guinada liberalizante na economia brasileira, marcada por programas de privatização, concessões e desinvestimentos em larga escala. O capital estrangeiro passa a se dirigir menos à criação de novas fábricas e mais à aquisição de empresas e ativos estratégicos, como distribuidoras de energia, refinarias e concessões de transporte. Mesmo com a forte desvalorização do real — que chegou a uma média de R$ 4,91 entre 2019 e 2022 —, o ingresso de capital externo não se traduziu em aumento da capacidade produtiva, mas sim em operações financeiras de compra e venda de patrimônio já existente.
Os dados da PwC reforçam essa leitura: até meados da década de 2000, predominavam as aquisições estrangeiras (brownfield), reflexo das privatizações e da valorização cambial que tornavam o Brasil um mercado atraente. Nos anos seguintes, observa-se uma inflexão: as aquisições nacionais ganham espaço, especialmente entre 2018 e 2020, quando o ambiente político e econômico incerto afastou investidores externos e impulsionou a consolidação de grupos domésticos. Essa tendência revela a capacidade de rearticulação do empresariado nacional em momentos de retração internacional, mas também a natureza financeirizada do mercado, em que a movimentação patrimonial não se traduz necessariamente em novos investimentos produtivos. A KPMG identifica duas fases bem definidas: entre 2003 e 2015, equilíbrio e moderação; entre 2016 e 2020, forte avanço das operações estrangeiras, associadas à onda de privatizações. Em 2022, contudo, as transações domésticas voltam a liderar, sugerindo uma reação local diante da instabilidade externa e da reorganização pós-pandemia. A análise por setor mostra o predomínio quase absoluto dos serviços, cuja participação saltou de cerca de 60% em 2003 para mais de 90% em 2022, enquanto a indústria perdeu relevância e a agricultura manteve papel marginal. Esse padrão reforça a desindustrialização e a financeirização da economia brasileira.
A presença de grupos estrangeiros no setor de serviços tem efeitos estruturais adicionais. Frequentemente, ela se traduz em aumento das importações de bens manufaturados, já que as operadoras internacionais utilizam fornecedores padronizados vinculados a suas matrizes ou a hubs globais. O exemplo mais evidente está nas linhas de transmissão de energia, nas quais empresas estrangeiras preferem adquirir equipamentos de fabricantes tradicionais no exterior, mas o mesmo ocorre nos setores de telecomunicações, saneamento, petróleo e gás. Essa dinâmica amplia a dependência tecnológica e reduz o potencial de adensamento das cadeias produtivas nacionais, aprofundando o processo de desnacionalização do tecido econômico. Por fim, os dados da Associação Brasileiro dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA) confirmam a predominância das aquisições de empresas brasileiras por estrangeiros em termos de valor, reforçando a tese de que o IDE recente tem sido movido mais pela lógica patrimonial e financeira do que pelo investimento produtivo. Em conjunto, os gráficos revelam uma transição de longo prazo: o Brasil passou de receptor de novos empreendimentos para mercado de ativos em liquidação. Essa mudança, em meio à financeirização global e à retração da industrialização, ajuda a explicar por que o país continua a se abrir ao capital externo mesmo em um contexto internacional de desglobalização e de revalorização do papel do Estado nas economias avançadas.
Fontes
https://pipeline.capital/dados-de-fusoes-e-aquisicoes-no-brasil-dezembro-2020-pwc/







