Os números impressionam à primeira vista. Taiwan crescendo 14%, lucros das empresas sul-coreanas disparando 159%, Japão registrando recordes corporativos. Parece que o modelo industrial do Nordeste Asiático nunca esteve tão bem. Mas por baixo dessa superfície reluzente, esconde-se uma deterioração silenciosa e preocupante.
A região opera hoje em duas velocidades. De um lado, o boom da inteligência artificial sustenta exportações extraordinárias de semicondutores e equipamentos de chipmaking. Do outro, o restante da indústria desmorona. Excluindo chips e servidores de IA, as exportações taiwanesas caíram 40% desde 2022. Na Coreia do Sul, as exportações não-IA estagnaram. No Japão, a indústria recua. A China, que durante décadas foi cliente e parceira dessas economias, tornou-se sua principal concorrente em automóveis, químicos e baterias.
O diagnóstico da The Economist desta semana é preciso: toda a expansão industrial da região desde 2019 é atribuível à IA. Sem ela, o setor manufatureiro do Japão, Coreia do Sul e Taiwan simplesmente encolheu.
Isso coloca em evidência uma vulnerabilidade estrutural profunda. As exportações representam 73% do PIB taiwanês e 46% do sul-coreano. Dois terços das vendas externas de Taiwan vão para apenas dois destinos: EUA e China. A concentração exportadora da região é 73% maior do que a média dos países ricos, segundo a UNCTAD. É uma aposta altíssima num único setor, vendido para pouquíssimos compradores, num mundo geopoliticamente instável.
Para piorar, a demanda doméstica é estruturalmente fraca para compensar qualquer reversão externa. O consumo privado fica em torno de 40% do PIB na Coreia do Sul e em Taiwan, muito abaixo dos 60% típicos das economias ricas. Isso não é acidente: é resultado de décadas de políticas que reprimiram salários e consumo para alimentar a máquina exportadora. Criou-se uma “aristocracia do trabalho” nas grandes exportadoras, enquanto a maioria da população — empregada em pequenas empresas sem proteção — permanece com renda insuficiente para sustentar o mercado interno.
A lição aqui vai além do Nordeste Asiático. Ela ilustra com clareza os riscos da desindustrialização prematura — e também os riscos da hiper-especialização industrial. Uma estrutura produtiva estreita, mesmo que tecnologicamente sofisticada, é frágil. O produto space de Hausmann e Hidalgo nos ensina que diversificação e complexidade caminham juntas: economias resilientes constroem capacidades em múltiplos setores interligados, não apostam tudo num único vetor.
O boom da IA pode durar alguns anos ainda. Mas o ciclo de semicondutores é notoriamente volátil. E quando a maré baixar, o que restará da base industrial mais ampla do Japão, Coreia do Sul e Taiwan? A resposta, hoje, é preocupante. A janela para diversificar está aberta — mas não ficará aberta para sempre.




“Isso não é acidente: é resultado de décadas de políticas que reprimiram salários e consumo para alimentar a máquina exportadora. Criou-se uma “aristocracia do trabalho” nas grandes exportadoras, enquanto a maioria da população — empregada em pequenas empresas sem proteção — permanece com renda insuficiente para sustentar o mercado interno.”
É uma descrição precisa do que acontece no mercado interno brasileiro. Renda do trabalhado baixa, câmbio permanentemente pressionado para calibrar competitividade industrial no preço (para uma indústria claudicante, diga-se de passagem) e compensar diferencial de riscos de mercados para investimentos financeiros especulativos. Um país sem nada a oferecer ao cidadão comum no curto e no longo prazo.
Como diz o povo: “Só Deus na causa!”.
Um país sem mercado interno vigoroso é um corpo sem alma…