O passo a passo da Coréia do Sul para se transformar numa potência tecnológica mundial: Estado + Mercado

*escrito com Ligia Zagato

Tendo se transformado, em menos de cinquenta anos, de uma pequena economia rural em um dos países mais tecnologicamente avançados do mundo, a Coreia do Sul é, provavelmente, o melhor exemplo de país que realizou catching-up por meio da implantação de políticas industriais. Sob o governo do famoso General Park (1963-79), o país adotou uma estratégia de desenvolvimento embasada no planejamento e na aplicação de diretrizes que se revelariam muito bem-sucedidas na promoção de avanços tecnológicos. A burocracia coreana foi responsável não apenas pela criação desses planos, mas também pela sua aplicação, por meio da adoção de medidas de eficiência. A cada nova etapa de desenvolvimento, o Estado reavaliava os setores a serem incentivados. No começo da década de 1960, foram priorizados os segmentos de perucas, brinquedos, compensado de madeira, cimento, fertilizantes e fibras sintéticas. No começo dos anos 1970, indústrias de base, como a química, a siderúrgica e a de maquinário, foram as prioridades, de tal modo que, ao final da década, a Coreia do Sul já tinha setores sofisticados de construção naval e aço. Houve, então, uma nova onda de substituição de importações que permitiu a produção de automóveis e, depois, a de eletrônicos. Em meados da década de 1980s, a Coreia do Sul já tinha uma indústria autônoma intensiva em tecnologia que produzia peças para o setor automotivo e bens de alta tecnologia, como computadores, chips de memória, eletrônicos e semicondutores para exportação (Amsden, 1989). Tudo isso resultou em um leapfrogging produtivo rumo ao topo da curva S de complexidade econômica no decorrer de poucas décadas.

Além de ter escolhido os setores e empresas privadas a serem auxiliadas pelo Estado, o governo coreano também tinha o importante papel de decidir quais empresas manteriam seus benefícios, por meio do uso de “cenouras” e “chicotes”, para usar os termos de Rodrik (2008). Assim, o Estado não se limitou a dar incentivos a empresas, já que assegurou um sistema no qual apenas empresas privadas que apresentassem resultados continuassem a ser beneficiadas pelo setor público.  Isso foi crucial para evitar o problema de rent-seeking, no qual empresas receberiam proteção sem contrapartidas de progresso tecnológico e de competitividade que o desenvolvimento econômico exige. Um dos grandes pontos fortes do Estado desenvolvimentista coreano foi sua grande capacidade de não apenas “escolher vencedores”, mas também “podar perdedores”, isso é, não apenas conceder benefícios a empresas potencialmente capazes, mas também retirar benefícios a empresas que se mostrassem incompetentes. O setor automotivo é um grande exemplo doesse processo: apesar de no passado algumas produtoras de automóveis terem sido estabelecidas na Coreia com ajuda de subsídios estatais diretos e indiretos, hoje resta apenas uma empresa puramente coreana no setor, a Hyundai (Studwell, 2013).

Segundo Lee (2013), as empresas coreanas passaram por um longo período de aprendizagem, no qual assimilaram e adaptaram tecnologia estrangeira nas décadas de 1960 e 1970 antes de terem começado a internalizar  a realização de P&D, em meados dos anos 1980. No começo de sua industrialização, a Coreia do Sul desenvolvera setores tecnológicos de ciclo longo e produção de baixo valor agregado, como têxteis e perucas. Para isso, fiou-se principalmente em fabricantes originais de equipamento (OEMs, em inglês) do tipo montadora, e adotou tarifas e sucessivas desvalorizações de sua moeda. Mais tarde, fez gradualmente a transição para setores de tecnologia de ciclo mais breve, produzindo produtos de ponta e alto valor agregado. No entanto, a partir de um determinado ponto desse processo, empresas locais passaram a adotar uma estratégia de “pular etapas” realizadas por empresas de outros países. Isso significou produzir produtos de design próprio  efetivamente inovadores, que renderam direitos de propriedade intelectual (IPRs, em inglês), de modo a evitar a importação de produtos caros. Na década de 1980, a LG, por exemplo, tomou um “atalho” e ao invés de replicar a tecnologia japonesa de TVs analógicas de alta definição, passou a produzir diretamente TVs digitais de alta definição. O sucesso desses produtos no mercado global exigiu forte intervenção do banco central sul coreano no mercado cambial do país para manter a competitividade do Won e promover suas exportações industriais. Essa gestão cambial pró-competitividade aconteceu em diversos outros países como estratégia de promoção de exportação de manufaturados(Dornbusch e Park, 1999; Rhee e Song 1999), inclusive Cingapura (Banco Mundial, 1993).

Referências

Amsden, A. (1989) Asia’s Next Giant: South Korea and Late Industrialization, 1ª ed., Oxford, Oxford University Press.

Banco Mundial (1993) The East Asian Miracle, economic growth and public policy. Nova York, Oxford University Press.

Chang, H-J. (1990) Interpreting the Korean Experience – Heaven or Hell?. Research Paper 42, Faculty of Economics and politics, University of Cambridge.

Chang, H-J. (1993) The political economy of industrial policy in Korea, Cambridge Journal of Economics, vol. 17, no. 2, June, 131-157. https://doi.org/10.1093/oxfordjournals.cje.a035227

Chang, H. J. (2002) Kicking Away the Ladder: Development Strategy in Historical Perspective, Anthem Press.

Chang, H. J. & Lin, J. (2009) Should industrial policy in developing countries conform to Comparative Advantage or Defy it? A Debate Between Justin Lin and Ha-Joon Chang. Development Policy Review, 2009, 27 (5): 483-502.

Dornbusch, R. & Park, Y. C. (1999) Flexibility or nominal anchors?. In Stefan Collignon, Jean Pisani-Ferry e Yung Chul Park (Orgs.), Exchange Rate Policies in Emerging Asian Countries, Nova York, Routledge.

Evans, P. (1995) Embedded autonomy: states and industrial transformation. Princeton: Princeton University Press.

Fu, X., Pietrobelli, C. & Soete, L. (2011) The Role of Foreign Technology and Indigenous Innovation in the Emerging Economies: Technological Change and Catching-up. World Development. Vol. 39, 7, 1204-1212.

Kohli, A. (2012) Coping with globalization: Asian versus Latin American strategies of development, 1980-2010. Brazilian Journal of Political Economy, v.32, n.4, 531-556. http://dx.doi.org/10.1590/S0101-31572012000400001

Lee, K. (2013) Schumpeterian Analysis of Economic Catch-up: Knowledge, Path-Creation, and the Middle-Income Trap. Cambridge, Cambridge University Press, http://dx.doi.org/10.1017/CBO9781107337244

Rhee, Y. & Song, C. (1999) Exchange rate policy and effectiveness of intervention: the case of South Korea. In: Collignon, S.; Pisani-Ferry, J.; Park, Y. C. (Ed.). Exchange rate policies in emerging Asian countries. New York, Routledge.

Rodrik, D. (2008) Industrial Policy: Don’t ask why, ask How. Middle East Development Journal, Demo Issue, 1–29, Harvard University.

Stiglitz, J. E., Greenwald, B.C. (2014) Creating a learning society: A new approach to growth, development, and social progress. New York, Columbia University Press.

Studwell, J. ( 2013) How Asia Works: Success and Failures in the World’s Most Dynamic Region. New York, Grove Press.

5 thoughts on “O passo a passo da Coréia do Sul para se transformar numa potência tecnológica mundial: Estado + Mercado”

  1. Muito interessante esta análise do desenvolvimento econômico da Coréia do Sul. Se este modelo tivesse sido replicado no Brasil, hoje o país estaria sem dúvida em melhores condições econômicas e sociais. Porém, este modelo implica em forte investimento em Educação/Instrução, algo que jamais foi prioridade dos sucessivos governos no Brasil, pois não enxergam um palmo além do nariz, para ser claro e direto.

  2. O artigo ignora a situação dos empregados da Coreia que ñ tém nenhuma liberdade e onde is sindicatos são, legalmente, controlados pelas grandes corporações privadas com o total apoio do governo. A jornada estende até 68 horas semanais. Acidentes de trabalho, mortes por estafa, trabalhos oficiosos em fins de semana. A o articulista ignora o trabalhador como todo neoliberal rasteiro, modelo boçal Guedes. Fica a pergunta: A Coreia seria o que é em um regime democrático ou o tal capitalismo só “evolui” com a apropriação da mais valia?

  3. Paulo,como você também considero que nosso câmbio estava”apreciado”,mas..será que essa atual desvalorização não está demasiada!!?pois,veja com o exemplo que estou passando/vivendo,cheguei no Perú,país vizinho,com 7×Menor população e parque industrial/Economia muito menor que o nosso,vim à7anos quase,quando o Real estava25%mais”Forte”que a moeda local (Sol!!)e…pasmem…desde então,até hoje…esse Sol-Peruano”oscilou”5%para mais ou para menos, $a3,30em média!!!menor valor $a3,15 maior valor $a 3,45!!!e…Nosso Real…Quas100%de…desvalorização…Hoje…oSol-Peruano está50%mais”Forte”que o Real…Sendo todas essas”Características”e localização…algo similares…ou até…mais”positivas”,para o”nosso lado”mas…como pode se explicar então essa”inanição”do Brasil para com todos os seus”pares”Sul-Americanos!!!???

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