A diferença entre produtividade e valor adicionado é central para entender as disparidades entre países ricos e pobres. Muitas comparações econômicas incorrem no erro de tratar setores heterogêneos como se fossem comparáveis em termos de eficiência. O problema é que não basta medir “produtividade média” sem considerar o tipo de bem ou serviço produzido: o valor adicionado da atividade é tão ou mais importante do que o número de unidades produzidas por hora de trabalho.
O famoso argumento de Balassa-Samuelson mostra justamente isso: países ricos conseguem sustentar salários mais altos em todos os setores porque possuem indústrias e serviços com alto valor adicionado, que puxam para cima o nível geral de renda. Não é que o garçom em Zurique sirva mais mesas por hora do que o garçom em Lagos, mas sim que a Suíça abriga setores de ponta — como farmacêutica e tecnologia — que geram renda suficiente para sustentar um padrão salarial mais elevado em toda a economia.
Por isso é enganoso dizer, de forma direta, que uma empresa como a ASML (holandesa, produtora de máquinas de litografia para semicondutores) é simplesmente “mais produtiva” que uma fábrica de calçados em Franca. A diferença fundamental é que a ASML opera em um setor com altíssimo valor agregado por unidade produzida, enquanto os calçados enfrentam competição global e baixo preço unitário. A comparação só faz sentido quando corrigida pelo tipo de produto e pelo valor que cada atividade é capaz de gerar e sustentar na economia.
O mesmo raciocínio vale para comparar uma SAP, gigante de software alemã, com um pequeno varejo da 25 de Março em São Paulo. A SAP vende licenças e serviços de TI de altíssimo valor agregado, com clientes globais, margens elevadas e forte capacidade de reinvestimento em inovação. Já o varejo popular opera em um ambiente de preços baixos e forte competição, onde mesmo que haja eficiência operacional, o valor adicionado por trabalhador será sempre limitado.
Isso nos leva a entender que a verdadeira questão do desenvolvimento não está em “trabalhar mais” ou “ser mais eficiente” em termos físicos, mas em escalar atividades que incorporam conhecimento, tecnologia e complexidade produtiva. Países ricos diferenciam-se por abrigar setores intensivos em ciência, engenharia e design, o que garante que cada hora de trabalho se converta em muito mais valor monetário e capacidade de pagamento de salários altos.
Portanto, a chave da convergência entre países pobres e ricos passa menos por ganhos de produtividade dentro de setores tradicionais (como agricultura ou varejo) e mais por mudanças estruturais em direção a setores de maior valor adicionado. Essa é a essência da transformação produtiva: deslocar a base econômica de atividades simples e replicáveis para aquelas que exigem conhecimento sofisticado, protegidas por barreiras tecnológicas e institucionais, capazes de sustentar renda e bem-estar no longo prazo.

