Existe um mito muito bem construído sobre o capitalismo americano: o de que as grandes empresas de tecnologia nasceram da genialidade individual de empreendedores corajosos, em garagens, à força de pura inovação e risco privado. É uma história bonita. O problema é que ela é incompleta — e a parte que falta muda tudo.
A Intel, a Apple, a Tesla, a Moderna. Todas elas receberam financiamento público em momentos decisivos de sua trajetória. Não estamos falando de subsídios marginais ou incentivos fiscais de prateleira. Estamos falando de dinheiro do Estado americano — do Pentágono, do Departamento de Energia, dos Institutos Nacionais de Saúde — que assumiu riscos que o capital privado não estava disposto a correr.
O Estado que ninguém conta
A Apple, antes de se tornar a empresa mais valiosa do mundo, foi beneficiária direta de contratos e pesquisas financiadas pelo Departamento de Defesa dos EUA. O touchscreen, o GPS, a internet, o próprio sistema de comunicação que faz o smartphone funcionar — tudo isso emergiu de projetos públicos financiados com dinheiro do contribuinte americano. O empreendedor entrou depois, para empacotar, escalar e comercializar o que o Estado já tinha construído.
A Tesla recebeu um empréstimo de US$ 465 milhões do Departamento de Energia americano em 2010, quando estava à beira da falência. Sem esse dinheiro público, é muito provável que Elon Musk não existisse como ícone da “disrupção verde”. O risco foi socializado; o lucro, privatizado.
A Moderna é o caso mais recente e mais evidente. A tecnologia de mRNA que tornou possível a vacina contra a Covid-19 foi desenvolvida ao longo de décadas com financiamento dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH). A empresa entrou em cena para industrializar e distribuir — e faturou bilhões. Os pesquisadores públicos que construíram a base científica ficaram com os créditos acadêmicos.
Por que isso importa?
Não se trata de negar o papel do empreendedor ou do mercado. O ponto é mais preciso: inovação radical — aquela que cria mercados inteiramente novos, que envolve horizontes de tempo longos e riscos que nenhum investidor privado aceitaria sozinho — depende, historicamente, de um ator disposto a entrar primeiro. E esse ator é, quase sempre, o Estado.
A economista Mariana Mazzucato chamou isso de “Estado Empreendedor”. Não o Estado que atrapalha, regula em excesso e gera burocracia — mas o Estado que investe onde o mercado não chega, que financia a pesquisa básica que não tem retorno imediato, que assume o risco na fase em que o risco é maior.
O Vale do Silício é, em grande medida, o resultado cumulativo de décadas de orçamento federal americano. A DARPA criou a internet. O NIH financiou a biotecnologia. A NASA e o Pentágono formaram gerações de engenheiros e cientistas. Os grandes fundos de venture capital chegaram depois — quando o risco já havia sido reduzido pelo investimento público.
O que o Brasil pode aprender com isso?
O debate sobre política industrial no Brasil frequentemente se perde em falsas dicotomias: “Estado versus mercado”, “planejamento versus liberdade econômica”. Os Estados Unidos nunca fizeram essa escolha. Eles construíram, discretamente, um dos maiores sistemas de política industrial do mundo — só não chamaram assim.
Para países em desenvolvimento como o Brasil, essa lição é ainda mais relevante. Em setores de alta complexidade — semicondutores, biotecnologia, energia limpa, inteligência artificial — as janelas de oportunidade não se abrem para quem espera o mercado agir sozinho. É preciso um Estado capaz de antecipar, financiar e assumir riscos.
O BNDES, a Embrapa, a Embraer: o Brasil já tem exemplos de que essa estratégia funciona. O desafio é ter a clareza intelectual de reconhecer o que os americanos sempre souberam na prática, mas nunca admitiram no discurso: o Estado é o primeiro empreendedor.
A história do Vale do Silício é a história do orçamento federal americano. Disfarçado de garagem.

