- O contraste entre os números: Uma corrida contra o próprio fôlego
O Brasil de 2025 vive uma realidade econômica de sinais trocados. É como se o país estivesse correndo uma maratona onde suas pernas industriais se movem mais rápido do que nunca, mas a linha de chegada de um equilíbrio comercial parece recuar a cada passo. O cenário geral é, à primeira vista, positivo: encerramos o ano com um superávit comercial robusto de US$ 68,3 bilhões. Contudo, sob o capô dessa balança, o motor da indústria de transformação fundiu.
A indústria registrou um déficit de US 71,1 bilhões em 2025, o maior buraco de toda a série histórica iniciada em 1997. Nem mesmo o fator extraordinário da importação de plataformas de petróleo — que somaram US 5,3 bilhões e pesaram negativamente — serve como desculpa absoluta. Ainda que ignorássemos essas plataformas, o déficit permaneceria em níveis recordes, superando os vales profundos de 2013 (US 64,8 bilhões) e 2014 (US 63,6 bilhões). O que vemos é uma deterioração estrutural da balança de transformação que nenhum volume de exportação de commodities parece capaz de estancar.
- O Paradoxo do Crescimento: A armadilha da dependência estrutural
O fenômeno não é fruto de uma paralisia das vendas, mas de uma aceleração desproporcional das compras. As exportações industriais brasileiras cresceram 3,8% em 2025, um desempenho que, isoladamente, seria motivo de comemoração. O problema reside no ritmo frenético dos desembarques: as importações de bens industriais saltaram 8,6%, mais que o dobro da velocidade das vendas.
Essa dinâmica revela uma dependência estrutural crônica. O aumento da produtividade exportadora não consegue acompanhar a necessidade de consumir tecnologia e insumos externos. Esse “hiato tecnológico” cria um cenário onde, quanto mais o país tenta produzir ou consumir de forma moderna, mais ele precisa se socorrer no mercado global, aprofundando o fosso comercial.
- A Queda de um Ícone: O setor de aeronaves perde altitude
Por quase duas décadas (1999-2018), o setor aeroespacial foi o estandarte da sofisticação brasileira, mantendo superávits ininterruptos. No entanto, essa trajetória perdeu sustentação. Em 2025, o setor enfrentou um déficit de US 9,9 bilhões, um abismo comparado ao saldo negativo de apenas US 604 milhões em 2019.
A explicação reside no ônus da transição energética. A pressão global pela descarbonização impôs o uso do Combustível Sustentável de Aviação (SAF), e o Brasil agora corre contra o relógio para se adaptar. A Lei 14.993/2024, do Programa Combustível do Futuro, já estabelece o início do uso obrigatório de SAF para voos domésticos a partir de 2027, exigindo investimentos tecnológicos massivos que, por ora, inflam as importações.
“Há sinalização de que está se criando uma interação positiva entre a aviação nacional, a necessidade de conectividade na escala continental do Brasil e a nossa competência industrial na produção de aeronave. Os sinais são positivos, mas ainda importamos muito.” — Rafael Cagnin, economista-chefe do Iedi.
- A “Febre” das Importações e o Hiato Farmacêutico
Se o setor de aeronaves luta para se manter no ar, o setor farmacêutico ilustra o custo de ficarmos para trás no ciclo de inovação. O déficit comercial da área dobrou desde 2019, saltando de US 7 bilhões para US 15 bilhões em 2025. O aumento foi impulsionado pela demanda contínua do Sistema Único de Saúde (SUS) e pela explosão de consumo das chamadas “canetinhas” de emagrecer, que o país ainda não produz em escala competitiva.
O problema é geopolítico: durante e após a pandemia, China e Índia concentraram de forma absoluta a produção de insumos básicos, enquanto as potências globais redesenharam suas políticas industriais para proteger esses ativos estratégicos. O Brasil, sem um arranjo regulatório que minimize riscos tecnológicos, assiste ao avanço do ciclo global de fora.
“O ciclo tecnológico avançou no mundo e nós ficamos mais para trás. É preciso acelerar essas facilitações do processo inovativo, que envolvem não somente financiamento. O problema maior hoje é do ponto de vista regulatório e de arranjo de políticas que permita minimizar riscos tecnológicos.” — Rafael Cagnin, economista-chefe do Iedi.
- Máquinas, Juros e a Onipresença Chinesa
O maior rombo setorial, porém, está no grupo de média-alta tecnologia, com um déficit de US$ 82,4 bilhões, puxado principalmente por produtos químicos e máquinas e equipamentos. Aqui, a indústria nacional enfrenta um moinho de vento duplo: taxas de juros domésticas elevadas, que asfixiam o investimento em bens de capital, e a concorrência agressiva da China. O player asiático tem ocupado o espaço que a produção nacional, debilitada pelo baixo investimento, não consegue mais preencher.
- O Fator “Tarifaço”: Ruído Geopolítico e Redesenho de Cadeias
Muitos analistas temiam que o “tarifaço” imposto pelos Estados Unidos em 2025 fosse o golpe de misericórdia na indústria brasileira. Contudo, os dados do Iedi mostram que, embora nichos específicos tenham sofrido, o agregado das exportações conseguiu crescer.
O “tarifaço” deve ser lido menos como um bloqueio comercial e mais como um sintoma da fragmentação das cadeias globais de valor. Estamos diante de um redesenho geopolítico onde o protecionismo e a desorganização do comércio internacional forçam o Brasil a buscar novos papéis em um tabuleiro cada vez mais hostil e fragmentado.
- Conclusão: O esgotamento do modelo de baixa tecnologia
Historicamente, o Brasil contou com o setor de média-baixa tecnologia — capitaneado por alimentos e bebidas — para equilibrar as contas. Em 2025, esse grupo ainda gerou um superávit de US$ 59,5 bilhões. Entretanto, o brilho desse resultado está desaparecendo: as exportações do setor caíram 1%, enquanto as importações subiram 1,7%. É a única faixa que mostra sinais claros de fadiga exportadora.
A lição de 2025 é urgente: não se sustenta um país de renda média apenas exportando calorias e importando inteligência. Se o Brasil não acelerar suas políticas de inovação e segurança tecnológica, o superávit das commodities será meramente um subsídio para continuarmos importando, a preços de ouro, o futuro que não temos competência — ou coragem regulatória — para produzir aqui dentro.

