Existe algo quase irônico — para não dizer revelador — no fato de que, em 1992, autoridades chinesas tenham olhado para a Itália, não para os Estados Unidos, como referência para acelerar seu desenvolvimento industrial. Em particular, o interesse recaiu sobre o IRI (Istituto per la Ricostruzione Industriale), uma holding estatal italiana criada nos anos 1930 que coordenava setores estratégicos como aço, energia, telecomunicações e infraestrutura.
A motivação chinesa era explícita e nada ideológica: aprender com uma estrutura capaz de promover “melhoria tecnológica e qualitativa” da indústria. Em outras palavras, a China buscava exatamente aquilo que muitos países em desenvolvimento continuam tentando construir até hoje — um Estado com capacidade de organizar, financiar e direcionar o avanço produtivo.
O IRI representava um modelo sofisticado de capitalismo de Estado em economia mista. Não se tratava de substituir o mercado, mas de estruturá-lo. Ao articular empresas em setores-chave, o IRI funcionava como uma espécie de cérebro industrial, capaz de coordenar investimentos, difundir tecnologia e sustentar cadeias produtivas complexas. Para um país como a China dos anos 1990, ainda em transição e buscando consolidar sua base industrial, esse tipo de arranjo era extremamente atraente.
A missão italiana à China naquele período reforça essa convergência de interesses. As discussões iam muito além de comércio ou investimentos pontuais. Falava-se em construção de grandes grupos integrados, cooperação tecnológica, formação de mão de obra e joint ventures em setores estratégicos. O objetivo era claro: internalizar capacidades produtivas e acelerar o catching up industrial.
Do lado chinês, o interesse também incluía entender a “fórmula IRI” em profundidade. Não apenas replicar empresas, mas absorver um modelo institucional. Essa busca por aprendizado institucional é um dos traços mais marcantes da estratégia chinesa de desenvolvimento — uma combinação pragmática de observação, adaptação e execução em larga escala.
Não por acaso, uma década depois, a China criaria a SASAC (State-owned Assets Supervision and Administration Commission), órgão responsável por supervisionar e coordenar as grandes estatais centrais. Embora com características próprias, a lógica subjacente é semelhante: organizar ativos estatais de forma estratégica, com foco em eficiência, escala e inovação.
Esse episódio histórico desmonta, com certa elegância, a narrativa simplista de que o desenvolvimento econômico moderno é fruto exclusivo de mercados livres e espontâneos. A própria trajetória chinesa mostra o contrário: o uso deliberado de instrumentos estatais para construir vantagens competitivas.
E talvez o mais curioso seja perceber que a referência escolhida não foi um país “modelo” no imaginário liberal clássico, mas uma economia europeia com forte tradição de intervenção estatal e coordenação industrial. A China, como de costume, não comprou ideologias prontas — comprou o que funcionava.
No fim das contas, a lição é desconfortável para quem ainda insiste em debates binários. Desenvolvimento não é sobre Estado versus mercado. É sobre capacidade institucional, coordenação e estratégia. E, pelo visto, os chineses entenderam isso antes de muita gente.

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IRI: o gigante estatal que construiu a indústria italiana
O Istituto per la Ricostruzione Industriale (IRI) foi uma das experiências mais sofisticadas de capitalismo de Estado do século XX. Criado em 1933, em meio à crise bancária e industrial que atingia a Itália, o IRI nasceu como uma solução emergencial: salvar bancos quebrados e empresas estratégicas à beira do colapso. O que começou como uma intervenção temporária virou, na prática, uma das maiores holdings industriais da Europa.
Ao assumir participações acionárias de bancos e empresas, o Estado italiano acabou herdando controle sobre setores inteiros da economia. Em vez de liquidar esses ativos, o IRI foi reorganizado como uma estrutura permanente de gestão industrial. A partir daí, deixou de ser apenas um “bombeiro” da crise e passou a atuar como planejador e coordenador do desenvolvimento produtivo.
Durante o pós-guerra, especialmente entre os anos 1950 e 1970, o IRI foi peça central no chamado “milagre econômico italiano”. Sob sua órbita estavam empresas de aço, telecomunicações, energia, transporte, construção naval e infraestrutura. Não era pouca coisa. Estamos falando de um sistema capaz de organizar cadeias produtivas inteiras, realizar investimentos de longo prazo e difundir tecnologia em escala nacional.
O funcionamento do IRI refletia uma lógica bastante pragmática. Ele operava como uma holding, com subsidiárias relativamente autônomas, mas integradas por uma estratégia comum. Isso permitia combinar disciplina empresarial com objetivos públicos mais amplos, como industrialização, geração de empregos e redução de desigualdades regionais — especialmente no sul da Itália.
Um ponto crucial era sua capacidade de coordenar investimentos em setores de retorno incerto ou de maturação longa, onde o setor privado frequentemente hesita. Infraestrutura pesada, siderurgia e telecomunicações exigem escala, paciência e financiamento — três coisas que mercados financeiros raramente oferecem com entusiasmo. O IRI preenchia exatamente esse vazio.
Mas, como seria surpreendente demais se tudo fosse perfeito, o modelo também enfrentou problemas ao longo do tempo. A partir dos anos 1980, o IRI passou a sofrer com pressões políticas, ineficiências e aumento do endividamento. O ambiente internacional mudou, a integração europeia impôs novas regras e a maré ideológica virou contra empresas estatais. Resultado: o IRI entrou em processo de desmonte e foi oficialmente dissolvido no ano 2000.
Ainda assim, reduzir o IRI a seus problemas finais é perder o essencial. Durante décadas, ele foi um instrumento poderoso de transformação estrutural. Mostrou que o Estado pode, sim, desempenhar um papel ativo na construção de capacidades produtivas, sem necessariamente sufocar o setor privado.
Talvez o mais interessante seja que, enquanto muitos países tratavam experiências como essa como exceções históricas, outros — como a China — estavam observando com bastante atenção. E, ao contrário de boa parte do Ocidente, decidiram aprender com isso.
No fim das contas, o IRI deixa uma lição incômoda: desenvolvimento não acontece por geração espontânea. Ele costuma ser organizado. E, às vezes, com uma mão bem visível do Estado.
O Istituto per la Ricostruzione Industriale foi oficialmente extinto no ano 2000, depois de um longo processo de privatizações iniciado nos anos 1990. A Itália, pressionada por dívida alta, regras da União Europeia e a onda liberal da época, decidiu desmontar a holding e vender grande parte dos ativos.
Mas aqui vem a parte que normalmente ignoram: o “espírito” do IRI não desapareceu totalmente. Muitas empresas que passaram por ele continuam existindo hoje, só que privatizadas ou reorganizadas. E o Estado italiano ainda mantém presença relevante em setores estratégicos, via outras estruturas.
Ou seja, o IRI morreu no papel. Na prática, a ideia de coordenação estatal da economia não foi enterrada tão facilmente assim. Como quase sempre, a realidade é mais teimosa do que os manuais.


A China tinha e tem um projeto de país, voltado para os interesses do povo chinês! Isto está na origem do Regina, com a revolução de 1949! Tinham uma história de 5000 anos, de onde tiraram e tiram valiosas lições, e souberam aprender do que foi o domínio inglês e seus efeitos desastrosos sobre os chineses. Analisando experiências de desenvolvimento, especialmente os erros soviéticos, mas também seus acertos, souberam separar o joio do trigo, e procurando o caminho das pedras, aliando pragmatismo de Confúcio e transcendência, aprenderam com erros e acertos, próprios e de terceiros. Além disso, me parece, tiveram a clara visão de que o neoliberalismo representava a grande janela de oportunidades para seu crescimento industrial, oferecendo à voracidade do lucro americano suas vantagens de território e mão-de-obra abundante e barata, mas dentro de um projeto em que se associavam, obtendo em troca tecnologia e capitais, sem alienar seus interesses e alinhado com uma estratégia nacional e desenvolvimentista, concentrando nas mãos do Estado os setores estratégicos e pesados, e abrindo para a iniciativa privada a produção industrial digamos leve. E mesmo nessa, comprometendo-a via financiamento e infraestrutura com os objetivos do plano quinquenal. Como vc tão bem demonstra, planejando e coordenando!