Um novo estudo acadêmico — Geopolitics and Export Miracles: Firm-Level Evidence from U.S. War Procurement in Korea — oferece uma explicação surpreendente e convincente para o chamado “milagre das exportações” da Coreia do Sul. Escrito por Philipp Barteska, Oliver Kim, Nathan Lane e Seung Joo Lee, o artigo mostra que as compras militares dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã foram um catalisador decisivo para a industrialização e o salto exportador coreano. A pesquisa demonstra como a geopolítica da Guerra Fria gerou efeitos econômicos concretos e duradouros na estrutura produtiva do país asiático.
Os autores identificam que, entre 1966 e 1974, os contratos de fornecimento firmados entre empresas coreanas e o governo americano representaram um estímulo fiscal equivalente a 2,9% do PIB da Coreia do Sul — proporção comparável ao impacto do Plano Marshall na Europa. Esse fluxo de recursos gerou um choque positivo de demanda que impulsionou as empresas locais a desenvolver capacidade produtiva, padrões de qualidade e redes de fornecimento compatíveis com o mercado internacional, estabelecendo as bases para o posterior sucesso exportador do país.
A pesquisa combina registros de exportação de firmas coreanas com dados detalhados sobre contratos militares norte-americanos, permitindo estimar o impacto causal de vencer um contrato. Segundo o estudo, as empresas que conquistaram um contrato tiveram 46 pontos percentuais a mais de probabilidade de exportar e triplicaram o valor exportado em relação às demais. E esses efeitos foram persistentes: os ganhos se estenderam para exportações destinadas a terceiros países, mostrando que o aprendizado e o aumento de escala transbordaram para além das relações com os EUA.
Os autores também destacam que o efeito desses contratos foi particularmente forte entre as indústrias pesadas e químicas — justamente os setores priorizados pela política industrial do governo Park Chung-hee nos anos 1970. Isso indica uma complementaridade entre a política de compras externas dos EUA e a estratégia industrial doméstica coreana, evidenciando como a geopolítica e a política de desenvolvimento se entrelaçaram na construção da potência exportadora que a Coreia viria a se tornar.
Em última instância, o estudo de Barteska, Kim, Lane e Lee revela um canal negligenciado da história econômica da Ásia Oriental: o papel da Guerra Fria como motor indireto do desenvolvimento. O caso coreano mostra que a industrialização e o sucesso exportador não foram apenas frutos de disciplina, poupança e reformas internas, mas também do posicionamento estratégico do país no tabuleiro geopolítico global. A guerra, paradoxalmente, financiou a paz produtiva que viria a transformar a Coreia do Sul em uma das economias mais sofisticadas do mundo.

Durante a Guerra do Vietnã (1955–1975), a Coreia do Sul foi um aliado estratégico dos EUA e do Vietnã do Sul, enviando mais de 300 mil soldados para lutar ao lado americano. Esse envolvimento teve um efeito profundo na economia sul-coreana, pois o país se tornou um fornecedor de bens e serviços para as tropas americanas e para a administração do Vietnã do Sul.
Principais produtos e serviços coreanos comprados por americanos no Vietnã do Sul:
Têxteis e uniformes militares A Coreia do Sul exportava grandes quantidades de roupas, tecidos e calçados usados por militares e civis americanos. Empresas coreanas, como precursoras da atual Hyundai e Daewoo, começaram fabricando materiais têxteis para os contratos militares dos EUA. Produtos alimentícios processados As forças americanas e o exército do Vietnã do Sul compravam macarrão instantâneo, enlatados, molhos, óleo de cozinha e conservas produzidos na Coreia. Muitas fábricas coreanas ampliaram sua produção para atender a esses contratos militares (por exemplo, a Samyang Foods e a Nongshim deram seus primeiros passos nessa época). Materiais de construção e cimento Empresas sul-coreanas forneceram cimento, aço e materiais de construção para bases americanas, portos e estradas no Vietnã do Sul. Isso abriu caminho para o surgimento do setor de engenharia e construção pesado coreano — o embrião do que mais tarde se tornaria conglomerados como Hyundai Construction. Serviços logísticos e de manutenção O exército americano contratava empresas e trabalhadores coreanos para manutenção de equipamentos, transporte, limpeza e operação de bases. Esses contratos em dólar foram cruciais para gerar reservas de divisas na Coreia do Sul. Produtos eletrônicos básicos e utensílios domésticos Pequenas empresas coreanas começaram a fornecer rádios, ventiladores e equipamentos elétricos simples para o mercado do Vietnã do Sul, especialmente para civis e para bases americanas — um prenúncio do futuro polo eletrônico que a Coreia se tornaria.
Impacto econômico e histórico
Essas exportações e contratos de serviço foram uma das principais fontes de moeda estrangeira para a Coreia do Sul nos anos 1960, junto com a ajuda direta americana. Estima-se que entre 1965 e 1973, mais de 1 bilhão de dólares em contratos e pagamentos ligados à guerra entraram na economia sul-coreana — o equivalente a cerca de 10% do PIB coreano no período.
Esse fluxo de capital permitiu ao governo de Park Chung-hee investir pesadamente na industrialização, infraestrutura e na criação dos chaebols, os grandes conglomerados industriais que impulsionariam o “Milagre do Rio Han”.
Durante o conflito (1965–1975), os EUA usaram tanto o Japão quanto a Coreia do Sul como bases produtivas e logísticas, mas de formas diferentes e com intensidades distintas:
Japão: principal base industrial e logística
O Japão foi a grande retaguarda produtiva da guerra.
Após sua reconstrução no pós-Segunda Guerra, o país já possuía uma indústria altamente desenvolvida, especialmente nos setores metalúrgico, eletrônico, naval e de transporte. As empresas japonesas produziram uma imensa quantidade de veículos, caminhões, equipamentos eletrônicos, rádios, geradores, embarcações, uniformes e suprimentos médicos para as forças americanas no Vietnã.
Além disso, portos como Yokohama e Kobe eram nós logísticos cruciais para o envio de suprimentos ao Sudeste Asiático. A guerra estimulou fortemente a economia japonesa — algo semelhante ao “milagre coreano” alguns anos depois. Muitos estudiosos consideram que o boom das exportações japonesas na década de 1960 teve um impulso direto dos contratos militares americanos durante a Guerra do Vietnã.
Coreia do Sul: base produtiva complementar e fornecedora de tropas
A Coreia do Sul, por outro lado, teve um papel mais dependente e subordinado.
O país ainda era pobre e em reconstrução após a Guerra da Coreia (1950–53), então sua contribuição foi mais de mão de obra e produtos leves: têxteis, roupas, calçados, barracas, alimentos processados e outros bens simples fornecidos ao exército americano.
O principal ativo coreano, porém, foi humano: mais de 300 mil soldados sul-coreanos serviram ao lado dos EUA no Vietnã. Em troca, Seul recebeu grandes pagamentos diretos e contratos militares, que financiaram parte do seu posterior “milagre econômico”. Empresas como Hyundai e Daewoo cresceram a partir desses contratos e da experiência logística ligada à guerra.
Comparativo e razões da diferença
Japão foi a base produtiva mais importante: já industrializado, com tecnologia avançada e infraestrutura portuária pronta. Coreia do Sul foi usada como base de apoio: fornecedora de bens leves e de tropas, num papel mais subordinado e de aprendizado industrial. O uso maior do Japão se deve à eficiência, proximidade e confiança política dos EUA num aliado já consolidado. O uso da Coreia foi complementar e estratégico: um meio de conter o comunismo na península e financiar a industrialização sul-coreana.
Em resumo:
O Japão foi a base produtiva principal da Guerra do Vietnã.
A Coreia do Sul foi a base de apoio e fornecedora de soldados.
Ambos se beneficiaram economicamente, mas o Japão por meio de exportações industriais e a Coreia por meio de ajuda e contratos militares — o que acabou lançando as bases do seu posterior milagre econômico.

