A Zona Franca de Manaus é provavelmente a política industrial mais longeva e mais controversa do Brasil. Criada em 1967, ela sustenta hoje um parque fabril que faturou R$ 227 bilhões em 2025, o maior valor de sua história, e que mantém uma média mensal superior a 131 mil empregos diretos formais. Quando se somam os empregos indiretos e induzidos, as estimativas variam entre 500 mil e 700 mil postos de trabalho dependentes da atividade industrial do polo. Mas o que aconteceria se os subsídios acabassem amanhã? Façamos o exercício: suponha que o fim dos incentivos fiscais derrubasse a produção industrial da região em 50%. Qual seria o tamanho da destruição de empregos?
Comecemos pelos empregos diretos. A literatura empírica sobre elasticidade emprego-produto na indústria de transformação costuma encontrar valores entre 0,6 e 0,9 — ou seja, uma queda de 10% na produção destrói entre 6% e 9% dos empregos. Mas essa elasticidade vale para flutuações cíclicas, quando as empresas reduzem turnos, cortam horas extras e seguram demissões à espera da recuperação. Um choque permanente é outra história. O fim dos incentivos não seria uma recessão: seria uma mudança estrutural de competitividade. Fábricas de televisores, motocicletas e condicionadores de ar que só existem em Manaus por causa do diferencial tributário simplesmente fechariam as portas e migrariam para São Paulo, para o Paraguai ou para a Ásia. Nesse cenário, a elasticidade converge para um: queda de 50% na produção significa algo entre 55 mil e 70 mil empregos diretos destruídos.
O problema é que a conta não para aí. A indústria é o setor com os maiores encadeamentos produtivos da economia — é exatamente por isso que ela importa tanto para o desenvolvimento. Cada emprego fabril no PIM sustenta uma cadeia de fornecedores locais, transportadoras, empresas de logística, serviços de manutenção, alimentação, segurança e limpeza. E sustenta também, pelo efeito-renda, o comércio e os serviços da cidade: o salário do metalúrgico vira aluguel, supermercado, escola particular, corte de cabelo. As estimativas oficiais sugerem um multiplicador de emprego entre 3,5 e 5 para o polo. Aplicando um multiplicador conservador de 3,5 a 4 sobre a perda de empregos diretos, chegamos a uma destruição total na faixa de 200 mil a 280 mil postos de trabalho na região metropolitana de Manaus.
Há um agravante distributivo nessa aritmética. Mais da metade dos trabalhadores do polo ganha até dois salários mínimos, e o salário médio gira em torno de R$ 3.800. É uma massa salarial de baixa renda, com altíssima propensão a consumir localmente. Quando esse tipo de renda desaparece, o efeito multiplicador negativo sobre o comércio local é máximo — diferente do que ocorreria com a perda de empregos de alta renda, cuja poupança e consumo importado amortecem o impacto regional.
Mas o ponto mais importante do exercício não é o número em si. É a pergunta seguinte: para onde iriam esses trabalhadores? A resposta da teoria da complexidade econômica é desconfortável. A economia de Manaus depende da indústria em cerca de 85%. Não existe, no espaço de produtos regional, um setor adjacente com escala e sofisticação capazes de absorver 200 mil trabalhadores. Não há agronegócio exportador relevante, não há polo de serviços sofisticados, não há mineração em escala. As capacidades produtivas acumuladas em seis décadas de eletroeletrônica e duas rodas — engenheiros de produção, técnicos de manutenção, gestores de cadeias de suprimento — não encontrariam emprego alternativo na região. Seriam destruídas ou migrariam.
O resultado previsível seria uma combinação de desemprego persistente, informalização e êxodo populacional — o roteiro clássico das cidades industriais do Rust Belt americano depois do choque chinês, ou de Detroit depois do colapso automotivo. Com uma diferença crucial: Detroit fica a poucas horas de Chicago e de outros mercados de trabalho dinâmicos. Manaus é uma ilha urbana de 2,2 milhões de habitantes no meio da floresta, a 3.900 quilômetros de São Paulo. Os custos de realocação são proibitivos, e a alternativa de renda mais óbvia na região — a exploração predatória da floresta — é exatamente aquilo que a Zona Franca, com todos os seus defeitos, ajudou historicamente a conter. Não por acaso, o Amazonas mantém mais de 95% de sua cobertura florestal original, o melhor índice da Amazônia Legal.
Nada disso significa que o modelo seja perfeito ou que não deva ser discutido. A Zona Franca tem custo fiscal elevado, gera pouca inovação local, exporta pouco e nunca conseguiu adensar suas cadeias produtivas como prometia. A discussão sobre reformá-la — exigir contrapartidas de P&D, conectá-la à bioeconomia, aumentar o conteúdo regional — é legítima e necessária. Mas qualquer debate sério precisa partir da aritmética do emprego: desmontar o polo sem construir alternativa significa condenar uma metrópole inteira ao colapso econômico, com consequências sociais e ambientais que ultrapassam em muito a fronteira do Amazonas. Política industrial se discute olhando para o futuro, mas se desmonta olhando para quem vive dela hoje.

