O setor industrial é a escola produtiva da economia

*escrito em coautoria com André Roncaglia.

Sem indústria, a economia fica burra, todos empobrecem e não há aumento de salários de forma sustentada. Isso ocorre no Brasil há 40 anos. Por isso, afundamos num buraco sem fim. O centro da economia mundial tem alto conteúdo tecnológico proprietário em seus produtos, logo, tem poder de monopólio considerável; a periferia não. Será muito difícil para países da América Latina, África e Ásia chegarem ao centro. Alguns países do Leste Asiático conseguiram. Desenvolvimento econômico é um processo de aprendizagem produtiva. Alguns países pobres são capazes de aprender ao longo do tempo, outros não. Essa aprendizagem leva à produção de bens e serviços com poder de monopólio e alto conteúdo tecnológico, o que dificulta ainda mais o avanço dos outros. O conhecimento produtivo é o grande valor que um país tem; isso o torna rico. Esse conhecimento está nas empresas, marcas, tecnologias e patentes de propriedade de seu sistema produtivo. Isso nunca é transferido para os países emergentes, especialmente por multinacionais. Transferência tecnológica, conhecimento tácito e capacidades organizacionais: um dos obstáculos envolvidos no aprendizado tecnológico das nações diz respeito aos custos associados à assimilação das tecnologias transferidas de parceiros comerciais posicionados na fronteira tecnológica em seus respectivos setores. Alice Amsden (2001, p. 29) afirmou que o desenvolvimento econômico pode ser redefinido como “um processo em que se passa de um conjunto de ativos baseados em produtos primários, explorados por mão-de-obra não especializada, para um conjunto de ativos baseados no conhecimento, explorados por mão-de-obra especializada. A transformação exige que se atraia capital tanto humano como físico da busca de renda, do comércio e da “agricultura” (definida em termos amplos) para as manufaturas, o coração do crescimento econômico moderno”.

Os recursos tecnológicos que criam novos produtos e novas técnicas de produção constituem ativos “invisíveis” de uma empresa. Tais ativos são apropriáveis, intangíveis e, portanto, difíceis de copiar e que geram lucros anormais, apoiados em rendas de monopólio conferidas aos seus proprietários. A existência de fortes barreiras à difusão de tecnologias torna, portanto, falaciosa a ideia de que o conhecimento seja um bem público. Alice Amsden (2001) também nos relembra que, mesmo na ausência de patentes, a natureza da própria tecnologia dificulta a aquisição de conhecimento. As propriedades de uma dada tecnologia não podem ser totalmente documentadas, de forma que a otimização do processo e a especificação do produto permanecem uma “arte”, dependendo de habilidades gerenciais que são mais tácitas do que explícitas. O conhecimento formal codificado (alfabetização, conhecimento matemático e científico) pode ser necessário para adquirir habilidades específicas tácitas, associadas à prática profissional. Mas nesta última categoria, encontra-se o conhecimento do tipo não codificado, que se manifesta no “know-how” embutido em rotinas inconscientes e muitas vezes complexas, que são compreendidas e internalizadas através da aprendizagem na prática. É, portanto, ilusório acreditar que a mera escolarização da população será capaz de elevar a produtividade aos níveis requeridos pela competitividade nos mercados internacionais. A transformação estrutural em tempos de acelerada evolução tecnológica requer uma estratégia de aprendizagem tecnológica eficaz. Para tanto, é preciso identificar os hiatos de conhecimento relevantes e as políticas que podem ser implementadas de maneira correta para lidar com essas deficiências.

Organizações eficientes permitem aos indivíduos aproveitarem seu estoque de conhecimento formal e tácito, de sorte a realizar plenamente seu potencial produtivo, bem como estes dois tipos de saber podem auxiliar na estruturação de organizações eficientes, capazes de aproveitar as externalidades e complementaridades estratégicas que caracterizam essas atividades. Trata-se de um tipo específico de “conhecimento coletivo”, distinto do conhecimento codificado e do know-how incorporado nos indivíduos. Embora muitas empresas de países em desenvolvimento possam adquirir máquinas para muitas atividades básicas de produção, e contem com razoável disponibilidade de trabalhadores qualificados, falta-lhes a capacidade de processar e operar articuladamente todos estes fatores para uma produção competitiva. Além de as tecnologias diferirem, sensíveis diferenças em termos de hierarquias sociais, padrões de trabalho coletivo, estruturas externas de governança e de controle tendem a variar sobremaneira. Todo esse complexo processo de aprendizagem produtiva de uma economia se origina no setor industrial. Sem este, não há desenvolvimento econômico possível.

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