O artigo de Mariana Mazzucato e Rainer Kattel critica a tendência crescente de governos tentarem se reinventar à imagem de empresas privadas ou startups. Eles apontam exemplos como Elon Musk nos EUA, Javier Milei na Argentina e líderes britânicos que defendem uma cultura de “testar e aprender” inspirada no setor privado. Para os autores, essa abordagem é equivocada, pois governos e empresas têm finalidades, responsabilidades e horizontes temporais radicalmente diferentes, e a adoção de lógicas empresariais pode minar a capacidade do setor público de enfrentar desafios sociais complexos.
Enquanto startups buscam retornos rápidos para investidores, iteram produtos rapidamente e atacam problemas específicos, governos precisam lidar com questões sistêmicas como pobreza, saúde pública e segurança nacional, que exigem planejamento de longo prazo e colaboração intersetorial. Além disso, o Estado tem deveres legais, de provisão de serviços essenciais e de garantia de tratamento igualitário, funções incompatíveis com métricas empresariais como participação de mercado. A pressa por “vitórias rápidas” pode gerar soluções superficiais, que ignoram causas estruturais e, muitas vezes, ampliam ineficiências.
Um exemplo citado é o uso de aplicativos para resolver problemas pontuais, como reportar buracos nas ruas, que pode melhorar o engajamento imediato, mas não substitui a necessidade de repensar sistemas de transporte mais sustentáveis. Para os autores, a lógica de startups tende a fragmentar e simplificar excessivamente problemas públicos, gerando resultados limitados. A modernização do setor público deve, portanto, basear-se em lições históricas, como a necessidade de diferenciar resultados (impactos) de simples produtos ou quantidades entregues, e de reformular métricas que hoje ignoram ativos e investimentos públicos de longo prazo.
Eles defendem também que a diversidade na força de trabalho pública é um recurso estratégico para lidar com desafios complexos, permitindo múltiplas perspectivas analíticas e soluções adaptativas. Outro ponto é o equilíbrio entre capacidade política, elaboração de políticas e implementação: governos não são apenas máquinas administrativas, mas precisam articular uma visão que inspire apoio público e seja exequível. Experiências de cidades como Barcelona e Bogotá mostram que unir visão política com capacidade técnica é crucial para transformar realidades urbanas.
Para enfrentar desafios contemporâneos, Mazzucato e Kattel propõem seis capacidades essenciais para o setor público: consciência estratégica para identificar desafios emergentes; adaptabilidade de agenda; construção de coalizões e parcerias; autotransformação constante; experimentação e resolução iterativa de problemas; e uso de ferramentas e instituições orientadas a resultados. O desenvolvimento dessas capacidades exige rever a formação de servidores, modelos organizacionais e, sobretudo, as formas de medir e avaliar a atuação governamental. Nesse sentido, o Instituto de Inovação e Propósito Público da UCL está criando um Índice de Capacidades do Setor Público para identificar lacunas e ligar competências a resultados concretos.
Em síntese, os autores concluem que governos não devem perseguir a “miragem do Vale do Silício”, pois sua missão é distinta e mais complexa que a de empresas privadas. Reformas efetivas precisam se apoiar em uma compreensão profunda das dinâmicas do setor público e não na simples imitação de startups em busca da próxima disrupção. A tentativa de aplicar a lógica da inovação acelerada ao Estado, sem considerar seus propósitos e restrições, é vista como receita para o fracasso e para o aumento da instabilidade social e institucional.
Missões diferentes – Governos e empresas têm objetivos, responsabilidades e horizontes de tempo distintos; aplicar lógica empresarial ao Estado compromete sua capacidade de resolver problemas públicos complexos. Riscos da lógica de startups – A busca por ganhos rápidos e soluções pontuais tende a gerar respostas superficiais, fragmentadas e ineficazes para desafios estruturais. Medir além da eficiência – O setor público deve focar em resultados sistêmicos e de longo prazo, valorizando ativos públicos e impactos sociais, não apenas outputs e métricas financeiras. Capacidade e diversidade – Governos precisam de equipes diversas, treinamento contínuo, múltiplas perspectivas e equilíbrio entre visão política, formulação e execução de políticas. Seis capacidades essenciais – Consciência estratégica, adaptabilidade de agenda, coalizões, autotransformação, experimentação e foco em resultados são pilares para um Estado resiliente e inovador.

