PPP sem mistério: o PIB dos países pobres depende de quais preços usamos

Comparar o PIB de países diferentes parece simples: basta converter tudo para dólares pela taxa de câmbio. O problema é que o câmbio só reflete os preços do que é comercializado internacionalmente. Um celular custa mais ou menos o mesmo em Bogotá e em Nova York. Um corte de cabelo, não.

Como serviços locais são muito mais baratos nos países pobres, o câmbio de mercado subestima o quanto essas economias realmente produzem. A paridade de poder de compra, o PPP, existe para corrigir isso. Mas a correção depende de uma escolha que quase ninguém discute: a quais preços vamos valorizar a produção de cada país?

Como funciona o PPP

O PPP compara o preço de uma mesma cesta de bens e serviços em todos os países. Quem faz esse levantamento é o International Comparison Program (ICP), coordenado pelo Banco Mundial. Ele coleta preços de centenas de itens, do arroz ao aluguel, do carro ao salário de um professor da rede pública.

Com esses preços, calcula-se um fator de conversão para cada país. Dividir o PIB em moeda local por esse fator dá o PIB em “dólares internacionais”. Um dólar internacional compra, em qualquer país, o mesmo que um dólar compra nos Estados Unidos, que servem de referência.

O ponto crucial é que a cesta cobre todo o PIB, e não só o que se exporta. Inclui consumo das famílias, gastos do governo e investimento. E inclui os serviços que nunca cruzam fronteira, que é onde os preços mais diferem entre países ricos e pobres.

Um exemplo com dois países e dois bens

Imagine um mundo com apenas dois países, Estados Unidos e Colômbia, e dois produtos: celulares, que são comercializáveis, e serviços, como cortes de cabelo, que não são. Os preços colombianos já estão convertidos em dólares pelo câmbio de mercado. Os números são ilustrativos.

Preço do celular (US$)

Preço do serviço (US$)

Celulares produzidos

Serviços produzidos

Estados Unidos

100

30

10

20

Colômbia

100

5

2

15

O celular custa o mesmo nos dois países, porque o comércio internacional iguala seu preço. Já o serviço custa seis vezes menos na Colômbia, porque ali os salários são baixos e ninguém importa cortes de cabelo de Nova York. Repare também que a Colômbia produz relativamente mais serviços: 7,5 serviços por celular, contra 2 nos Estados Unidos. É natural. As pessoas consomem mais daquilo que é barato onde vivem.

Quatro maneiras de medir o mesmo PIB

Com esses dados, o PIB da Colômbia pode ser 17% ou 41% do americano, dependendo dos preços usados. A produção física é a mesma em todos os casos.

Método

PIB Colômbia

PIB EUA

Colômbia / EUA

Câmbio de mercado

275

1.600

17%

Tudo a preços colombianos

275

1.100

25%

PPP (média dos dois, tipo Fisher)

—

—

32%

Tudo a preços americanos

650

1.600

41%

Pelo câmbio de mercado, cada país é medido com seus próprios preços. A Colômbia soma 2 × 100 + 15 × 5 = 275 e os EUA somam 10 × 100 + 20 × 30 = 1.600. O serviço colombiano entra pelo seu preço baixo, e a Colômbia parece pequena.

A preços americanos, os 15 serviços colombianos passam a valer US$ 30 cada. A Colômbia salta para 2 × 100 + 15 × 30 = 650. A preços colombianos, é a produção americana que encolhe: 10 × 100 + 20 × 5 = 1.100, contra os mesmos 275 colombianos.

O PPP do ICP não escolhe um lado. Ele usa uma média dos dois pontos de vista, parecida com o índice de Fisher: a raiz quadrada de 25% × 41%, que dá cerca de 32%. Note que, item por item, o PPP já valoriza os serviços colombianos a preço americano. O fator de conversão do corte de cabelo é 5/30. Dividir o gasto colombiano com serviços, 75, por esse fator dá 450, exatamente 15 serviços a US$ 30. A diferença entre 32% e 41% vem só da forma de somar os itens.

O efeito Gerschenkron

O exemplo mostra um resultado geral, identificado pelo historiador econômico Alexander Gerschenkron nos anos 1950. Quando medimos a produção de um país pobre com os preços de um país rico, o país pobre parece maior. Quando fazemos o contrário, parece menor.

A razão está na composição. Cada país produz e consome mais daquilo que é relativamente barato para ele. Nos países pobres, isso significa muitos serviços intensivos em trabalho. Avaliados aos preços altos de um país rico, esses serviços ganham um peso enorme no PIB.

Isso ajuda a entender por que o método importa tanto na prática. O antigo método Geary-Khamis, usado por muito tempo na Penn World Table, valoriza tudo a “preços internacionais”, que são dominados pelos países ricos, justamente porque eles têm os maiores PIBs. Por isso gerava PIBs mais altos para os países pobres. O método GEKS, usado hoje pelo ICP, trata os países de forma simétrica e produz números mais modestos para eles. Se valorizássemos a produção da Colômbia ou do Marrocos inteiramente a preços americanos, o PIB deles seria ainda maior do que o PPP oficial indica.

Os contrapontos

Há três razões para não sair inflando o PIB dos países pobres sem critério.

A primeira é a qualidade. O exemplo supõe que um serviço em Bogotá é idêntico a um serviço em Nova York. Para um corte de cabelo, talvez seja. Para uma consulta médica, uma hora de aula ou uma cirurgia, a comparação é muito mais difícil. O ICP tenta comparar itens equivalentes, mas nos serviços essa é justamente sua maior fragilidade.

A segunda é o governo. A produção de serviços públicos não tem preço de mercado e é medida pelo que se paga aos funcionários. Um professor colombiano ganha muito menos que um americano. Se tratássemos os dois como igualmente produtivos, a Colômbia teria um volume enorme de serviços públicos. Por isso, desde 2011, o ICP aplica ajustes de produtividade que reduzem esse volume nos países mais pobres, na direção oposta ao efeito Gerschenkron.

A terceira é a leitura de Baumol. O corte de cabelo custa US$ 30 em Nova York não porque o barbeiro americano seja mais produtivo, mas porque os salários americanos são puxados pelos setores de alta produtividade, como tecnologia e indústria. O preço alto do serviço é reflexo da riqueza do país, e não de mais produção. Valorizar o serviço colombiano a esse preço mede o poder de compra dos colombianos, mas não sua capacidade produtiva.

Conclusão

Não existe um PIB “verdadeiro” para comparar países. Existe o PIB medido a certos preços. O câmbio de mercado subestima os países pobres. O PPP corrige boa parte disso, mas faz uma média entre o ponto de vista do país rico e o do pobre. Usar só preços de país rico aumentaria ainda mais o PIB dos pobres.

A questão de fundo é o que queremos medir. Se a pergunta é quanto as pessoas conseguem consumir, o PPP é a melhor ferramenta. Se a pergunta é quão sofisticada e produtiva é uma economia, nenhum ajuste de preços resolve. Para isso, é preciso olhar para o que o país sabe produzir.


Existe um fenômeno curioso na comparação de economias, conhecido como efeito Gerschenkron: cada país parece maior quando sua produção é medida com os preços do outro. A razão está no comportamento dos próprios países. Cada um produz e consome em abundância aquilo que é barato para ele, e o que é barato para um costuma ser relativamente caro para o outro. Na Colômbia, serviços como um corte de cabelo custam uma fração do que custam nos Estados Unidos, e por isso os colombianos produzem muitos serviços. Nos Estados Unidos, bens industriais como celulares são relativamente baratos em comparação aos serviços, e por isso os americanos produzem muitos deles.

Quando medimos a Colômbia com preços americanos, seus serviços abundantes passam a ser avaliados pelo preço alto que têm em Nova York, e o PIB colombiano cresce. Quando medimos os Estados Unidos com preços colombianos, são os celulares americanos que passam a pesar mais, porque na Colômbia eles são caros em relação aos serviços, e é a economia americana que parece maior. A produção física é a mesma nos dois casos. O que muda é a cesta de preços usada para somar coisas diferentes.


Até 1985, o PPP era calculado pelo método Geary-Khamis, que avalia todos os países a “preços internacionais” dominados pelos países ricos e assim favorece os mais pobres. A partir de 2005, sob coordenação do Banco Mundial, o ICP passou a usar o GEKS, baseado no índice de Fisher, que trata os países de forma simétrica. Nessa rodada, a China saiu cerca de 40% menor. Em 2011, a lista de produtos foi unificada para todos os países e os salários do governo passaram a ter ajuste de produtividade. A Penn World Table ainda usa uma versão do Geary-Khamis, por isso seus números podem diferir dos do Banco Mundial.

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