Quanto pesa, de fato, a indústria nos países ricos?

Quando comparamos a participação da indústria de transformação no PIB, a diferença entre países ricos e o Brasil parece pequena. A manufatura responde por cerca de 19% do PIB suíço e por uns 12% do brasileiro. Olhando só esses números, a Suíça seria apenas um pouco mais industrial que nós. Mas a manufatura per capita conta outra história: algo como 15 mil dólares por habitante na Suíça contra mil no Brasil, uma diferença de quinze vezes. Como as duas medidas podem ser tão diferentes?

A resposta está nos preços. Participação no PIB é uma razão entre valores, e o denominador inclui os serviços. Serviços como aluguel, saúde, educação, restaurantes e administração pública não são comercializáveis internacionalmente. O preço deles é definido pelos salários locais. Num país rico, com salários altos, um corte de cabelo, uma consulta ou uma hora de aula custam muito mais do que num país de renda média. É o mecanismo de Baumol e de Balassa-Samuelson. Os serviços dos países ricos aparecem enormes no PIB não só porque produzem muito, mas porque cada unidade vale muito mais. Isso incha o denominador e faz a indústria parecer pequena.

Com a manufatura é diferente. Bens industriais são comercializáveis e seus preços tendem a se alinhar internacionalmente. Um carro, um remédio ou uma máquina não custam três vezes mais na Suíça do que no Brasil na porta da fábrica. Isso sugere um exercício simples: manter a manufatura dos países ricos a preços de mercado, porque ela já está medida em preços internacionais, e recalcular apenas o setor de serviços usando os preços de serviços de um país de renda média, como o Brasil. A pergunta passa a ser: qual seria o tamanho da indústria suíça se os serviços suíços custassem o que custam no Brasil?

Para responder, usamos os níveis de preço do International Comparison Program do Banco Mundial para 2021. Construímos um índice de preço de serviços com habitação, saúde, transporte, educação, restaurantes e hotéis e consumo coletivo do governo. Em dólares, os serviços na Suíça custam cerca de 3,6 vezes o que custam no Brasil. Dividimos o valor dos serviços de cada país por esse diferencial, mantivemos a manufatura e o restante do PIB inalterados e recalculamos as participações.

Os resultados mudam bastante a imagem. A manufatura suíça passa de 19% para cerca de 39% do PIB. A Coreia vai de 27% para 36%, o Japão de 21% para 34%, a Alemanha de 18% para 28%. Mesmo os Estados Unidos, frequentemente descritos como uma economia de serviços, passam de 10% para quase 20%, e o Reino Unido de 8% para 14%. O Brasil, por construção, fica nos seus 12%. A preços comparáveis de serviços, a indústria suíça pesa mais de três vezes a brasileira no PIB, e a japonesa e a coreana, cerca de três vezes. Nos países onde os serviços são ainda mais baratos que no Brasil, como Índia e Colômbia, o efeito é o inverso e a participação industrial encolhe.

A conclusão é que a diferença estrutural entre países ricos e países de renda média está, sobretudo, na indústria. Parte da suposta “economia de serviços” dos países ricos é um efeito de preço: serviços caros porque os salários são altos, e salários altos porque a base produtiva é sofisticada. Da mesma forma, parte da desindustrialização medida em preços correntes nos países avançados é ótica. O Brasil, por sua vez, está mais distante das economias industriais do que as participações nominais sugerem.

O exercício tem limitações que precisam ser enfrentadas antes de virar resultado definitivo. A principal é a hipótese de que a manufatura já está a preço internacional. Os dados do ICP mostram bens de consumo mais caros na Suíça, mas esses são preços ao consumidor, que embutem margens de comércio, transporte e impostos, justamente componentes de serviço. O preço de fábrica, que entra no valor adicionado industrial, tende a ser bem mais próximo entre países. Além disso, mantivemos a construção e os demais setores a preços de mercado, o que torna o resultado conservador, e combinamos preços de 2021 com participações setoriais mais recentes. O passo seguinte é refazer o cálculo com deflatores setoriais pelo lado da produção e com dados do mesmo ano para uma amostra ampla de países.


O cálculo teve quatro etapas, todas com os dados do ICP 2021 do Banco Mundial.

1. Preço de serviços de cada país. A tabela detalhada do ICP traz, para cada país, a paridade de poder de compra (PPP) de cada categoria de gasto, em moeda local por dólar. Escolhi seis categorias que são essencialmente serviços não comercializáveis: habitação, saúde, serviços de transporte, educação, restaurantes e hotéis e consumo coletivo do governo. Para cada país, calculei a média geométrica simples dessas seis PPPs. Isso dá um índice de preço de serviços em moeda local por dólar.

2. Conversão para nível de preço. Dividi esse índice pelo câmbio médio de 2021 de cada país. O resultado é o nível de preço de serviços em relação aos EUA. Por exemplo, 0,38 no Brasil significa que a cesta de serviços custa aqui 38% do que custa nos EUA, em dólares.

3. Formação dos grupos. Separei os países pela classificação de renda do Banco Mundial:

  • Renda média (28 países): Brasil, México, China, Índia, Indonésia, Tailândia, Vietnã, Colômbia, Argentina, Filipinas, Malásia, Turquia, Egito, Paquistão, Bangladesh, Quênia, Marrocos, Peru, Rússia, Cazaquistão, Ucrânia, Costa do Marfim, Camarões, Benin, Gana, Bolívia, Equador e El Salvador.
  • Renda baixa (12 países): Burkina Faso, Burundi, República Centro-Africana, Chade, RD Congo, Etiópia, Gâmbia, Guiné-Bissau, Libéria, Madagascar, Malawi e Mali.

4. Média do grupo. Para cada grupo, calculei a média geométrica simples dos níveis de preço de serviços dos países. O resultado foi 0,26 para renda média e 0,25 para renda baixa. Usei média geométrica porque se trata de razões de preço; é o padrão em comparações internacionais e trata altas e baixas de forma simétrica.

Como a média entra no exercício. Para cada país rico, o fator de reavaliação é k = nível de preço de serviços do grupo ÷ nível de preço de serviços do país. Na Suíça, k = 0,26 ÷ 1,37, cerca de 0,19. O valor dos serviços é multiplicado por k, a manufatura e o resto do PIB ficam como estão, e a participação é recalculada:

participação da manufatura = manufatura ÷ (manufatura + serviços × k + resto)

Limitações que vale conhecer antes de levar ao paper:

  • Pesos iguais na cesta. As seis categorias entram com o mesmo peso. O correto seria ponderar pelo peso de cada uma no gasto ou no valor adicionado.
  • Habitação inclui mais que aluguel. A categoria do ICP inclui água, energia e gás, que não são serviços puros.
  • Média sem ponderação entre países. Burundi pesa o mesmo que a China. Uma média ponderada pelo PIB daria um número um pouco diferente.
  • Amostra de renda baixa só africana. Os 12 países são todos da África Subsaariana, porque a tabela pública corta antes dos demais.
  • Classificação e câmbios aproximados. Classifiquei os países pela lista de renda do Banco Mundial de memória, sem checar a lista oficial do ano. Para algumas moedas africanas, usei câmbios médios de 2021 também de memória. Conferi que os níveis de preço do PIB resultantes ficam numa faixa plausível, mas vale baixar os câmbios oficiais do DataBank.

Nas estimativas principais, apenas os serviços dos países ricos foram reprecificados a preços de países de renda média, e a construção civil permaneceu no “restante do PIB” a preços de mercado. Essa escolha é conservadora, porque a construção é talvez o exemplo mais puro de setor não comercializável. É intensiva em trabalho, tem crescimento de produtividade historicamente lento e remunera seus trabalhadores com salários determinados pela produtividade dos setores comercializáveis. Os mesmos mecanismos de Baumol e de Balassa-Samuelson que encarecem os serviços nas economias avançadas atuam, portanto, com igual ou maior intensidade sobre ela. Reprecificar a construção a preços brasileiros reduz mais uma vez o denominador do PIB. Como esse denominador já foi comprimido pela correção dos serviços, o peso relativo da construção nele aumenta, e o efeito sobre a participação da manufatura é maior do que sugeriria sua fatia no PIB nominal. Um exercício ilustrativo, com a construção entre 4% e 6% do valor adicionado e um diferencial de preços em torno de três vezes em relação ao Brasil, eleva a manufatura suíça de cerca de 39% para 42–43% do PIB. A japonesa passa de 34% para 36%, a alemã de 28% para 30% e a norte-americana de 20% para 21%. A brasileira, por construção, não se altera.

O ganho numérico é modesto, mas a correção torna o argumento mais coerente e mostra que os resultados principais são, se tanto, um limite inferior. Duas ressalvas, porém, devem acompanhar o exercício. A primeira é que as PPPs de construção do International Comparison Program vêm da formação bruta de capital fixo e medem o preço do produto final, que incorpora insumos comercializáveis como aço e cimento. O diferencial de preços relevante para o valor adicionado, composto majoritariamente por trabalho, tende a ser maior, o que reforça o caráter conservador da estimativa. A segunda é que essas PPPs estão entre as mais frágeis do programa, com mudanças metodológicas entre rodadas e forte dispersão entre países. Por isso, a reprecificação da construção é mais bem apresentada como teste de robustez do que como estimativa central. Em países onde a construção é mais barata que no Brasil, o efeito se inverte, assim como ocorre com os serviços. Isso confirma que a correção não favorece mecanicamente nenhum grupo de países: ela apenas remove uma distorção de preços.

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