*escrito por Luis Felipe Giesteira
A ascensão da China à posição de maior economia do mundo, medida em paridade de poder de compra (PPP), é muitas vezes explicada pelas políticas econômicas adotadas a partir dos anos 1990. De fato, o país aplicou com sucesso estratégias “listianas” — similares às dos Tigres Asiáticos — que combinaram proteção temporária de setores industriais, forte planejamento estatal, investimentos em infraestrutura e estímulo à exportação. No entanto, limitar essa ascensão a uma narrativa de política econômica recente é negligenciar a profundidade histórica do fenômeno. Do ponto de vista geopolítico e civilizacional, trata-se menos de uma emergência e mais de uma restauração: o retorno de uma civilização milenar à sua antiga centralidade no sistema internacional.
Geograficamente, a China dispõe de um dos territórios mais férteis e estratégicos do mundo. Possui a terceira maior reserva de terras aráveis, uma posição privilegiada na zona temperada do Hemisfério Norte, duas vastas bacias fluviais (Yangtzé e Amarelo) com longos trechos navegáveis e abundantes reservas minerais — sendo a segunda maior potência mineral do planeta, atrás apenas da Rússia. Esses fundamentos naturais ajudaram a sustentar o desenvolvimento de uma civilização contínua por milênios. O Estado chinês, consolidado como império sob a dinastia Qing por volta de 1750 — antes da formação da maioria dos estados-nação europeus — já exercia controle efetivo sobre vastos territórios, uma burocracia eficiente e uma sofisticada economia agrário-manufatureira.
Segundo historiadores econômicos como Giovanni Arrighi, Kenneth Pomeranz e Andre Gunder Frank, a China experimentou entre os séculos XIII e XVII uma “proto-revolução industrial” com técnicas avançadas de metalurgia, produção têxtil, navegação e impressão, o que a colocava em pé de igualdade, ou até superioridade relativa, com a Europa do período. As estimativas de Angus Maddison mostram que em 1700 o PIB per capita chinês correspondia a 84% do da Europa Ocidental e 112% do dos EUA. A longa decadência que se seguiu — impulsionada pelas guerras do ópio, os tratados desiguais e a fragmentação política — levou o país a um colapso econômico, atingindo apenas 11% do PIB per capita europeu e 5% do americano em 1950.
Essa queda dramática é explicada menos por falhas internas e mais pelas agressões coloniais e o desmonte sistemático de sua autonomia política e tecnológica. Daí que autores como Arrighi argumentem que o recente crescimento chinês deve ser lido como uma “retomada do status histórico”, mais do que como uma simples convergência moderna. O reconhecimento da República Popular da China pela ONU em 1971 — quando os EUA transferem o assento do Conselho de Segurança de Taiwan para Pequim — marcou um ponto de inflexão. A partir daí, iniciou-se o que Immanuel Wallerstein chamou de “desenvolvimento a convite”: os EUA passaram a permitir o acesso chinês aos mercados globais, às universidades ocidentais e ao circuito internacional de inovação, como haviam feito antes com Japão, Coreia do Sul e Taiwan.
Esse convite, entretanto, tem limites explicativos. Até o início do século XXI, a China podia ser considerada uma potência “em órbita” da hegemonia americana, mas esse vínculo se dissolveu gradualmente após o XIX Congresso do Partido Comunista Chinês, em 2017. A partir desse marco, o país demonstrou clara ambição de disputar protagonismo tecnológico e geopolítico global. Os avanços em inteligência artificial, energia fotovoltaica, veículos inteligentes, fusão nuclear e até caças de sexta geração revelam uma China que deixou de ser mera imitadora criativa. Diferentemente dos outros casos asiáticos, a China desafia diretamente setores estratégicos e sensíveis do Ocidente, tal como a URSS tentou fazer na década de 1950, mas com muito mais integração produtiva global.
Ainda assim, o país segue distante do patamar relativo anterior às agressões imperialistas. Para recuperar o nível de 80% do PIB per capita europeu, seria necessário mais de uma geração de crescimento sustentado, o que, em termos absolutos, significaria que o PIB chinês seria o dobro do americano. Em valores de 2025, o PIB chinês já é cerca de 20% maior que o dos EUA em termos de PPP, mas 10% menor em dólares correntes. Essa comparação se torna ainda mais impressionante ao lembrar que os EUA são o país mais poderoso da história: com uma extensão 90% maior que a do Império Romano em seu auge, terras abundantes, recursos naturais vastos e capacidade científica e militar sem paralelo.
Caso a tendência atual de convergência se mantenha, no fim deste século a China poderá atingir novamente seu “leito natural geopolítico”, com o dobro da economia americana. Para efeito de comparação, mesmo no seu ápice, a União Soviética jamais passou de 44% do PIB dos EUA. Uma China neste patamar dificilmente caberia na ordem internacional moldada no pós-Guerra Fria, que se estruturou com base em uma hegemonia unipolar americana e em instituições voltadas à manutenção dessa supremacia.
Ainda não se sabe como será essa nova ordem mundial. Suas regras e instituições — formais e informais — estão sendo construídas em tempo real, muitas vezes por tentativa e erro. Como escreveu Samuel Pinheiro Guimarães em O Brasil na Era dos Gigantes, o desafio é interpretar esse novo mundo em formação. Trata-se, nas palavras de Robert Kaplan, de um “momento hegeliano” da história — em que décadas parecem se condensar em poucos dias. Uma divisão do mundo em dois blocos, inaceitável para os EUA do final do século XX, pode se tornar um “negócio da China” para os EUA do final do século XXI.






A Muralha da China é uma das obras de engenharia mais impressionantes da história da humanidade, com uma construção que se estendeu por mais de dois mil anos. Sua função principal sempre foi militar: proteger os impérios chineses de invasões vindas do norte, especialmente dos povos nômades das estepes da Ásia Central, como os xiongnu, mongóis e manchus.
Período inicial – Estados Combatentes (século V a.C. a 221 a.C.)
Antes da unificação da China, os diversos reinos independentes da era dos Estados Combatentes já construíam muros e fortificações para se defender uns dos outros. Essas muralhas eram locais e desconectadas.
Dinastia Qin (221–206 a.C.) – A unificação das muralhas
O imperador Qin Shi Huang, o primeiro a unificar a China, ordenou a ligação dessas seções para criar uma linha contínua de defesa contra os xiongnu. A construção foi feita com enormes esforços humanos, envolvendo centenas de milhares de camponeses, soldados e prisioneiros. A técnica incluía o uso de terra compactada entre camadas de madeira.
Dinastias Han e seguintes (206 a.C. a 618 d.C.)
Durante a dinastia Han, a muralha foi estendida ainda mais para proteger as rotas comerciais da Rota da Seda. Além de defesa, passou a ter papel estratégico no controle de fronteiras e no comércio. A manutenção e expansão continuaram em períodos posteriores, como nas dinastias Wei e Tang, mas sem grandes avanços estruturais.
Dinastia Ming (1368–1644) – A muralha que conhecemos hoje
A maior parte da Muralha da China visível atualmente foi construída durante a dinastia Ming. Após a queda da dinastia Yuan (mongol), os Ming investiram pesadamente na muralha para evitar novas invasões do norte. Usaram tijolos cozidos, pedra, argamassa e torres de vigilância em intervalos regulares, criando uma estrutura sólida, mais próxima da fortificação moderna.
Características e extensão
A Muralha chegou a ter mais de 21 mil km somando todas as suas ramificações. Passa por montanhas, desertos e vales, atravessando 15 províncias chinesas. Possui centenas de torres de observação, fortalezas, portões e bastiões.
Declínio e simbolismo
Com o avanço das armas de fogo e a centralização do poder, a importância militar da Muralha diminuiu nos séculos XVIII e XIX. Hoje, ela é símbolo da engenhosidade, disciplina e resistência do povo chinês. Em 1987, foi reconhecida como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO.
A Muralha da China é, portanto, mais do que uma construção defensiva: é um testemunho da história da civilização chinesa e de seu esforço milenar por proteger e consolidar seus territórios.

