Os Acertos da Política Industrial do Governo Lula 3: Complexidade, Soberania e Campeãs internacionais


Existe uma tendência persistente no debate público brasileiro de avaliar políticas econômicas em bloco — ou tudo funciona, ou tudo falha. Essa lógica binária empobrece a análise e impede que aprendamos com o que está dando certo. O terceiro governo Lula oferece material farto para quem quiser escapar dessa armadilha: há erros, há lentidão burocrática, há capturas setoriais previsíveis. Mas há também um conjunto de iniciativas de política industrial com coerência estratégica real, orientadas por uma lógica de complexidade econômica e soberania produtiva que merece ser examinada com seriedade.

Este texto não é um elogio político. É uma tentativa de análise econômica dos acertos — porque reconhecer o que funciona é tão necessário quanto criticar o que não funciona.


O Contexto: Por Que Política Industrial Importa Agora

Antes de entrar nas iniciativas específicas, vale situar o momento. O mundo vive uma reversão acelerada do consenso de livre mercado que dominou as décadas de 1990 e 2000. Os Estados Unidos aprovaram o Inflation Reduction Act e o CHIPS Act, destinando centenas de bilhões de dólares a setores industriais estratégicos. A União Europeia lançou o Green Deal Industrial Plan. A China nunca abandonou sua política industrial — e os resultados em painéis solares, baterias e veículos elétricos estão à vista. O mundo redescobriu o que os economistas do desenvolvimento sabem há décadas: mercados não produzem, por conta própria, as transformações estruturais necessárias para o catch-up tecnológico.

O Brasil chegou a esse novo ciclo mundial com sua base industrial fragilizada por anos de desindustrialização, câmbio apreciado e abandono deliberado de instrumentos de política produtiva. A questão não é se o Estado deve atuar — o debate global já respondeu isso. A questão é como atuar, com quais instrumentos, em quais setores, com quais critérios de desempenho.


Eixo 1: Financiando a Fronteira Tecnológica

Eve/Embraer e a Mobilidade Aérea Urbana

A decisão de financiar e tornar-se sócio da Eve — subsidiária da Embraer voltada para veículos elétricos de decolagem e pouso vertical (eVTOL), os chamados “carros voadores” — é uma aposta na fronteira tecnológica de um setor que ainda está sendo construído globalmente. Isso é raro na história industrial brasileira.

A Embraer é uma das poucas empresas brasileiras com inserção genuína em cadeias globais de valor de alta complexidade. Ela não monta aviões com componentes importados — ela projeta, desenvolve e exporta tecnologia aeronáutica. A Eve é uma extensão dessa capacidade para um mercado emergente em que nenhum país desenvolveu ainda vantagem competitiva consolidada. Ao entrar agora, o Brasil não está tentando copiar o que outros já fazem melhor — está apostando num espaço aberto.

Do ponto de vista da complexidade econômica, a lógica é impecável: mobilidade aérea urbana é um produto de altíssima sofisticação, com externalidades de aprendizado para toda a cadeia aeroespacial, e a Embraer já possui as capacidades produtivas adjacentes necessárias para dar o salto.

WEG e o Armazenamento de Energia (BESS)

O financiamento à WEG em sistemas de armazenamento de energia em baterias (Battery Energy Storage Systems — BESS) é igualmente estratégico, por razões diferentes. A WEG já é uma empresa de classe mundial em motores elétricos, automação e equipamentos de energia. O BESS é um dos gargalos centrais da transição energética: sem capacidade de armazenamento em escala, a expansão de renováveis intermitentes como solar e eólica encontra limites físicos.

O Brasil tem uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo e uma das maiores capacidades instaladas de energia solar e eólica do hemisfério sul. A combinação entre essa base energética e empresas com capacidade de fabricar equipamentos de armazenamento localmente cria uma vantagem competitiva potencial que vai muito além do mercado doméstico. É o tipo de encadeamento produtivo que transforma dotação de recursos naturais em complexidade industrial — exatamente o movimento que separa economias que se desenvolvem das que ficam presas na exportação de commodities.


Eixo 2: Fortalecendo as Campeãs internacionais com Olho no Mercado Global

Embraer e o Financiamento às Exportações

O fortalecimento da Embraer vai além da parceria com a Eve. O financiamento às exportações da empresa — por meio de instrumentos do BNDES e do sistema de crédito oficial — é uma política comercial clássica que países exportadores de manufaturados sofisticados nunca abandonaram. A Boeing tem o Export-Import Bank. A Airbus tem os créditos de exportação dos países europeus. A Embraer não pode competir globalmente sem instrumentos equivalentes.

Isso não é protecionismo — é nivelamento do campo de jogo. O mercado global de aviação comercial regional não é um mercado livre; é um mercado contestado por empresas apoiadas por seus Estados nacionais. Retirar o suporte estatal da Embraer não produziria mais competição — produziria a erosão de uma das raras posições brasileiras na fronteira tecnológica mundial.

Petrobras: Naval, Fertilizantes e Refino

A retomada dos investimentos da Petrobras na indústria naval, em fertilizantes e no refino merece análise cuidadosa, porque cada um desses segmentos carrega uma lógica estratégica distinta.

A indústria naval é um caso clássico de encadeamento produtivo: estaleiros empregam engenharia pesada, aço especial, sistemas de automação e logística complexa. O Brasil destruiu grande parte dessa capacidade na crise da Petrobras pós-2014, e reconstruí-la é custoso e demorado. Mas a alternativa — importar permanentemente embarcações e plataformas — é ainda mais custosa do ponto de vista da balança de pagamentos e do desenvolvimento tecnológico.

Os fertilizantes expõem talvez a mais grave vulnerabilidade estratégica da economia brasileira. O país é o maior exportador agrícola do mundo — responsável por cerca de 15% das exportações globais de alimentos — e importa aproximadamente 85% dos fertilizantes que consome, com forte dependência de nitrogênio de origem russa e bielorrussa. A guerra na Ucrânia deixou isso dolorosamente evidente em 2022. Investir na produção doméstica de fertilizantes não é apenas política industrial — é política de segurança alimentar e soberania produtiva num sentido bastante literal.

O refino, por sua vez, é um elo que o Brasil perdeu parcialmente com a política de desinvestimento dos anos anteriores. Importar derivados de petróleo enquanto se exporta petróleo bruto é uma forma de transferir valor agregado para fora — e de manter a economia presa numa posição primária na cadeia global de hidrocarbonetos.


Eixo 3: Construindo os Marcos Regulatórios do Futuro

A Lei dos Minerais Críticos e Estratégicos

A aprovação na Câmara do Projeto de Lei sobre minerais críticos e estratégicos é, possivelmente, a iniciativa mais estruturante de longo prazo de todo o governo. Para entender por quê, é necessário entender o contexto global.

A transição energética mundial — eletrificação de veículos, expansão de renováveis, construção de redes inteligentes — é, na sua base física, uma transição mineral. Lítio, nióbio, cobalto, grafite, terras raras, manganês: esses insumos são os componentes fundamentais de baterias, motores elétricos, turbinas e painéis solares. A demanda por esses minerais vai crescer de forma exponencial nas próximas décadas — o próprio AIE (Agência Internacional de Energia) projeta aumentos de 4 a 6 vezes na demanda por vários desses materiais até 2040.

O Brasil detém reservas expressivas de nióbio (o maior produtor mundial, com cerca de 90% das reservas globais), além de lítio, grafite, terras raras e outros minerais estratégicos. A questão não é se haverá demanda — é se o Brasil vai exportar minério bruto ou componentes industriais. É se vai repetir o padrão histórico de ser fornecedor de matéria-prima para a industrialização alheia, ou vai construir cadeias de valor domésticas que capturem uma fatia maior do valor gerado.

A lei cria os instrumentos para a segunda opção: uma Política Nacional de Minerais Críticos, um Fundo Garantidor para atrair investimentos e incentivos explícitos à agregação de valor doméstico. Isso não resolve o problema por si só — implementação, governança e critérios de desempenho serão decisivos — mas cria o arcabouço sem o qual nenhuma política setorial é possível.


Eixo 4: Escala e Capilaridade — O Plano Mais Produção

Além das iniciativas de fronteira, o governo tem operado em outra escala: os 428 mil projetos financiados pelo Plano Mais Produção representam uma política de crédito produtivo com alcance amplo, voltada para micro, pequenas e médias empresas industriais. Esse é o lado menos glamouroso — e frequentemente ignorado — da política industrial.

Economias industriais saudáveis não são feitas apenas de campeãs nacionais e apostas na fronteira tecnológica. Elas têm também uma base densa de fornecedores, subcontratadas e empresas especializadas que dão sustentação às grandes cadeias produtivas. Financiar essa base é uma condição necessária — embora não suficiente — para que a política de grandes projetos não flutue no vácuo.


O Que Ainda Falta

Reconhecer os acertos não implica ignorar as lacunas. Algumas são evidentes.

A política industrial brasileira ainda carece de métricas de desempenho exportador claras. Financiamento público orientado para o mercado doméstico pode criar dependência sem gerar competitividade. Os países que usaram política industrial com mais sucesso — Coreia do Sul, Taiwan, China — condicionaram o apoio estatal a metas de exportação e inovação.

A governança do BNDES melhorou sob a gestão Mercadante, mas os riscos de captura por grupos de interesse específicos não desapareceram. A transparência nos critérios de seleção de projetos e nas condicionalidades impostas aos beneficiários é uma exigência democrática além de uma boa prática econômica.

Por fim, a coordenação entre política industrial, política cambial e política macroeconômica permanece um problema estrutural não resolvido. Uma política de desenvolvimento produtivo coerente não sobrevive a câmbio sistematicamente apreciado — que encarece exportações e barateia importações, corroendo as vantagens competitivas que a política industrial tenta construir.


Conclusão: Escolhas Deliberadas em Direção à Complexidade

O que os dados e iniciativas aqui descritos revelam é um padrão de atuação estatal que, pela primeira vez em muitos anos, está fazendo escolhas setoriais deliberadas orientadas por complexidade econômica e soberania produtiva. Não se trata de distribuir subsídios indiscriminadamente — trata-se de apostar em setores com potencial de gerar externalidades de aprendizado, encadeamentos produtivos e inserção competitiva nas cadeias globais de valor do século XXI.

Isso não é suficiente para resolver os problemas estruturais da economia brasileira. Mas é necessário — e é mais do que o debate público costuma reconhecer.

O Brasil tem uma janela de oportunidade real na transição energética, na complexidade aeroespacial, na mineração estratégica e na manufatura industrial. Aproveitá-la vai exigir continuidade de políticas, qualidade institucional e, acima de tudo, disposição para avaliar resultados com honestidade — elogiando o que funciona, corrigindo o que não funciona, e resistindo à tentação de transformar política econômica em torcida organizada.


Paulo é economista com pesquisa em desenvolvimento econômico, complexidade econômica e política industrial. Escreve sobre economia brasileira e desenvolvimento regional.

1 thought on “Os Acertos da Política Industrial do Governo Lula 3: Complexidade, Soberania e Campeãs internacionais”

  1. Uma análise bem ponderada, racional, desapaixonada que se aproveita bastante. Prossiga.

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