P&D corporativo global: um clube fechado — e o tamanho do desafio brasileiro

O novo EU Industrial R&D Investment Scoreboard escancara um traço central do capitalismo contemporâneo: inovação relevante virou um fenômeno extremamente concentrado. Algo como as 2 mil maiores empresas do mundo respondem por mais de 90% do P&D corporativo, e as 50 primeiras sozinhas ficam com algo perto de metade do total. Isso não é um detalhe estatístico: é a fotografia de um sistema em que a fronteira tecnológica é empurrada por pouquíssimos atores com escala financeira, capacidade de risco e portfólio de ativos intangíveis (patentes, marcas, software, dados) que nenhum “mercado competitivo” típico consegue replicar.

A concentração também é geográfica. EUA, União Europeia, China e Japão dominam o mapa do investimento empresarial em P&D. E não é apenas “porque são ricos”: esses países abrigam as matrizes das empresas, seus centros de decisão e a parte crítica do esforço tecnológico — laboratórios, times de produto, engenharia avançada, cadeias de fornecedores sofisticados e, principalmente, o controle de padrões e plataformas. A lógica é circular e cumulativa: quem já tem escala e ecossistema atrai mais talento, financia mais pesquisa, cria mais patentes e reforça sua posição de liderança.

O recorte setorial ajuda a entender por quê. Quatro grandes blocos — software e hardware de TIC, saúde e automotivo — concentram a maior parte do P&D. Isso significa que a inovação que “puxa” produtividade e renda está muito ligada a setores de alta intensidade tecnológica e alto conteúdo de conhecimento codificado. E dentro desses setores, a liderança é ainda mais polarizada: Big Techs e grandes conglomerados industriais funcionam como motores de investimento contínuo, com orçamentos de P&D que parecem “Estados nacionais” em escala.

Quando a gente olha para o Brasil, o contraste é duro. Aparecemos com poucas empresas no ranking das 2 mil, e com participação ínfima no P&D global. E há outro ponto decisivo: a composição dessas empresas. Se o coração do P&D mundial está em TIC e saúde, o Brasil está pouco presente justamente onde o mundo está colocando dinheiro. Não é uma crítica moral às empresas brasileiras; é a consequência de uma estrutura produtiva que foi desidustrializando, perdendo densidade tecnológica e se afastando das cadeias mais complexas.

A leitura econômica é direta: P&D não é “gasto” isolado, é resultado de um arranjo institucional e produtivo. Para uma firma investir pesado e consistentemente em pesquisa, ela precisa de mercado, escala, previsibilidade, financiamento de longo prazo, engenharia e fornecedores locais qualificados, proteção e estratégia de propriedade intelectual, e demanda sofisticada (pública e privada). Sem isso, a firma racionalmente “importa tecnologia”, compra máquinas prontas, licencia software, terceiriza partes do desenvolvimento — e o país vira consumidor de inovação, não produtor.

Daí a ilusão recorrente de “nacionalizar P&D” via atração de multinacionais: geralmente é caro e pouco efetivo. O que tende a vir para países em desenvolvimento é a parte mais rotineira, adaptativa, ou a engenharia de aplicação. O núcleo duro — pesquisa, arquitetura de produto, patentes estratégicas e definição de padrões — fica perto da matriz, onde estão os ativos, os tribunais, os laboratórios e o poder corporativo. O próprio resultado em patentes reforça isso: o conhecimento gerado acompanha o país-sede, não o país onde eventualmente se monta ou se vende.

Qual é a implicação para política econômica e industrial? Não existe atalho. Se P&D relevante é concentrado por definição, entrar no clube exige estratégia deliberada e persistente: (1) construir capacidades produtivas e tecnológicas em setores-chave (TIC, saúde, transição energética, defesa/aeroespacial, manufatura avançada); (2) usar instrumentos de Estado que “puxem” demanda e reduzam risco (encomendas tecnológicas, compras públicas, crédito direcionado, subvenção, regulação pró-inovação, missões); (3) formar gente e reter talento; (4) criar ecossistemas com universidades, institutos e empresas ancoras; (5) proteger e escalar campeões nacionais onde houver janela de oportunidade.

Em resumo: o relatório não é apenas um ranking — é um diagnóstico estrutural. Inovação, hoje, é poder econômico concentrado. E o Brasil só vai mudar de posição se tratar P&D como parte de um projeto de transformação produtiva, com foco, instrumentos e continuidade. Sem isso, vamos seguir presos ao papel periférico: exportando produtos pouco intensivos em tecnologia, importando o que importa — e pagando o pedágio permanente do atraso.

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