O sucesso do socialismo orientado ao mercado da China

*escrito por Elias Jabbour

A literatura corrente sobre a disputa comercial/tecnológica entre EUA x China é problemática. Concentra-se somente nestes dois pontos. Comércio e tecnologia. Pouca visão de processo histórico desloca o centro da discussão: EUA x China é uma unidade de contrários. Esta unidade de contrários tem relação com a finaceirização de um lado e um projeto nacional de outro. Um sistema baseado no endividamento das famílias. Outro baseado no fortalecimento do setor produtivo. No primeiro a propriedade pública é nula no outro a “estatal” é fundamental. Vai ficando evidente que o novo se alimentou do velho.  A experiência soviética não teve essa possibilidade, pois se desenvolveu desconectada, em grande medida do capitalismo; a China decidiu enfrentar o mundo e fazer parte do sistema capitalista internacional. Isso não significou abdicar de objetivos socializantes e sim utilizar-se de oportunidades abertas pela financeirização para se desenvolver. O deslocamento produtivo de milhares de empresas europeias, japonesas e dos EUA à China foi altamente funcional ao seu projeto. Foi o sonho que Lênin alimentou durante o final dos anos de 1910 e início dos anos de 1920 com a tentativa de trazer o capitalismo estrangeiro para mobilizar recursos internos sob forma de concessões em troca de tecnologia e meios modernos de administração na URSS. A experiência soviética não foi longe. A chinesa transformou-se em estratégia de desenvolvimento. Ao lado disso, o setor público da economia foi se transformando em um poderoso sistema empresarial e por onde tecnologias disruptivas começaram a aparecer.

A arrogância e o ceticismo de acadêmicos ocidentais e economistas ortodoxos e heterodoxos sobre a “sustentabilidade” do modelo chinês só ajudou a estratégia chinesa. Enquanto se faziam seminários para discutir as “instituições” chinesas e suas disfuncionalidades, os chineses estavam montando um sistema nacional de inovação tecnológica impressionantemente imenso e capilarizado. Tecnologias disruptivas elevaram a capacidade de planificar a economia. A eficiência do capitalismo ocidental foi posta à prova pela pandemia. Enquanto o “socialismo com características chinesas” começava a mostrar seus primeiros sinais de superioridade em relação ao “velho” que o alimentou. Uma poderosa “Nova Economia do Projetamento” emergia interna àquela nova formação econômico-social. Dadas as características da economia chinesa e sua estrutura produtiva e financeira, concorrer com ela é quase impossível. Os problemas atuais dos EUA como desigualdade, pobreza, baixa inovação em muitos setores têm relação com as assimetrias internas e externas causadas pela financeirização; o capitalismo de Wall Street pra usar o termo de Brad DeLong em seu livro Concrete Economics. A superação dos problemas do capitalismo internacional passaria pela superação da hegemonia da finança sobre a produção, algo impensável aos EUA.

1 thought on “O sucesso do socialismo orientado ao mercado da China”

  1. Muito esclarecedor o artigo “O sucesso do socialismo orientado ao mercado da China”.

Deixe uma resposta