Produtividade ou Valor? O que realmente medimos quando comparamos países

Os economistas falam o tempo todo de produtividade. É um dos conceitos centrais da análise econômica moderna. Países ricos seriam mais produtivos, países pobres menos produtivos. Essa diferença de produtividade explicaria por que alguns países conseguem pagar salários altos, sustentar padrões de vida elevados e gerar mais riqueza, enquanto outros permanecem presos a rendas mais baixas.

Na prática, porém, quando os economistas medem produtividade, o indicador mais usado é relativamente simples: valor adicionado por trabalhador ou valor adicionado per capita. O valor adicionado é basicamente a riqueza gerada por uma economia ou setor — aquilo que sobra das vendas depois de descontar os insumos intermediários. Esse é o número que aparece no PIB.

Quando dividimos esse valor adicionado pelo número de trabalhadores ou pela população, obtemos aquilo que chamamos de produtividade média. Essa medida se tornou o padrão para comparar países, setores e períodos históricos. No entanto, existe um detalhe importante frequentemente ignorado: o valor adicionado é calculado a preços de mercado.

Isso significa que o cálculo incorpora diretamente o preço de venda dos bens e serviços produzidos. Se um produto é vendido a um preço elevado no mercado, ele gera mais valor adicionado. Se é vendido a um preço baixo, gera menos. Portanto, a medida de produtividade não depende apenas da quantidade produzida ou da eficiência técnica da produção.

Na realidade, ela reflete também o valor que o mercado atribui àquele produto. Um engenheiro que trabalha em uma empresa de semicondutores gera muito valor adicionado porque os chips são vendidos a preços elevados. Já um trabalhador que produz commodities agrícolas ou produtos de baixo valor agregado gera menos valor adicionado porque esses produtos têm preços relativamente menores no mercado global.

Nesse sentido, quando dizemos que um país é “mais produtivo”, estamos muitas vezes dizendo que ele está especializado em setores cujos produtos possuem maior valor de mercado. Não necessariamente que os trabalhadores trabalham mais, ou que as fábricas sejam tecnicamente mais eficientes em todos os casos.

Essa distinção é fundamental. A medida tradicional de produtividade mistura dois elementos diferentes: de um lado, fatores ligados à oferta, como tecnologia, organização produtiva, capital físico e qualificação da mão de obra; de outro lado, fatores ligados à demanda e à estrutura de mercado, como escassez, diferenciação tecnológica, patentes, marca e poder de mercado.

Setores intensivos em conhecimento, inovação e tecnologia frequentemente conseguem vender seus produtos com grandes margens e preços elevados. Isso aumenta o valor adicionado e, consequentemente, a produtividade medida. Já setores baseados em produtos padronizados e facilmente replicáveis enfrentam preços mais baixos e competição intensa.

Assim, parte relevante da diferença de produtividade entre países reflete diferenças na estrutura produtiva. Economias que produzem aeronaves, softwares, equipamentos médicos ou semicondutores acabam registrando produtividade média muito maior do que economias especializadas em commodities agrícolas ou minerais.

Por isso, talvez seja mais preciso dizer que o indicador tradicional mede algo como “valor econômico gerado por trabalhador”, e não apenas eficiência física da produção. Em outras palavras, ele mede quanto aquilo que um trabalhador produz vale no mercado.

Essa perspectiva ajuda a entender por que o desenvolvimento econômico está tão ligado à transformação estrutural. Países que conseguem migrar para setores de maior complexidade tecnológica e maior valor de mercado elevam rapidamente sua produtividade medida. Não porque seus trabalhadores se tornaram magicamente mais eficientes da noite para o dia, mas porque passaram a produzir coisas que o mundo valoriza mais.


O ponto central é este: a produtividade observada em valor adicionado por trabalhador não é uma medida “pura” de eficiência física; ela incorpora preços, qualidade, markups, demanda, composição setorial e especialização produtiva. A literatura não costuma abandonar o termo “produtividade”, mas mostra claramente que a medida empírica mistura eficiência técnica com valor de mercado. 

1) Fundamentos de mensuração da produtividade

Charles Hulten, em Total Factor Productivity: A Short Biography, é uma boa porta de entrada para entender o que exatamente está sendo medido quando economistas falam em produtividade e crescimento. Ele discute a tradição de contabilidade do crescimento e as dificuldades conceituais de medir “output real” e produtividade. 

O manual da OECD também é essencial porque deixa explícito que a produtividade do trabalho é normalmente medida como valor adicionado real por hora trabalhada ou por trabalhador, isto é, uma construção de contas nacionais baseada em preços e deflatores, não uma medida física direta de eficiência. 

Na mesma linha, o BLS dos EUA explica que as medidas oficiais usam value-added output e deflatores de preços para construir produtividade, o que confirma exatamente o seu ponto metodológico de partida. 

2) O artigo clássico mais próximo da sua tese: produtividade medida com vendas pode estar captando preços

O paper mais diretamente alinhado com a sua crítica é Klette & Griliches (1996), “The Inconsistency of Common Scale Estimators when Output Prices are Unobserved and Endogenous”. A ideia é justamente que, quando o pesquisador não observa quantidades físicas e usa receita deflacionada como proxy de produto, o que aparece como “produtividade” pode refletir variações de preços e demanda. Esse é um texto-chave para sustentar a frase: “medimos produtividade, mas frequentemente estamos medindo valor”. 

Jan De Loecker retoma esse problema em Product Differentiation, Multi-product Firms and Estimating Productivity, mostrando que, em mercados com diferenciação de produto, estimativas tradicionais de produtividade podem confundir eficiência com choques de demanda e qualidade. 

3) Receita-produto versus produtividade física: preços e demanda importam muito

O paper mais didático aqui é Foster, Haltiwanger e Syverson (2008), conhecido na versão working paper como Selection on Productivity or Profitability? Eles usam dados com quantidades e preços observáveis e mostram uma diferença crucial: produtividade física e produtividade em receita não contam a mesma história. A produtividade física é negativamente correlacionada com preços, enquanto a produtividade em receita é positivamente correlacionada com preços. Em português claro: empresas que parecem mais “produtivas” em valor podem estar vendendo mais caro, e não necessariamente produzindo mais eficientemente em termos físicos. 

Esse mesmo ponto aparece em trabalhos posteriores sobre dinâmica micro e macro da produtividade, reforçando que a mensuração baseada em receita embute preços, demanda e composição dos mercados. 

Também vale olhar Katayama, Lu e Tybout via a literatura citada por De Loecker, porque esse debate sobre “ilusões” em estudos de produtividade no nível da firma gira exatamente em torno da diferença entre eficiência técnica e desempenho medido em receita. 

4) Markups, poder de mercado e “produtividade” medida em valor

Se a sua hipótese é que parte da produtividade medida reflete poder de mercado, então De Loecker, Eeckhout e Unger são indispensáveis. Em The Rise of Market Power and the Macroeconomic Implications, eles documentam aumento expressivo dos markups nos EUA desde 1980. Isso importa para o seu argumento porque, quando markups sobem, parte do valor adicionado por trabalhador pode refletir maior apropriação de renda via preço, e não apenas maior eficiência tecnológica. 

Em Prices, Markups and Trade Reform, De Loecker e coautores mostram empiricamente como é necessário separar markups de produtividade física, precisamente porque preços observados não revelam diretamente eficiência. 

Mais recentemente, Rivera-Padilla mostra para o México que aumentos de markups estão positivamente correlacionados com crescimento do produto, do valor adicionado e da produtividade do trabalho em contas nacionais. Isso conversa muito com sua crítica: parte do ganho medido como produtividade pode carregar o efeito de mercado e de preços. 

5) Qualidade, sofisticação e estrutura produtiva: por que países ricos parecem mais produtivos

Aqui entra a literatura que dialoga muito com o seu repertório de complexidade econômica. Hausmann, Hwang e Rodrik, em What You Export Matters, mostram que a composição da pauta exportadora importa para crescimento futuro; em outras palavras, o tipo de bem que o país produz e vende tem relação com sua trajetória de renda. Isso reforça a sua tese de que produtividade agregada também é, em parte, uma medida do valor de mercado do que o país produz. 

Juan Carlos Hallak, em Product Quality, Linder, and the Direction of Trade e em Estimating Cross-Country Differences in Product Quality, mostra que países mais ricos tendem a produzir e exportar bens de maior qualidade e que diferenças de preços internacionais carregam informação sobre qualidade. Isso é central para o seu argumento: preços mais altos podem refletir qualidade, diferenciação e disposição a pagar, não só eficiência física. 

Khandelwal, em The Long and Short (of) Quality Ladders, também ajuda bastante, porque mede qualidade como disposição a pagar implícita na demanda. Ou seja: produtos que sustentam preços altos sem perder mercado são “melhores” aos olhos do consumidor, e isso afeta diretamente medidas em valor. 

No plano macro, a OECD e o Banco Mundial destacam que a produtividade agregada difere entre países também por causa da estrutura setorial, da complexidade e da transformação estrutural. Países com mais atividades intensivas em conhecimento e maior sofisticação tendem a registrar produtividade maior. 


Klette, T. J.; Griliches, Z. (1996) — The Inconsistency of Common Scale Estimators when Output Prices are Unobserved and Endogenous. 

Foster, L.; Haltiwanger, J.; Syverson, C. (2008) — Reallocation, Firm Turnover, and Efficiency: Selection on Productivity or Profitability? 

De Loecker, J. (2007/2008) — Product Differentiation, Multi-product Firms and Estimating Productivity. 

De Loecker, J.; Goldberg, P.; Khandelwal, A.; Pavcnik, N. (2016) — Prices, Markups and Trade Reform. 

De Loecker, J.; Eeckhout, J.; Unger, G. (2020) — The Rise of Market Power and the Macroeconomic Implications. 

Hulten, C. (2001/2009) — Total Factor Productivity: A Short Biography e trabalhos correlatos sobre mensuração. 

Hausmann, R.; Hwang, J.; Rodrik, D. (2007) — What You Export Matters.  Hallak, J. C. (2006/2008) — trabalhos sobre qualidade do produto e diferenças internacionais de qualidade. 


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