O novo consenso de Londres e o velho de Washington

O London Consensus: Uma Nova Agenda Econômica para o Século XXI

O século XXI apresenta desafios complexos e interligados que exigem uma nova maneira de pensar a política econômica. Crises ambientais, desigualdade crescente, disfunções democráticas, mudanças tecnológicas disruptivas e riscos à coesão social impõem limites claros ao antigo modelo do Washington Consensus, que dominou as reformas econômicas nas últimas décadas do século XX. Em resposta a esse esgotamento, a London School of Economics propõe o London Consensus, um novo conjunto de princípios voltados a políticas públicas baseadas em evidências, voltadas não apenas para a eficiência econômica, mas para a justiça social, a sustentabilidade e a coesão institucional.

Ao contrário de seu antecessor, o London Consensus não é uma lista rígida de prescrições neoliberais. Ele não parte da suposição de que mercados sempre funcionam melhor quando livres de regulação, nem propõe austeridade fiscal como solução universal. Em vez disso, ele reconhece que instituições, contextos e capacidades estatais importam profundamente. A proposta é mais ampla, pragmática e fundamentada em dados, formulada com base em debates entre dezenas de pesquisadores e formuladores de políticas da LSE, a partir de múltiplos campos do conhecimento.

Um dos pilares centrais do novo consenso é o reconhecimento de que o Estado não deve ser apenas um agente corretor de falhas de mercado, mas um co-criador de valor público. Isso exige um Estado com capacidade de arrecadação fiscal robusta — em linha com as democracias avançadas, onde a carga tributária gira em torno de 35% a 40% do PIB —, com instituições públicas funcionais, profissionais qualificados e capacidade de executar políticas eficazes. Gasto público, por si só, não gera resultados: o foco deve estar na qualidade da implementação e na estrutura dos sistemas de gestão.

O London Consensus também desafia visões simplistas sobre mercados de trabalho. Em vez de uma escolha binária entre rigidez e flexibilidade, a proposta é equilibrar flexibilidade contratual com estruturas sólidas de proteção ao trabalhador, incluindo sindicatos fortes e sistemas de negociação coletiva. Essa abordagem busca assegurar produtividade, segurança econômica e adaptabilidade, nos moldes dos países nórdicos.

Na área de migração, o novo consenso reconhece o potencial positivo da mobilidade internacional, desde que bem gerida. Políticas migratórias bem desenhadas, como sistemas de pontos ou mecanismos temporários, podem combinar os ganhos econômicos com a proteção de direitos, ao mesmo tempo em que promovem integração social e evitam tensões políticas.

A educação e a saúde são destacadas como motores centrais do desenvolvimento humano. Mas o foco não é apenas aumentar os orçamentos, e sim investir em formação de professores, planejamento escolar, acompanhamento de desempenho e políticas adaptadas às necessidades locais. O mesmo se aplica à saúde: não basta ampliar o financiamento, é preciso alinhar incentivos, garantir eficiência e melhorar a qualidade do atendimento.

O livro também enfatiza a necessidade de enfrentar de frente a emergência climática, com políticas de descarbonização que conciliem desenvolvimento sustentável e inclusão. Isso implica tributar o carbono, incentivar tecnologias limpas e proteger os mais vulneráveis aos efeitos da transição. A política econômica do futuro deve ser verde, justa e viável politicamente.

Outro ponto chave é a desigualdade. O London Consensus não trata a desigualdade apenas como um subproduto tolerável do crescimento, mas como uma ameaça concreta à estabilidade política, à confiança social e à eficiência econômica. A recomendação é construir sistemas de proteção social mais robustos, usar impostos progressivos com inteligência e garantir oportunidades reais para todos.

Em síntese, o London Consensus propõe uma nova arquitetura para o pensamento econômico, mais sensível às complexidades do mundo real. Ele valoriza a evidência empírica, rejeita dogmas ideológicos e busca respostas adaptadas a contextos diversos. Seu objetivo é oferecer aos formuladores de política uma base moderna para enfrentar os dilemas contemporâneos com responsabilidade fiscal, visão estratégica e compromisso com o bem-estar coletivo.

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