Por que o Brasil dominou o pré-sal — e por que não fará o mesmo com as terras-raras

*escrito com Rogelio Golfarb

É duro, mas necessário reconhecer: o Brasil só se tornou um gigante mundial em perfuração de águas profundas e no domínio tecnológico do pré-sal porque teve uma empresa estatal com poder, visão e continuidade de política industrial — a Petrobras. Desde os anos 1970, o Estado brasileiro tomou a decisão estratégica de construir competência nacional em engenharia submarina, geologia, equipamentos, materiais e logística offshore. Criou centros de pesquisa (como o CENPES), formou engenheiros, estruturou cadeias produtivas inteiras e impôs conteúdo local, fomentando aprendizado tecnológico cumulativo. O resultado foi um salto de soberania produtiva: o Brasil domina hoje uma das fronteiras mais complexas da engenharia mundial.

Agora compare-se isso ao caso das terras-raras e minerais críticos. O Brasil tem reservas expressivas, mas o setor está pulverizado, sem coordenação estatal, e dominado por uma lógica de exportação primária. Não há uma estatal ou política industrial integrada para controlar, beneficiar e transformar esses minerais em produtos de alto valor agregado — ímãs permanentes, semicondutores, turbinas e baterias. O Estado não estrutura missões, e o mercado, sozinho, busca apenas o lucro imediato da exportação bruta.

A Indonésia seguiu o caminho oposto. Em 2020, o país proibiu a exportação de minério de níquel cru. O governo de Joko Widodo forçou multinacionais a instalar plantas de processamento e a criar joint ventures com empresas locais. Com o controle soberano sobre o recurso, o país saltou de mero exportador de minério para hub global de baterias e aço inoxidável. Hoje, as grandes montadoras de veículos elétricos — Tesla, Hyundai, CATL — estão investindo bilhões de dólares no arquipélago, formando cadeias produtivas locais e multiplicando empregos industriais.

O que explica a diferença? A presença do Estado como agente estratégico, capaz de coordenar interesses, impor condições e criar mercado interno de tecnologia. Sem isso, o Brasil continuará exportando minerais a preço baixo e importando produtos sofisticados a preço alto. É o velho padrão centro-periferia, agora travestido de economia verde.

Enquanto a Indonésia constrói soberania industrial sobre o níquel, o Brasil abdica do protagonismo nas terras-raras, deixando que empresas estrangeiras explorem e levem o conhecimento para fora. Assim como o pré-sal foi uma aposta de Estado, o domínio das novas cadeias verdes — lítio, terras-raras, grafite, manganês — também exigirá um projeto nacional, não apenas discursos sobre livre mercado. Sem uma Petrobras dos minerais críticos, continuaremos ricos em recursos, mas pobres em poder tecnológico.

2 thoughts on “Por que o Brasil dominou o pré-sal — e por que não fará o mesmo com as terras-raras”

  1. O que falta ao Brasil é planejamento econômico estratégico, de longo prazo, que integre meio ambiente, tecnologia e inclusão (através do apoio a educação, pesquisa e desenvolvimento tecnológico). Forma-se, assim, o ciclo virtuoso de que o país precisa para a sua independência tecnológica e seu crescimento sustentável. O curto prazo é que depende do longo prazo, não o inverso.
    O mais interessante é que, em épocas passadas, as ferramentas matemáticas e computacionais para previsão e planejamento de longo prazo eram mais modestas e, mesmo assim, esse planejamento ocorreu. Agora, que essas ferramentas são mais sofisticadas, só há preocupação com o curto prazo.

  2. O que falta ao país é um planejamento econômico estratégico, de longo prazo, que integre meio ambiente, tecnologia e inclusão social através da educação, pesquisa e desenvolvimento tecnológico, criando um ciclo virtuoso que favorece um crescimento sustentável.
    O interessante é que, em épocas passadas, quando as ferramentas matemáticas e computacionais eram mais modestas, faziam-se previsões e planejava-se a longo prazo, de maneira eficaz. Lembremo-nos de que o curto prazo é que depende do longo prazo, não o inverso.
    Hoje, no entanto, parece que tudo se resume ao curto prazo, a analisar só o que já passou, a “apagar incêndios”. Ninguém pensa em criar uma IA para ser aplicada em ciência de dados, para previsão. E é desse tipo de IA que precisamos. Precisamos estudar sistemas dinâmicos complexos.

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