O país opera hoje no que chamamos, há mais de quinze anos, de crescimento por absorção de mão de obra: a economia avança não porque ficou mais produtiva, mas porque mais pessoas entraram e permaneceram ocupadas. É um modelo que funciona até bater no muro — e estamos muito próximos dele. Os sinais são claros. O salário de admissão sobe 7%, com ganho real robusto; o desemprego está em 5,4%, o menor da série; e a massa salarial está “furando o teto do gráfico”. Há rotatividade para empregos melhores, mas não há mais gente para entrar na força de trabalho. O Caged, inclusive, já começa a mostrar sinais de desaceleração por esgotamento, não por falta de demanda, mas por falta de oferta de trabalhadores.
É um círculo virtuoso que vira armadilha: pleno emprego gera renda, que gera consumo, que puxa mais emprego — mas nada disso aumenta a produtividade estrutural da economia. O PIB não cresce por ganho de produtividade, mas porque aumentou a população ocupada.
Quando o motor é esse, o ciclo termina sempre do mesmo jeito: bater no muro. A economia encosta no limite demográfico, e sem saltos de produtividade, o crescimento para de acelerar. Não somos a Coreia. Lá, a fase de pleno emprego foi seguida por décadas de aumento brutal de complexidade produtiva. Aqui, continuamos travados numa estrutura de baixa sofisticação.
E 2026 deve inflar ainda mais essa dinâmica: reajuste de IR, expansão fiscal típica de ano eleitoral nos três níveis de governo, mais gasto, mais renda, mais demanda. O PIB pode surpreender — mas continuará preso ao mesmo teto de vidro: crescimento baseado em quantidade de trabalhadores, não em qualidade do trabalho.
O Brasil chegou ao limite desse modelo. Ou o país entra, finalmente, numa agenda de transformação produtiva — inovação, tecnologia, complexidade, educação técnica, reindustrialização — ou seguiremos avançando no ciclo curto, para estagnar logo em seguida. É simples: sem produtividade, não tem milagre.
O diagnóstico é direto: o Brasil opera há décadas dentro da lógica da economia neoclássica funcionando no seu limite, isto é, crescimento puxado por fatores tradicionais — mais emprego, mais horas trabalhadas — sem motores estruturais que desloquem a curva de oferta. Falta aquilo que Kaldor, Hirschman e a economia da complexidade sempre enfatizaram: setores industriais dinâmicos, encadeamentos produtivos fortes, retornos crescentes de escala e aprendizado tecnológico cumulativo. Sem esses motores, o país não gera trajetórias sustentadas de produtividade. A economia até cresce, mas cresce “para cima do muro”: bate no teto demográfico e estrutural. É um crescimento que esgota rapidamente seu combustível.



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Kaldor e o Drama das Economias de Baixa Complexidade
Para Kaldor, o desempenho macroeconômico de um país é inseparável de sua estrutura produtiva. Economias que se especializam em setores de baixa complexidade — atividades pouco intensivas em tecnologia, aprendizado e economias de escala — enfrentam um dilema persistente: crescer o emprego sem elevar a produtividade gera pressão inflacionária. É um drama estrutural, não conjuntural.
- A lógica kaldoriana: crescimento, produtividade e retornos crescentes
Nicholas Kaldor argumentava que a indústria manufatureira, e posteriormente setores complexos de alta tecnologia, são os motores do crescimento porque operam sob retornos crescentes de escala. Quanto mais se produz, maior a produtividade e menor o custo unitário. Isso gera um tipo de crescimento “virtuoso”: o aumento do emprego vem acompanhado de aumento da produtividade — e, portanto, de salários reais — sem pressionar preços.
Economias de baixa complexidade, ao contrário, operam majoritariamente em setores de retornos decrescentes, nos quais a produtividade não sobe automaticamente com o aumento da produção ou do emprego. O ciclo virtuoso não se fecha.
- A armadilha da baixa produtividade
Quando uma economia desse tipo tenta expandir o emprego — seja por política monetária, fiscal ou retomada cíclica — ela esbarra rapidamente em um limite: a produtividade não reage. A capacidade de pagar salários maiores é baixa. Então surge o problema kaldoriano clássico:
• trabalhadores pressionam por aumento nominal de salários;
• empresas sem ganhos de produtividade não têm margem para absorver;
• repassam o aumento para os preços;
• o crescimento vira inflação.
Em setores simples, o “efeito Verdoorn” — a aceleração da produtividade conforme a produção cresce — é fraco ou inexistente. Sem esse mecanismo, a economia trava.
- O mecanismo kaldoriano da inflação estrutural
Para Kaldor, a inflação nesses países não é fruto de excesso de demanda ou de políticas frouxas; é inflacionamento estrutural, consequência de:
1. Estrutura produtiva pobre, com setores que não geram learning-by-doing;
2. Baixa elasticidade da oferta, pois aumentar produção não aumenta produtividade;
3. Pressões distributivas entre salários e lucros num ambiente de pouca margem para expandir o produto.
A economia tenta se mover, mas o “motor” — sua base produtiva — não tem potência suficiente.
- O salário real vira variável exógena: o problema central
Em economias sofisticadas, o salário real cresce porque a produtividade cresce.
Em economias de baixa complexidade, o salário real só pode subir se houver compressão da margem de lucro, porque a produtividade não acompanha. E como empresários resistem, transferem o choque para preços. Kaldor vê aí a raiz de uma inflação crônica, não cíclica.
- A solução kaldoriana: transformar a estrutura produtiva
Para Kaldor, a única saída real é mudar a estrutura produtiva, não apenas apertar juros. Isso significa:
• ampliar a participação de setores industriais complexos;
• desenvolver capacidades tecnológicas;
• fomentar economias de escala e escopo;
• criar um ecossistema de aprendizado contínuo.
Quando a complexidade sobe, o ciclo se transforma: produção → produtividade → salários reais → demanda → investimento.
A economia passa do “círculo vicioso inflacionário” para o círculo virtuoso do desenvolvimento.
- O Brasil e a leitura kaldoriana do presente
O Brasil é um caso exemplar da tese kaldoriana: uma economia de média/baixa complexidade tentando operar em “modo pleno emprego”. O impulso ao emprego não vem acompanhado de aumento de produtividade suficiente para sustentar salários reais mais altos; o resultado é a pressão inflacionária típica de estrutura produtiva frágil.
Kaldor diria: não é um problema de política monetária; é um problema de estrutura produtiva.
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A relação capital-trabalho mede, de forma simples e direta, quanto capital produtivo existe por trabalhador empregado na economia.
É um indicador clássico de desenvolvimento produtivo: quanto maior o estoque de máquinas, equipamentos, instalações, tecnologia e infraestrutura disponíveis por trabalhador, maior tende a ser a produtividade do trabalho.
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O que mede a Relação Capital-Trabalho?
- Quanto capital físico existe por trabalhador
Ela expressa a quantidade de máquinas, equipamentos, tecnologia e infraestrutura que cada trabalhador tem à disposição para produzir.
Mais capital → mais produtividade → salários maiores → economia mais sofisticada.
- É um indicador de “sofisticação produtiva”
Economias com setores industriais e tecnológicos fortes possuem intensidade de capital mais alta.
Países pobres têm menos máquinas por trabalhador, e a produtividade tende a ser baixa.
- Conecta-se diretamente ao salário real
Kaldor e a tradição estruturalista mostram:
salários só crescem de forma sustentável quando a produtividade cresce, e produtividade depende de capital por trabalhador.
Se a relação capital-trabalho cai, os salários reais tendem a sofrer.
- Mostra a capacidade de absorção tecnológica da economia
Com mais capital moderno, a economia consegue incorporar tecnologias, automatizar processos e ampliar escalas.
É um medidor de modernização industrial.
- Cai quando há destruição de capacidade produtiva
Quedas na relação capital-trabalho — como no Brasil pós-2015 — indicam:
• fechamento de fábricas
• queda do investimento
• sucateamento da capacidade produtiva
• informalização
• precarização do trabalho
É literalmente menos máquina por trabalhador.
- Explica parte do nosso drama recente: pleno emprego com baixa produtividade
O gráfico mostra isso claramente.
Mesmo com desemprego baixo em 2023–2024, o capital por trabalhador está abaixo do nível de 2012:
→ trabalhadores trabalhando mais
→ porém com menos equipamento, menos tecnologia, menos complexidade produtiva
→ isso trava produtividade
→ trava crescimento
→ trava salários
→ aumenta pressões inflacionárias de custos.
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