
O baixo crescimento econômico da China nos últimos anos pode ser explicado pela falha de dois dos seus três principais motores de crescimento: o setor imobiliário e o setor de infraestrutura. O único motor que ainda continua funcionando, embora sob pressão, é a produção industrial voltada para o mercado interno e exportação. Essa configuração cria um cenário desafiador para o país manter um ritmo de crescimento acelerado, como o observado nas décadas anteriores.
1. O colapso do setor imobiliário
O setor imobiliário da China, que já foi um dos maiores impulsionadores de sua economia, entrou em colapso nos últimos anos. Empresas gigantes do setor, como a Evergrande, enfrentam crises de liquidez, não conseguem concluir projetos e acumulam dívidas gigantescas. O impacto disso é enorme, pois a construção civil e o mercado imobiliário movimentam não apenas a venda de imóveis, mas uma vasta cadeia de suprimentos que inclui desde a produção de cimento e aço até a geração de empregos na construção e serviços relacionados.
Esse colapso afeta diretamente a confiança dos consumidores e investidores, que veem o valor dos imóveis despencar e uma instabilidade crescente. Como resultado, a demanda por novas construções diminui drasticamente, o que impacta negativamente o crescimento do país. Historicamente, o setor imobiliário representava até 30% do PIB chinês, o que torna seu enfraquecimento uma perda estrutural significativa.
2. O esgotamento do setor de infraestrutura
Outro motor que alimentava o crescimento chinês era o setor de infraestrutura. Durante décadas, a China investiu pesadamente em grandes projetos, como rodovias, ferrovias, pontes e aeroportos, que impulsionaram o crescimento, criaram empregos e dinamizaram a economia. Contudo, esse modelo de expansão também chegou a um ponto de saturação. Muitas áreas já estão completamente desenvolvidas, e há poucas oportunidades de novos projetos que sejam economicamente viáveis ou que possam gerar o mesmo impacto econômico de antes.
Além disso, muitos dos projetos de infraestrutura realizados nas últimas décadas resultaram em altos níveis de endividamento, especialmente entre governos locais, que agora enfrentam dificuldades para financiar novos empreendimentos. Sem novas oportunidades para grandes obras e com as dívidas se acumulando, o setor de infraestrutura deixou de ser um motor de crescimento confiável.
3. A produção industrial: o último motor em funcionamento
O único motor que ainda continua operando é o da produção industrial, tanto para o mercado interno quanto para exportação. A China ainda é o “centro manufatureiro do mundo”, com uma enorme capacidade produtiva e uma vasta cadeia de suprimentos. A produção de bens de consumo, eletrônicos e outros produtos continua a gerar receita significativa, tanto para o consumo doméstico quanto para as exportações.
No entanto, esse motor também enfrenta desafios. A demanda global por produtos chineses diminuiu devido a fatores como a guerra comercial com os Estados Unidos e a desaceleração econômica global. Além disso, o aumento dos custos de produção e a necessidade de se adaptar a novas exigências tecnológicas e ambientais criam obstáculos. Embora a produção industrial ainda seja uma força importante, ela sozinha não consegue sustentar o crescimento robusto que a China precisa, especialmente com a desaceleração dos outros dois motores.
4. A dificuldade de crescer com dois motores “quebrados”
A combinação do colapso do setor imobiliário e o esgotamento do setor de infraestrutura impõe grandes dificuldades para a China continuar crescendo em ritmo acelerado. O motor industrial, mesmo funcionando, não consegue compensar as perdas dos outros dois setores. Além disso, a desaceleração no consumo doméstico e os altos níveis de endividamento tornam mais difícil implementar políticas fiscais expansivas sem arriscar uma crise financeira.
Outro desafio é a falta de novas fontes de crescimento. A transição para uma economia mais baseada em inovação e serviços tem sido lenta, e os investimentos em setores como tecnologia e energia verde, embora promissores, ainda não geram o mesmo impacto econômico de um setor imobiliário em expansão ou de grandes projetos de infraestrutura.
5. Conclusão
Crescer em um cenário onde dois dos três principais motores da economia estão quebrados exige reformulações profundas nas políticas econômicas da China. O país precisa encontrar novas formas de estimular o crescimento e diversificar suas fontes de receita, seja fortalecendo a inovação, o consumo doméstico, ou criando novos mercados para suas exportações. A transição será lenta e cheia de desafios, especialmente diante de uma economia global em desaceleração e de uma base interna cada vez mais sobrecarregada pelo endividamento e pela falta de confiança dos consumidores.






