A análise de Sophus Reinert sobre Os Ensaios de John Cary traz à tona uma importante revisão do pensamento econômico ao destacar como a teoria dominante marginalizou ideias fundamentais para o entendimento do desenvolvimento econômico. Seguindo a linha de Erik Reinert, Sophus explora a influência do mercantilismo e de pensadores como Cary, que enfatizavam a importância da estrutura produtiva e da diversificação industrial como elementos centrais para a riqueza das nações.
A crítica a David Ricardo, especialmente à sua tese de que “o que se produz não importa”, é fundamental para compreender os equívocos que levaram a teoria econômica a um beco sem saída na explicação do desenvolvimento. A ideia ricardiana, desdobrada em sua teoria das vantagens comparativas, sustenta que países devem se especializar nos bens nos quais possuem menor custo de oportunidade, independentemente da complexidade produtiva desses bens. Essa visão, ao longo dos séculos, foi utilizada para justificar a primarização das economias e a dependência de bens de baixo valor agregado – uma abordagem que, como Reinert argumenta, condenou muitos países à armadilha da renda média e ao subdesenvolvimento crônico.
John Cary, por outro lado, e os mercantilistas em geral, tinham uma visão muito diferente. Para eles, a riqueza das nações não vinha da especialização extrema, mas sim da diversificação produtiva e da capacidade de um país desenvolver setores de alta complexidade tecnológica. O trabalho de Sophus Reinert nos mostra como a obra de Cary, publicada no início dos 1600 em Bristol, teve ampla circulação internacional, sendo traduzida para francês, alemão e italiano em diferentes contextos e períodos. Isso demonstra a influência duradoura e a adaptação das ideias mercantilistas em economias diversas, moldando o pensamento econômico de diferentes nações ao longo do tempo.
Ao recuperar esse percurso intelectual, Sophus Reinert contribui para corrigir um viés na história do pensamento econômico que favoreceu a perspectiva ricardiana em detrimento da tradição mercantilista. Ele demonstra que a visão de Cary e outros pensadores mercantilistas era mais alinhada com a realidade histórica do desenvolvimento econômico, especialmente no que diz respeito ao papel central da manufatura, da inovação e das políticas industriais. Essa reconstrução histórica é essencial para entender que as políticas bem-sucedidas do passado – incluindo aquelas adotadas pela Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha e Japão – foram baseadas em estratégias que valorizavam o que se produz e não apenas em uma lógica abstrata de eficiência de mercado.
Assim, a obra de Sophus Reinert não é apenas uma reinterpretação acadêmica, mas um chamado para repensar as políticas econômicas contemporâneas. O foco excessivo na eficiência de curto prazo e na especialização produtiva, sem considerar a complexidade industrial e tecnológica, continua a ser um problema para muitas economias emergentes. Resgatar Cary e os mercantilistas pode ser um passo essencial para construir uma teoria econômica mais útil para o desenvolvimento real das nações.

Antonio Serra explica a riqueza de Veneza e pobreza de Nápoles nos 1600
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