O Brasil tem hoje cerca de 103 milhões de pessoas ocupadas, com uma remuneração média em torno de R$ 3.500. Esse dado, por si só, revela o núcleo do nosso problema estrutural: não se trata apenas de gerar empregos, mas de gerar empregos que paguem melhor. A discussão sobre renda não pode ficar restrita a políticas distributivas de curto prazo; ela precisa encarar de frente a estrutura produtiva que sustenta — e limita — os salários no país.
A elevação sustentada dos salários depende, de forma direta, do aumento da produtividade e do valor adicionado das atividades econômicas. Salários mais altos não surgem do nada, nem por decreto. Eles emergem quando trabalhadores estão inseridos em setores capazes de produzir bens e serviços sofisticados, com maior conteúdo tecnológico, organizacional e cognitivo, que geram mais riqueza por hora trabalhada.
É por isso que o verdadeiro desafio brasileiro é expandir sua base produtiva em direção a indústrias mais complexas e a serviços avançados. Indústrias de maior intensidade tecnológica, cadeias produtivas densas, serviços empresariais sofisticados, tecnologia da informação, engenharia, design, finanças produtivas e economia do conhecimento são os setores que puxam o patamar salarial de uma economia moderna.
Quando esses setores ganham escala, eles não elevam apenas os salários dentro de seus próprios limites. Eles irradiam ganhos para toda a economia. A demanda por serviços auxiliares cresce, o padrão de consumo se eleva, as firmas passam a disputar mão de obra, e os salários sobem inclusive em atividades menos sofisticadas. Esse efeito de transbordamento é central para entender o funcionamento das economias desenvolvidas.
É exatamente isso que explica por que garçons em Nova Iorque, Zurique ou Genebra ganham 3, 4 ou até 5 mil dólares por mês. Não é porque o setor de restaurantes nesses países seja extraordinariamente produtivo em si. É porque ele está inserido em um ecossistema econômico altamente complexo, com setores líderes que puxam renda, produtividade e salários para cima em toda a estrutura.
No Brasil, esse mecanismo de irradiação salarial praticamente não existe. Nossa economia passou por um processo prolongado de desindustrialização precoce e de especialização regressiva. Perdemos densidade produtiva, reduzimos o conteúdo tecnológico da produção e nos tornamos excessivamente dependentes de setores de baixo valor agregado e serviços pouco sofisticados, que têm dificuldade estrutural de pagar salários mais altos.
Sem setores complexos funcionando como locomotivas, o mercado de trabalho fica aprisionado em um equilíbrio de baixos salários. Mesmo com pleno emprego ou desemprego baixo, a renda média cresce pouco, porque a produtividade sistêmica é baixa. É o típico caso de uma economia que trabalha muito, mas gera pouco valor por trabalhador.
Por isso, dobrar ou triplicar o salário médio brasileiro não é uma utopia, mas exige uma mudança profunda de trajetória. Isso passa por política industrial moderna, investimento em inovação, fortalecimento de cadeias produtivas, integração entre indústria e serviços avançados, financiamento de longo prazo e uma estratégia clara de transformação produtiva.
Não se trata de escolher setores “artificialmente”, mas de criar condições para que atividades de maior complexidade floresçam. Países que enriqueceram fizeram exatamente isso: construíram capacidades produtivas, tecnológicas e institucionais ao longo do tempo, protegendo, financiando e coordenando o desenvolvimento de setores estratégicos.
No fundo, o debate sobre salários é um debate sobre o tipo de economia que o Brasil quer ser. Se permanecermos presos a uma estrutura produtiva simples, os salários continuarão baixos. Se conseguirmos reconstruir uma economia complexa, diversificada e sofisticada, o aumento da renda dos trabalhadores virá como consequência natural. Esse é o verdadeiro desafio para elevar, de fato, a renda per capita e o padrão de vida no Brasil.

