“Ohio”, de Crosby, Stills, Nash & Young, é talvez uma das canções de protesto mais emblemáticas da era da Guerra do Vietnã. Escrita por Neil Young em 1970, ela nasce como reação imediata ao massacre da Universidade de Kent State, em Ohio, quando a Guarda Nacional abriu fogo contra estudantes desarmados que protestavam contra a guerra e contra a expansão do conflito para o Camboja. Em apenas 13 segundos, quatro jovens foram mortos e nove ficaram feridos.
No dia 4 de maio de 1970, o campus de Kent State era um microcosmo da turbulência americana: milhares de estudantes em protestos, alguns episódios de depredação nos dias anteriores e um clima de confronto alimentado pelo anúncio de Richard Nixon de que a guerra se estenderia ao Camboja. Diante da manifestação, soldados da Guarda Nacional avançaram, lançaram gás lacrimogêneo e, num momento até hoje controverso, dispararam contra a multidão. A foto da jovem Mary Ann Vecchio ajoelhada, gritando ao lado do corpo de Jeffrey Miller, correu o mundo e virou símbolo do choque entre juventude e Estado.
Dias depois, David Crosby mostrou a Neil Young a edição da Life com as fotos e a reportagem sobre o massacre. Young, abalado, compôs “Ohio” quase de uma vez só. A letra abre com a frase cortante “Tin soldiers and Nixon coming”, ligando diretamente o presidente à repressão militar, e retorna como um mantra à expressão “four dead in Ohio”, que transforma a estatística em memória martelada. O grupo correu para gravar a música em 21 de maio de 1970, menos de três semanas após os tiros, no Record Plant, em Hollywood.
O lançamento foi um ato político em si. Crosby, Stills, Nash & Young já tinham um single tocando nas rádios, “Teach Your Children”, mas insistiram em levar “Ohio” às estações de rádio o mais rápido possível. Em poucas semanas, a música estava nas paradas, alcançando o Top 20 da Billboard. Ao mesmo tempo, várias rádios AM mais conservadoras — inclusive em Ohio — simplesmente a baniram, tamanho o incômodo de ouvir o nome de Nixon associado diretamente à morte de estudantes.
“Ohio” tornou-se trilha sonora de uma onda ainda maior de protestos estudantis. As mortes em Kent State dispararam greves em centenas de universidades e faculdades, muitas das quais encerraram o semestre mais cedo com medo de novos confrontos. A canção capturava o sentimento difuso de horror e revolta de uma geração que via seu próprio governo matar jovens dentro de um campus universitário, exatamente no momento em que esses jovens contestavam uma guerra cada vez mais impopular.
No contexto mais amplo dos protestos contra a Guerra do Vietnã, “Ohio” ocupou um lugar especial. Havia outras grandes canções de protesto — “Fortunate Son”, do Creedence, por exemplo — mas poucas ligavam, com tanta clareza, um evento concreto, uma data, um lugar e um presidente à violência de Estado. Não era apenas um manifesto contra a guerra distante no Sudeste Asiático; era um grito contra a guerra “em casa”, contra o momento em que a lógica militar atravessa o oceano e se volta para os próprios cidadãos.
Com o tempo, “Ohio” entrou para o cânone da música política: foi listada pela Rolling Stone entre as maiores canções de todos os tempos e incluída no Grammy Hall of Fame. Continua sendo tocada em rádios de rock clássico, documentários e cerimônias de lembrança de Kent State. Acima de tudo, permanece como lembrete de que, em determinados momentos, três minutos de música podem condensar uma tragédia nacional e cristalizar o sentimento de uma geração diante da guerra, da repressão e das escolhas de um governo.

“What’s Going On”: quando Marvin Gaye perguntou à mãe o que estava acontecendo
A canção que começa com o verso “Mother, mother, there’s too many of you crying” é “What’s Going On”, lançada por Marvin Gaye em 1971 e hoje um dos maiores hinos de protesto da música popular. A história dela começa em 1969, quando Renaldo “Obie” Benson, do grupo Four Tops, presencia a repressão violenta da polícia a manifestantes em Berkeley, no episódio conhecido como Bloody Thursday. Chocado com a cena de estudantes apanhando e levando tiros, ele escreve, com o compositor Al Cleveland, um rascunho de música perguntando simplesmente: o que está acontecendo? Essa base chega a Marvin Gaye, que reescreve a melodia, acrescenta o famoso chamado “mother, mother” e transforma a canção num lamento soul sobre guerra, racismo e brutalidade policial.
Gaye leva para dentro da música as conversas com o irmão Frankie, que tinha voltado traumatizado do Vietnã, e a sensação de que os Estados Unidos estavam em colapso moral: jovens morrendo na guerra, jovens morrendo nas ruas, pobreza, drogas, tensão racial. Ele mesmo dizia que, com o mundo explodindo à sua volta, não fazia mais sentido cantar apenas canções românticas. “What’s Going On” mistura essa angústia com uma base musical sofisticada — cordas, sopros, um groove de baixo memorável — e um vocal cheio de camadas, em que Marvin praticamente debate consigo mesmo. É uma música política, mas não panfletária: o refrão insiste que “war is not the answer, for only love can conquer hate”, colocando amor, empatia e espiritualidade no centro da crítica social.
A própria Motown resistiu a lançar o single: Berry Gordy achava que era “música de protesto” demais para a imagem da gravadora. Marvin bateu de frente e avisou que não gravaria mais nada se a canção ficasse engavetada. Quando “What’s Going On” saiu, em janeiro de 1971, explodiu: número 1 nas paradas de R&B, número 2 na Billboard geral, mais de 2 milhões de cópias vendidas e, depois, lugar cativo entre as maiores músicas de todos os tempos em listas da Rolling Stone e da própria indústria musical. Hoje ela é lembrada como síntese do clima da era Vietnã e do movimento por direitos civis — mas, ao mesmo tempo, continua atual diante de novos episódios de violência policial e guerras. É aquela canção em que, meio século depois, a pergunta do título continua ecoando: afinal, o que está acontecendo?

