O que é Ortodoxia, Heterodoxia e Pluralismo em Economia?

*escrito com Jõao Romero

As dinâmicas de sociedades e economias são extremamente complexas e geram grandes debates. Há um interesse crescente no Brasil pela discussão ortodoxia-heterodoxia em economia e também muita confusão. Na economia, a abordagem atualmente dominante (ortodoxa) usa um tipo de modelo matemático (neoclássico). A heterodoxia é o conjunto das abordagens alternativas. Engloba as escolas marxista, institucionalista, pós-keynesiana, neo-Schumpeteriana, estruturalista, austríaca, etc.Heterodoxia não tem a ver com o uso de matemática e econometria. Diversas abordagens heterodoxas usam modelos matemáticos (diferente dos neoclássicos, como no artigo abaixo) e/ou econometria. Mas há tb o uso de estudos de caso, análise histórica, etc. (https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.2753/PKE0160-3477300307)

Econometria é um importante instrumento para o dialogo de diferentes teorias. Contudo, o uso de modelo ou referencial teórico não neoclássico pra fundamentar a equação a ser testada muitas vezes impede a publicação de artigos de perspectivas heterodoxas em alguns periódicos. Ao longo dos anos várias mudanças foram ocorrendo na ortodoxia. Análises empíricas ganharam espaço, diversas hipóteses dos modelos foram sendo relaxadas, e o consenso dentro do mainstream foi se alterando, ainda que com pouquíssima abertura a metodologias diferentes. Diversas ideias que já ocupavam lugar central em teorias heterodoxas há muitos anos só entraram na ortodoxia décadas depois. É o caso de economias de escala, racionalidade limitada, instituições, agentes heterogêneos, economia comportamental e economia regional. O professor Marc Lavoie (vídeo) separa também ortodoxos dissidentes, que são os que saem do mainstream (economia de livro-texto) pra gerar grandes inovações na ortodoxia, como Stiglitz, Krugman e outros. Há inclusive alguns que se tornaram heterodoxos depois.

Diversos centros importantes têm economistas heterodoxos ou ortodoxos dissidentes, e vários departamentos têm maioria heterodoxa. Para citar alguns exemplos: Cambridge, UCL, Leeds, Sussex, Greenwich, UNU-Merit, Siena, RomaTre, Paris13, Columbia, Harvard, NewSchool e UMass. Em diversos centros, porém, alunos só estudam a economia neoclássica, e nos principais periódicos só são publicados artigos com referencial neoclássico. Isso gera graves problemas na profissão, e acabou gerando um movimento internacional por maior pluralismo em economia. Existe falta de acesso ao pensamento heterodoxo, um “problema de oferta”. No Brasil temos ainda muitos heterodoxos brilahntes. Algo semelhante ocorre na India.

O movimento por maior pluralismo em economia ganhou peso nos anos 2000, inspirando iniciativas como @RebuildMacro, @rethinkecon, @DivDecEcon.A crise financeira reforçou o movimento, pois heterodoxos alertaram para o risco de crise, mas não foram ouvidos.

https://en.wikipedia.org/wiki/Pluralism_in_economics

Uma importante iniciativa para pluralismo é o @INETeconomics (@CambridgeINET, @INETOxford, @ysi_commons), que tem promovido encontros ao redor do mundo p/ debater economia de forma plural, considerando tanto a abordagem neoclássica como as alternativas.

https://www.ineteconomics.org/about/our-purpose

A falta de pluralismo limita o desenvolvimento da ciência econômica. Segundo o Prêmio Nobel George Akerlof (vídeo), isso incentiva pesquisas sobre perguntas fáceis e desincentiva pesquisas sobre questões complexas, gerando tb outros problemas (figura).

https://www.ineteconomics.org/events/reawakening/agenda/taking-the-con-out-of-economics-the-limits-of-negative-darwinism

O método da economia neoclássica não é o problema. Todo modelo tem suas vantagens e suas limitações e o mesmo vale para diferentes metodologias.O problema é não reconhecer as virtudes de abordagens alternativas à neoclássica, reduzindo o pluralismo e a inovação em economia. O @Cedeplar e a @faceUFMG, a UnB, a Unicamp, PUC-SP, a USP e FGV (mais no passado e bem menos hoje) sempre prezaram pela pluralidade de ideias. Enquanto estudantes, tivemos a oportunidade de aprender tanto os modelos neoclássicos (que hoje também ensinamos), como abordagens alternativas. Em suma, o debate sobre ortodoxia-heterodoxia é na verdade sobre a importância da pluralidade. Maior pluralismo gera mais inovação, possibilita que métodos diferentes sejam usados/combinados para entender problemas econômicos complexos, e enriquece o debate e o aprendizado.

paper sobre o tema: https://ideas.repec.org/a/anp/econom/v13y2012i11_14.html

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