Nos anos 90, o Brasil fez o dever de casa que mandaram fazer. Vendemos 70 empresas federais, 55 estaduais, telecom, energia, mineração. Seguimos à risca o receituário do Consenso de Washington. E mesmo assim continuamos presos na armadilha da renda média há mais de 40 anos.
Então alguma coisa nesse diagnóstico estava errada.
Nessa live de 30 minutos fui direto ao ponto: onde estava o erro — e por que a Ásia, que ouviu o mesmo conselho, fez exatamente o oposto.
A premissa que ninguém questionou
A ideia de que privatizar é sinônimo de modernizar vem do Consenso de Washington dos anos 90. Ela faz sentido num nível bem específico: gestão de empresa. Uma empresa privada, sob pressão competitiva e com incentivos corretos, tende a operar com mais eficiência do que uma estatal mal gerida. Até aqui, tudo bem.
O problema é a confusão que veio junto. Confundimos duas coisas completamente diferentes: propriedade — público versus privado — e capacidade produtiva — o que o país sabe fazer.
Privatizar resolve um problema de gestão de uma empresa. Não cria um setor novo. Não sobe um degrau na escada tecnológica. Não ensina o país a produzir coisas mais complexas.
“Eficiência de empresa é uma coisa. Complexidade de economia é outra. A gente vendeu a primeira achando que comprava a segunda.”
O que de fato aconteceu
O resultado prático das privatizações foi o seguinte: chegou capital, algumas planilhas melhoraram, serviços como telefonia de fato avançaram. Mas a estrutura produtiva continuou simples — ou ficou ainda mais simples, com a desindustrialização que avançou ao longo dos anos 2000 e 2010.
E aí o Brasil caiu numa cilada clássica: a armadilha da renda média.
Sem jargão, é assim: o país fica caro demais para competir por preço com países de salário baixo, e simples demais para competir por sofisticação com países de alta renda. Fica espremido no meio, sem conseguir sair para cima nem para baixo. Commodities e serviços de baixa complexidade ganham peso na economia. Manufatura complexa encolhe. A conta não fecha.
“Renda média não é um lugar onde você descansa. É um lugar onde você fica preso.”
O espelho asiático
Este foi o coração da live — e o argumento que mais incomoda quem defende o receituário dos anos 90.
Coreia do Sul, Taiwan e China ouviram o mesmo conselho que o Brasil recebeu. E fizeram o oposto. Não por ideologia — não foi estatizar por estatizar. Foi política industrial com objetivo claro: subir a escada tecnológica, dominar setores cada vez mais sofisticados, construir empresas que competissem no mundo.
A Samsung não surgiu do mercado. Surgiu de uma estratégia de país. Os semicondutores de Taiwan foram construídos com coordenação entre Estado e mercado por décadas. A BYD e a Huawei nasceram dentro de um projeto nacional de complexidade, não apesar do Estado, mas com o Estado.
A pergunta certa não é “o Estado interfere demais?” A pergunta certa é: enquanto o Brasil vendia empresa, o que a Coreia estava construindo?
A resposta é desconfortável. A Coreia estava construindo capacidade produtiva. Estava aprendendo a fazer coisas que antes só países ricos sabiam fazer. Estava subindo a escada.
O Brasil estava acreditando que a escada subia sozinha se o Estado saísse do caminho.
O caminho que sobra
Deixei claro o que não é a resposta: não é re-estatizar tudo, não é nostalgia dos anos 70, não é romantizar empresa pública ineficiente.
A resposta é outra. É política industrial moderna — não a do século passado, mas a que Coreia, Taiwan, Alemanha e agora os próprios Estados Unidos praticam com o Inflation Reduction Act e o CHIPS Act. É câmbio competitivo que não deixa a indústria ser destruída por sobrevalorização crônica. É juro civilizado que permita investimento de longo prazo. É capital humano — educação técnica e universitária alinhada com setores de maior complexidade.
E, acima de tudo, é mudar a pergunta que organiza o debate econômico no Brasil.
A pergunta não é “público ou privado”. É: o país está aprendendo a produzir coisas mais complexas ou não?
A linha que resume tudo
Privatizar nunca foi o problema nem a solução. O problema é que o Brasil nunca teve um projeto de complexidade. Ficamos décadas discutindo o tamanho do Estado enquanto a questão central — o que o país sabe produzir e para onde está indo na escada tecnológica — ficou sem resposta.
Quer entender o mecanismo, não só a manchete?
É exatamente esse raciocínio — de onde vem a complexidade, como ela se constrói, por que alguns países sobem a escada e outros ficam presos no meio — que a gente destrincha na Escola de Complexidade Econômica.
Não o jargão. O mecanismo. Com dados, casos reais e uma visão de desenvolvimento que vai além do debate público-privado.
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Live sobre o tema: https://youtube.com/live/bZkwO4rS_hs?feature=share
Ppt sobre o tema:
Estudo OCDE sobre estatais: https://www.oecd.org/en/publications/ownership-and-governance-of-state-owned-enterprises-2024_395c9956-en.html

