O mundo no combate ao Coronavirus, lições para o Brasil

*escrito com Felipe Augusto e João Romero

Produzir importa! Brasil irá facilitar a importação de produtos médicos para tratar o Coronavírus. O problema vai ser encontrar fornecedores. No mundo, dezenas de países já baniram as exportações destes produtos devido à escassez mundial. Nos EUA, Trump segue sendo pressionado para que o governo federal lidere a reconversão por meio do Defense Production Act @nytimes mostra que, sem a coordenação e os estímulos federais, empresas não estão alcançando escala nem qualidade. A lei foi REAUTORIZADA mais de 50 vezes pelo Congresso, tendo permanecido em vigor quase todo o tempo Trump já invocou a lei antes. A última para expandir a produção de imãs de terras raras tendo em vista a ameaça chinesa de restringir exportações. A Lei é inspirada nos War Power Acts de 1941/42 Previa, além do racionamento de bens de consumo, a resolução forçada de disputas trabalhistas e até o estabelecimento de teto para preços e salários! Estes últimos ainda podem ser utilizados, desde que autorizados pelo Congresso. Trump anunciou que invocará o Defense Production Act para combater o COVID-19 A lei concede a ele ampla autoridade para direcionar empresas privadas a atender às necessidades de defesa nacional Em essência, uma economia planificada Já foi invocada mais de 50 vezes desde 1950. A intenção é garantir a oferta dos produtos essenciais à saúde dos seus cidadãos. E a preços estáveis Os EUA produzem apenas 1% das máscaras cirúrgicas de que necessitam Querem banir as exportações de produtos médicos e obrigar as empresas a produzi-los internamente

Produzir respiradores é difícil Exige centenas de partes, maior parte delas produzida no exterior Indústrias intensivas em impressoras 3D como automobilística e aeroespacial têm mais chances Mas precisam da expertise de produtores de respiradores. Assim, a pré-existencia de uma base industrial forte é crucial. Uma vez solucionados os gargalos, o próximo passo seria produzir + impressoras 3D São feitas de milhares de partes complexas e levam muito tempo para serem produzidas Décadas de sucateamento da indústria não ajudam. Sobre ventiladores mecânicos: Itália solicitou que o único produtor nacional quadruplicasse a produção. Mandou 25 técnicos treinados pelas Forças Armadas para ajudar Alemanha requereu mais 10 mil de um produtor nacional China doará 40 para a Itália. Após perceber que os países limitarão suas exportações, Governo britânico contatou 60 empresas para fabricarem 20 mil ventiladores Mandou doc de 2 págs com o processo produtivo, vídeo no youtube e paper acadêmico Empresas não se sentiram capazes Desindustrialização custa caro. Impressiona a obsessão chinesa com a autonomia tecnológica Em Wuhan, enquanto a cidade estava parada, uma produtora de semicondutores tinha vagões especiais em trens para transportar, com aprovação do governo, especialistas e trabalhadores para sua planta. No Brasil A iniciativa da @thabataganga  é espetacular!  É uma engenharia reversa “moderna” para fabricar peças para respiradores utilizando impressoras 3D. Mas os limites apontados acima se aplicam. Estado precisa entrar em campo

A China produzia 50% das máscaras cirúrgicas mundiais. Com o Corona, fábricas aumentaram a produção em 12 vezes! Virou Economia de Guerra. Estima-se que 10 mil empresas de bebidas, carros, fraldas e até naves espaciais passaram a produzir produtos médicos. Tudo com apoio do Governo, que flexibilizou licenças, concedeu subsídios e garantiu que comprará os estoques remanescentes A China não está sozinha Taiwan, por exemplo, também implementou uma política industrial de emergência para máscaras cirúrgicas. Uma hipótese para o sucesso de países asiáticos no combate ao COVID-19 sem necessidade de quarentena decorre do % da população usando máscaras cirúrgicas. Estado chines esta estimulando a reconversão industrial logo e conscientizando a população sobre a necessidade de utilizá-las. Agora, com a epidemia sob controle na China, países que não produzem o suficiente destes produtos dependerão da boa vontade dela, que já indica que utilizará sua relevância na produção mundial como instrumento de política externa Saúde é estratégico. Analista entrevistado pelo Global Times, periódico ligado ao Partido Comunista Chinês, afirma que a China poderia banir exportações de produtos médicos aos EUA como retaliação às sanções americanas à Huawei. Política industrial de emergência para conter o Coronavírus em Taiwan. I)Regulação, ii)Articulação entre instituições públicas e privadas, iii) Proibição das exportações. Compras governamentais Capacidade produtiva de máscaras deve aumentar 150% em um mês!

Espetacular matéria do @nytimes mostra que implementar política industrial é desafiador até para os EUA. Em 2007, oficiais do governo queriam uma “campeã” para produzir respiradores baratos com vistas a suprir o estoque nacional em caso de epidemia. Os respiradores custariam 30% do valor usual. O governo se comprometeria a comprar até 40 mil deles. O governo decidiu selecionar uma empresa menor, a Newport, porque ela seria mais ágil e poderia focar no contrato governamental. Para a Newport, ser reconhecida como uma fornecedora do governo traria prestígio. O valor dos ventiladores não garantiria lucros, mas a esperança era que, em seguida, ela pudesse avançar sobre o mercado internacional. A empresa recebeu US$ 6,1 milhões adiantados. Tudo corria bem. Em 2011, a empresa mandou 3 protótipos ao governo. Em 2012, um oficial do “Ministério da Saúde” testemunhou perante o Congresso que o programa estava dentro do cronograma para solicitar aprovação do mercado em 2013. Mas aí tudo mudou. A indústria de equipamentos médicos estava se tornando cada vez mais concentrada. Nesse contexto, a Newport acabou sendo vendida para a Covidien, uma empresa muito maior que também produzia respiradores, por apenas US$ 100 milhões. Oficiais do governo e executivos de empresas rivais suspeitavam que a Covidien havia adquirido a Newport para impedir que ela construísse um produto mais barato que prejudicaria os lucros da Covidien em seu negócio de respiradores. Executivos de Newport que trabalharam no projeto foram transferidos para outras funções. Outros decidiram deixar a empresa. Em 2014, nenhum ventilador havia sido entregue. Executivos da Covidien pediram para sair do contrato, pois não era suficientemente lucrativo para a empresa. O governo aceitou o cancelamento. Os EUA seguem sem ter o número de respiradores considerado necessário para enfrentar uma epidemia. A solução para isso não é trivial! Uma delas poderia ser adquirir participação societária na empresa que desse voz ao Poder Público em matéria de aquisições e fusões.

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Do video acima:”1, dumping chinês “levou” até luvas de silicone (1/3 da demanda!); 2, impressão 3d é lindo mas a solução teria de passar pela metalmec hard mesmo; 3, onipresença do problema legal-institucional-regulatório”

Para o Brasil agora é crucial aumentar a produção de materiais e equipamentos hospitalares (como respiradores) nesse momento de epidemia de Covid-19. Isso é possível, mas não é tarefa simples: requere grande esforço estatal de planejamento. O Brasil exportou só 0,18% do total mundial de respiradores em 2017: temos produção, mas é pequena. Em crises generalizadas como agora, cada país se esforça para lidar com a epidemia em seu território, o q dificulta ou impossibilita a importação dos equipamentos necessários.

Artigo de @cesifoti, @ricardo_hausman et al demonstrou q a prob. de produção competitiva de pares de bens indica proximidade em termos de capacidades requeridas pra produção. Qnto + bens produzidos, + capacidades, e + fácil migrar a produção entre bens


A rede de produtos competitivos da Alemanha, por exemplo, é muito mais densa q a do Brasil, e mto mais focada em máquinas (azul). No Brasil, portanto, a reconversão pra lidar com a epidemia será mais custosa do q na Alemanha: requer maior apoio e coordenação do Estado.

Um outro problema grave do Brasil é a elevada importação de insumos na produção de bens de maior teor tecnológico, como é o caso de boa parte dos equipamentos médicos, como mostra a figura elaborada por @PMorceiro. Um problema adicional q enfrentamos é o desmonte das estruturas de planejamento do Estado. O Ministério do Planejamento foi extinto, o BNDES foi esvaziado, e pesquisas vem sendo cortadas. Agora q precisamos da atuação do Estado, o mesmo têm sido lento nas respostas à crise. Resumo: reconversão produtiva é crucial pra atenuar a crise do Covid-19 A fragilidade da indústria brasileira, porém, torna necessária forte atuação do Estado para orientar esse processo, q é urgente. Depende do Ministro da Economia abandonar sua ideologia pra salvar vidas.

referências

Referências:

https://www.3dprintingmedia.network/why-we-need-ventilators/amp/?__twitter_impression=true

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30229968/

https://www.bloomberg.com/news/articles/2020-03-10/the-global-mask-shortage-may-be-about-to-get-much-worse

https://www.ft.com/content/5a2ffc78-6550-11ea-b3f3-fe4680ea68b5

https://asia.nikkei.com/Spotlight/Cover-Story/How-China-s-chip-industry-defied-the-coronavirus-lockdown

https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2020/03/22/china-vai-empregar-robos-que-usam-raios-uv-para-desinfetar-hospitais.htm

https://brpolitico.com.br/noticias/governo-federal-requisita-a-fabricantes-totalidade-de-respiradores/

https://mashable.com/article/experts-doubt-tesla-elon-musk-manufacture-ventilators/

https://www.3dprintingmedia.network/why-we-need-ventilators/amp/?__twitter_impression=true

USP/Poli desenvolve ventilador:

https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-exatas-e-da-terra/projeto-da-poli-permite-construir-ventiladores-pulmonares-15-vezes-mais-baratos-em-tempo-recorde/

2 thoughts on “O mundo no combate ao Coronavirus, lições para o Brasil”

  1. texto incrível, bem informativo porem um pouco maçante, de qualquer forma obrigado!!!!!!!!!!

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