Quanto mais rico um país, mais importante o papel da indústria!

*escrito por Antonio Carlos Diegues

A literatura econômica convencional costuma apresentar a ideia de que haveria um caminho natural para o desenvolvimento. Nesse caminho, a partir de um certo nível de renda per capita, os países migrariam naturalmente para uma sociedade pós industrial. Em trabalho de 2020, Tregenna e Andreoni mostram o contrário ao analisarem os setores de alta intensidade tecnológica: quanto maior é o nível de renda per capita do país, maior tende a ser a participação destes setores em suas economias. Em artigo recém concluído apresentamos resultados que reforçam ainda mais a centralidade da indústria para as nações. Mensuramos a relação entre a contribuição da indústria ao desenvolvimento e o nível de renda per capita dos países de renda média. Uma indústria que contribui para o desenvolvimento é aquela que aumenta a produtividade da economia, gera melhores empregos e exportações mais sofisticadas. Nossos resultados mostram que há uma curva exponencial que relaciona o crescimento da produtividade e dos salários industriais com o nível de renda per capita. Assim, quanto maior é a renda dos países, maior é a capacidade de contribuição da indústria ao desenvolvimento nos setores de alta e média intensidade tecnológica. Ou seja, exatamente ao contrário do que sugere a leitura liberal da economia pós industrial. A metodologia usada (shift-share em economês) é bastante tradicional. Consistiu em mensurar a variação da produtividade e dos salários a partir de três componentes: o intra setorial, o inter setorial estático e o inter setorial dinâmico. Traduzindo os termos: o primeiro mede quanto a produtividade e o salário cresceram a partir da inovação dentro do setor; o segundo e o terceiro componentes mensuram quanto o crescimento se deve ao redirecionamento de trabalhadores para setores com produtividade ou salário maiores que a média e/ou com taxas de crescimento maiores que a média da indústria. Ou seja, os dados mostram que os aumentos de produtividade e salários em paises emergentes e ricos decorrem de transferir trabalhadores para setores industriais mid tech e high tech ou aumentar a produtividado dos trabalhadores que já estão no setor industrial. setores industriais low tech tem baixa capacidade de aumento de produtividade.

A referência do artigo é “Diegues, A. C; Souza, F.V.S.F. (2024). Beyond inverted-U curve: deindustrialization and industry´s contribution to development in high and middle-income countries (pre-print version)”. Ele pode ser encontrado aqui: http://dx.doi.org/10.13140/RG.2.2.33453.70885

O eixo Y mostra o crescimento da produtividade entre 2000-2019 e o eixo X mostra o logaritmo natural da renda per capita em PPP dos países da amostra. Os pontos são os países. Então, a tendência geral do gráfico mostra que o crescimento da produtividade entre 2000-2019 foi tão mais elevado quanto mais elevada a renda per capita dos países (medida em logaritmo natural, para suavizar o gráfico). O mesmo vale para o outro gráfico, que mede crescimento dos salários ao invés de crescimento da produtividade. Daí a conclusão: a indústria continua contribuindo para o desenvolvimento dos países mesmo quando eles aumentam a renda per capita. Aliás, quanto maior a renda, maior a contribuição da indústria ao desenvolvimento, conforme as curvas em formato exponencial mostram. Ao contrário do que sugere a ideia da curva de U invertida. Por contribuição da indústria ao desenvolvimento estou utilizando crescimento da produtividade e do salário industrial médio, a la Kaldor.

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