Política industrial americana para energia limpa e semicondutores segue a todo vapor

Quando foi eleito o presidente Biden anunciou o maior programa de governo americano, desde o New Deal chamado “The American Jobs Plan” que promete reconstruir a infraestrutura do país e reposicionar os Estados Unidos para competir com a China. Vamos começar com uma comparação histórica. Quais as semelhanças e as diferenças do contexto histórico e geopolítico que levou ao New Deal dos anos 1930 e o Plano Biden de hoje? O Plano The American Jobs, incialmente orçado em US$ 2,25 trilhões de dólares, pretende criar e reformar pontes, portos, aeroportos, refazer toda a infraestrutura de água (inclusive substituindo todos os canos de chumbo), fazer retrofit de prédios comerciais e residenciais para que usem energia mais eficiente, modernizar escolas e hospitais, revitalizar a infraestrutura digital, entre outras ações. Há três aspectos interessantes que chamam atenção. O primeiro deles é a questão da sustentabilidade: há uma grande ênfase de que a reconstrução tem de ser feita substituindo a atual infraestrutura por uma infraestrutura sustentável e resiliente. O segundo aspecto é o lado social. Uma parte do plano visa compensar os trabalhadores de saúde oferecendo benefício para os cuidadores (home care), há diversas ações para reduzir as desigualdades raciais, de gênero e mesmo a desigualdade regional. O terceiro ponto que chama atenção é a ênfase de que os investimentos produzam empregos de boa qualidade, dentro de “padrões trabalhistas rígidos”, com salários dignos e direito a se filiar a um sindicato e negociar coletivamente.” O Plano Biden está propondo um novo “tipo de capitalismo”? Quais são os tradeoffs que existem nessas agendas? Reconstruir bases de infraestrutura e transição para economia verde é uma proposição que envolve décadas.

Nos últimos dois anos Joe Biden e os democratas promulgaram uma série de leis para reativar a manufatura nos Estados Unidos; um pacote investimentos de US$ 2 trilhões. A Lei dos chips, aprovada em julho, inclui US$ 39 bilhões para estimular produção nacional de semicondutores, juntamente com investimentos ainda maiores em pesquisa e desenvolvimento. A Lei de Redução da Inflação (IRA), aprovada em agosto, aumenta os incentivos para energia limpa de várias maneiras, incluindo créditos fiscais para manufatura. O Congressional Budget Office estima que isso custará US$ 37 bilhões ao longo de uma década, embora possa ser muito mais, já que o ira não limita o valor total do créditos que podem ser concedidos. Também existem subsídios indiretos para os fabricantes, em forma de créditos fiscais e para os consumidores que compram produtos fabricados nos Estados Unidos. Há uma infinidade de novos regulamentos favoráveis as manufaturas americanas, como as regras “Buy American” para compras governamentais. Em 2021, o Congresso também aprovou US$ 1,2 trilhão em gastos em infra-estrutura, destinada em parte a tornar a manufatura americana mais competitiva. Os subsídios se aplicam principalmente a duas indústrias: energia limpa e semicondutores. A intenção não é apenas estimular a fabricação, mas também conter as mudanças climáticas, limitar a dependência da China e estimular partes da América que ficaram para trás. Essa agenda ambiciosa ajuda a explicar por que as leis apresentam tantos incentivos sobrepostos. Painéis solares, turbinas eólicas e até certos minerais usados em tecnologia se beneficiem de créditos semelhantes. Existem créditos fiscais para investimentos e instalações que produzem equipamentos usados em todos os tipos de energia limpa; projetos, desde energia geotérmica até captura e armazenamento de carbono. As mesmas indústrias também serão impulsionadas por abundantes subsídios indiretos.

O investimento em geração de energia de baixo carbono desfrutará de maiores créditos fiscais se o equipamento envolvido é feito na América. O mesmo se aplica à energia gerada por tais instalações. Da mesma forma, os créditos fiscais para os consumidores que compram os carros que forem fabricados na América do Norte. Os estados também estão distribuindo benefícios. A Geórgia forneceu recentemente mais de US$ 3 bilhões em incentivos financeiros para duas montadoras construírem fábricas de veículos elétricos, além a outras regalias. Michigan, consternado com o anúncio da Ford em 2021 de que construir novas fábricas em Kentucky e Tennessee, está imitando os estados do sul e estão doando lotes para fabricantes que possam investir no estado, antes de empresas manifestaram interesse. A ideia é ajudar as empresas a construir fábricas o mais rápido possível. Esses elaborados esforços para fomentar certas indústrias já parecem estar trazendo frutos. As montadoras anunciaram US$ 68 bilhões em projetos em 2021 e 2022 – o maior boom de construção do setor em décadas. Desde que Biden se tornou presidente, indústrias anunciaram cerca de US$ 290 bilhões em investimentos.

Tudo isso marca uma grande reversão na política econômica americana. Nos últimos 40 anos, sucessivos governos seguiram uma receita diferente para o crescimento: acordos de livre comércio, impostos baixos e relativamente pouca regulamentação, especialmente sobre onde as coisas são feitas. De fato, os Estados Unidos costumavam lamentar tais políticas quando outros países as adotavam. Esses subsídios já estão remodelando a indústria americana, com cadeias de suprimentos sendo reformuladas ao longo das linhas que os políticos esperavam. A General Motors anunciou recentemente um investimento de US$ 650 milhões em um nova mina de lítio em Nevada. Eventualmente, a América poderia se tornar um exportador líquido de mercadorias cuja a produção doméstica é atualmente insignificante: o Credit Suisse avalia que os painéis solares fabricados nos Estados Unidos podem atender a 90% da demanda doméstica até 2030, uma perspectiva que teria sido inimaginável antes da passagem das novas leis e subsídios. Os investimentos do plano tem por objetivo usar materiais mais sustentáveis e inovadores, incluindo aço e cimento mais limpos e peças e componentes Made in America. que serao “enviadas em navios de bandeira dos EUA com tripulações americanas de acordo com as leis dos EUA”. Os investimentos em infraestrutura irão “mitigar as disparidades socioeconômicas, promover a equidade racial e promover o acesso acessível a oportunidades”. Nas palavras de Biden: “somos uma das poucas economias importantes cujos investimentos públicos em pesquisa e desenvolvimento caíram como porcentagem do PIB nos últimos 25 anos. Países como a China estão investindo agressivamente em P&D e a China agora ocupa o segundo lugar no mundo em gastos com P&D. Além disso, as barreiras para carreiras em setores de alta inovação permanecem significativas. Devemos fazer mais para melhorar o acesso aos setores de salários mais elevados de nossa economia”. Para conquistar a economia do século 21, o presidente Biden acredita que os Estados Unidos devem voltar a investir em pesquisadores, laboratórios e universidades em todo o país.

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