Privilegio exorbitante para imprimir dólares

 

Desde que a crise do Coronavirus começou o Banco Central americano (FED) já imprimiu mais de U$2 trilhoes. Existe limite para isso? Até onde pode ir o balanço do FED? Por que todos aceitam o dólar?

Uma das grandes controvérsias entre economistas até hoje diz respeito à chamada questão da neutralidade da moeda. Para economistas de corte mais keynesiano, a moeda tem efeitos reais na economia, ou seja, é capaz de afetar nível de produção, emprego e renda. Para economistas da linha neoclássica a moeda tende a ser neutra, especialmente no longo prazo. Quer dizer, injeções de moeda no sistema apenas causam inflação, não alterando o curso das variáveis reais. Esse, alias, foi o grande ponto da revolução keynesiana. No seu primeiro livro, Treatise on Money, Keynes acreditava ainda na visão quantitativista da moeda MV=PQ, onde M é a quantidade de moeda, V é a sua velocidade de circulação, P nível de preços e Q nível de produção. Segundo essa visão, V tende a ser constante, logo aumentos de M causam aumentos de P, para um mesmo Q. Um dos grandes passos intelectuais de Keynes foi romper com essa visão, ao perceber que V poderia ser muito volátil, ou seja, a velocidade de circulação da moeda poderia variar muito devido a mudanças nas preferências da demanda por liquidez. Na Teoria Geral, Keynes desenvolve a idéia de preferência pela liquidez. Procura demonstrar os motivos para se demandar moeda e liquidez em determinadas situações econômicas. E aqui entra seu conceito de incerteza. Na presença de uma ignorância muito forte em relação ao futuro, um ativo ultra líquido (moeda) é capaz de oferecer proteção aos portfólios dos investidores. Ou como diz Keynes: ‘our desire to hold money as a store of wealth is a barometer of the degree of our distrust of our calculations and conventionsconcerning the future … The possession of actual money lulls our disquietude; and the premium which we require to make us part with money is the measure of the degree of our disquietude’. Nesse sentido a moeda entra na economia de modo não neutro pois se constitui num dos principais ativos do jogo capitalista. A quebra da estabilidade de V  na equação quantitativa da moeda faz com que os efeitos da moeda em preços, produto e inflação passem a ser muito mais imprevisíveis. Vejamos a seqüência de gráficos abaixo da economia americana que ilustram bem essa questão. O primeiro gráfico mostra a explosão do balanço do FED. Com o estouro da crise de 2008, o Banco Central americano triplicou a base monetária, que saiu de U$800bi para mais de U$2tri. Onde foi parar essa dinheirama? Em termos keynesianos, a demanda por liquidez explodiu dado o enorme aumento de incerteza, logo todos agentes econômicos (bancos, famílias, empresas) reconverteram seus portfólios para posições mais liquidas, aumentando sua demanda por moeda. Podemos ver isso nos dois gráficos abaixo que mostram um grande aumento de M1 (moeda + depósitos a vista) e reservas de bancos. A moeda foi parar no caixa das famílias, bancos e empresas.

4 thoughts on “Privilegio exorbitante para imprimir dólares”

  1. Estão imprimindo sem lastro, ou recomprando títulos da dívida pública ?

  2. Até a hora que alguém (qdo digo alguém, é um ente muito forte qualquer duvidar dessa credibilidade e contagie outros a duvidar também). Imagino que seja quando o valor emparelhar com o PIB americano ou perto disso…

  3. Obrigado pela atenção, em relação à questiúncula relativa a emissão e impressão de dólar.

    Ver no texto wiki copiado abaixo que o FED tipicamente faz suas trilionárias acrobacias financeiras, sem recorrer ao BEP do US Treasury. Se quiser mesmo a impressão de cédulas em papel, vai precisar fazer algum tipo de acrobacia financeira também, para a impressão de moeda encaixar nos balanços das duas organizações.

    “Federal Reserve Notes are printed by the Bureau of Engraving and Printing (BEP), a bureau of the Department of the Treasury. When Federal Reserve Banks require additional notes for circulation, they must post collateral in the form of direct federal obligations, private bank obligations, or assets purchased through open market operations. If the notes are newly printed, they also pay the BEP for the cost of printing (about 4¢ per note).”

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