O livro “State-Directed Development: Political Power and Industrialization in the Global Periphery” de Atul Kohli explora como diferentes estados têm conseguido ou falhado em promover o desenvolvimento econômico e a industrialização. Kohli argumenta que o papel do Estado é fundamental para o desenvolvimento e que o sucesso econômico está intimamente ligado à qualidade das instituições políticas e à capacidade do Estado de direcionar o crescimento.
Principais Ideias:
- Tipos de Estados e Desempenho Econômico: Kohli classifica os estados em três categorias principais, com base em seu papel no desenvolvimento econômico:
– Estados Neopatrimoniais: Esses estados são caracterizados por uma fraca burocracia, onde o poder é altamente personalizado e usado para benefício pessoal dos líderes. Exemplos incluem muitos países africanos. Estes estados tendem a ter um desempenho econômico pobre.
– Estados Desenvolvimentistas: São aqueles onde o Estado tem um papel central e eficaz na promoção da industrialização e do crescimento econômico. Exemplos incluem a Coreia do Sul e Taiwan. Esses estados possuem uma burocracia competente e comprometida com o desenvolvimento nacional.
– Estados Intermediários: Estados que têm algumas características dos estados desenvolvimentistas, mas são menos consistentes e mais suscetíveis a mudanças políticas. A Índia é um exemplo, onde o estado tem desempenhado um papel significativo na economia, mas com menos eficácia do que os estados desenvolvimentistas.
- Importância da Autonomia e Capacidades Estatais: Kohli argumenta que para promover o desenvolvimento econômico, os estados precisam ter autonomia, ou seja, a capacidade de tomar decisões independentes de grupos de interesse privados, e uma burocracia competente e eficiente que possa implementar políticas econômicas de longo prazo.
Experiências Comparativas de Desenvolvimento: Kohli usa estudos de caso de países como a Coreia do Sul, Brasil, Índia e Nigéria para mostrar como diferentes tipos de estados influenciaram o processo de industrialização e crescimento econômico. Ele destaca que enquanto estados desenvolvimentistas como a Coreia do Sul foram bem-sucedidos em impulsionar o crescimento industrial, estados neopatrimoniais como a Nigéria falharam devido à corrupção e à falta de uma burocracia eficaz.
Relação entre o Estado e o Mercado: Kohli critica a visão neoliberal que promove a redução do papel do Estado na economia. Ele argumenta que o desenvolvimento econômico eficaz é frequentemente dirigido por um estado forte que regula e coordena o mercado, em vez de deixá-lo funcionar de forma totalmente livre.
Políticas de Industrialização e Intervenção Estatal: Kohli enfatiza que políticas industriais proativas, onde o estado dirige e apoia setores específicos, são essenciais para o desenvolvimento econômico, especialmente em países da periferia global que buscam industrializar suas economias.
1. Brasil: Estado Intermediário com Capacidades Limitadas
Segundo Kohli, o Brasil representa um exemplo de “estado intermediário”. O país tem uma tradição de intervenção estatal significativa na economia, especialmente na promoção da industrialização e do crescimento econômico. No entanto, a eficácia do estado brasileiro tem sido limitada por fatores como corrupção, ineficiência burocrática e falta de consistência nas políticas econômicas.
- Políticas de Desenvolvimento: O Brasil adotou políticas de substituição de importações durante grande parte do século 20, promovendo a industrialização através da proteção de indústrias domésticas e investimentos estatais em infraestrutura e empresas estatais. Houve períodos de crescimento econômico robusto, especialmente durante o “Milagre Econômico” nas décadas de 1960 e 1970.
Limitações: Apesar de algumas vitórias no campo industrial, o desenvolvimento do Brasil foi frequentemente interrompido por crises econômicas, alta inflação, desigualdade social e políticas econômicas inconsistentes. Kohli observa que, embora o Brasil tenha um estado relativamente forte, sua burocracia é muitas vezes ineficiente e sujeita à corrupção, limitando a eficácia das políticas de desenvolvimento.
2. Índia: Estado Intermediário com Foco em Planejamento Centralizado
A Índia, assim como o Brasil, é classificada por Kohli como um “estado intermediário”. No entanto, a Índia tem uma abordagem distinta ao desenvolvimento econômico, marcada por um maior grau de planejamento centralizado e intervenções do estado.
- Políticas de Desenvolvimento: Após a independência, a Índia adotou um modelo de desenvolvimento econômico baseado em planejamento estatal, com um foco significativo em autossuficiência e substituição de importações. O governo investiu pesadamente em setores estratégicos, como indústria pesada, infraestrutura e tecnologia, através de empresas estatais.
Limitações e Resultados: Apesar do crescimento em algumas áreas, o desenvolvimento econômico da Índia foi prejudicado por burocracia excessiva, regulamentação rígida e políticas econômicas ineficazes que muitas vezes sufocaram a inovação e o crescimento no setor privado. No entanto, Kohli destaca que as reformas econômicas iniciadas na década de 1990 ajudaram a abrir a economia indiana e a promover um crescimento mais robusto nos últimos anos. A burocracia indiana é mais sólida e eficaz em comparação com a da Nigéria, mas ainda enfrenta desafios significativos em termos de eficiência e corrupção.
3. Nigéria: Estado Neopatrimonial e Subdesenvolvimento Crônico
A Nigéria é o exemplo de um “estado neopatrimonial” segundo Kohli, caracterizado por uma administração fraca e altamente personalizada, onde o poder é usado principalmente para o benefício pessoal dos líderes e suas redes, em vez de promover o desenvolvimento econômico nacional.
- Políticas de Desenvolvimento: A Nigéria tem lutado para desenvolver uma política econômica coerente que promova o crescimento industrial e o desenvolvimento econômico sustentável. O país tem sido fortemente dependente das exportações de petróleo, com poucos esforços para diversificar sua economia ou desenvolver setores industriais robustos.
Limitações e Resultados: Kohli argumenta que a corrupção endêmica, a má governança e a falta de uma burocracia competente têm impedido o desenvolvimento econômico da Nigéria. O estado nigeriano é fraco e mal estruturado, incapaz de implementar políticas econômicas eficazes ou criar um ambiente propício ao desenvolvimento. Isso resultou em um subdesenvolvimento crônico, com pouca industrialização e uma dependência contínua de receitas de recursos naturais.
Comparação Geral
Capacidades Estatais: O Brasil e a Índia, como estados intermediários, possuem capacidades estatais relativamente maiores que a Nigéria, mas ambos enfrentam desafios de ineficiência e corrupção. A Nigéria, como um estado neopatrimonial, tem uma capacidade estatal significativamente mais fraca, prejudicando sua capacidade de promover o desenvolvimento.
Políticas de Desenvolvimento: O Brasil e a Índia adotaram políticas de substituição de importações e intervenções estatais significativas para promover a industrialização, enquanto a Nigéria não conseguiu desenvolver uma estratégia econômica coerente além da dependência do petróleo.
Resultados Econômicos: A Índia e o Brasil conseguiram alcançar um nível moderado de industrialização e desenvolvimento econômico, embora com muitas limitações. A Nigéria, por outro lado, permanece em um estado de subdesenvolvimento devido a políticas econômicas fracas, má governança e corrupção.
Em suma, segundo Kohli, o sucesso ou fracasso no desenvolvimento econômico é altamente dependente da capacidade do estado e de sua eficácia em implementar políticas de desenvolvimento estratégicas. O Brasil e a Índia, apesar de suas falhas, mostram um potencial maior de desenvolvimento econômico em comparação com a Nigéria, que sofre de uma administração fraca e orientada por interesses patrimoniais. Atul Kohli argumenta que o papel do Estado é crucial para o desenvolvimento econômico. Estados com uma burocracia forte e um compromisso com o desenvolvimento nacional são mais propensos a promover a industrialização e o crescimento econômico. O livro desafia a ideia de que o desenvolvimento econômico pode ser alcançado apenas por meio de políticas de mercado livre, destacando a importância de um estado ativo e bem administrado.

