*escrito com Gustavo Pauro
Imagine dois países vizinhos. Num deles, cada criança recebe, por ano, o equivalente a R$ 300 investidos na sua educação. No outro, esse valor passa de R$ 45.000. Essa diferença de 150 vezes não é ficção — é o retrato real do mundo em 2022, segundo os dados mais recentes da OCDE e do Banco Mundial.
- Antes dos números: como comparar países tão diferentes?
Comparar quanto o Brasil, a Noruega e o Quênia gastam em educação não é simples. Um professor no Brasil ganha muito menos em dólares do que um professor na Alemanha — mas isso não significa que a educação brasileira seja “mais barata” no sentido que importa para quem está na sala de aula. Por isso, as comparações internacionais usam um ajuste chamado paridade de poder de compra (PPP). A ideia é simples: em vez de converter os valores pela taxa de câmbio, pergunta-se quanto cada moeda consegue comprar dentro do próprio país. Assim, USD 10.000 gastos com educação num país de salários baixos e USD 10.000 num país de salários altos representam esforços comparáveis. Todas as cifras neste texto já estão nesse formato — dólares ajustados pelo PPP, com dados de 2022.
- A média que esconde o abismo
Entre os países da OCDE — o clube das economias mais desenvolvidas, que inclui Estados Unidos, Alemanha, Japão e Coreia do Sul —, a média do gasto público por aluno é de USD 12.051 no ensino fundamental e USD 13.402 no ensino médio. No ensino superior, essa média sobe para USD 15.102 por aluno ao ano. Parece razoável. Mas são médias que repousam sobre disparidades de dez a quinze vezes entre o país mais e o menos generoso da amostra.
No topo da distribuição está o Luxemburgo. O pequeno país europeu gastou, em 2022, USD 25.584 por aluno no fundamental, USD 29.940 no médio e espantosos USD 60.264 no ensino superior — o maior valor registrado em toda a amostra da OCDE. Por que tão alto? Em parte porque o Luxemburgo paga salários docentes excepcionais; em parte porque muitos estudantes luxemburgueses cursam a universidade no exterior, o que reduz o denominador e infla o custo unitário dos que ficam.
No outro extremo, o México gastou USD 2.933 por aluno no fundamental e USD 3.130 no médio — menos de um quarto da média da OCDE. Turquia e Peru estão em patamar semelhante.
Dois casos desafiam intuições e merecem atenção especial. A Coreia do Sul investe pesado nos níveis básicos — USD 21.476 por aluno do fundamental ao médio, próximo ao topo do ranking —, mas apenas USD 6.617 no ensino superior. Por quê? Porque boa parte das universidades coreanas é privada e cobra mensalidades, reduzindo o gasto público nesse nível. Mesmo assim, a Coreia destina 5,6% do seu PIB à educação, acima da média da OCDE de 4,7%. Já o Japão gasta USD 10.993 por aluno nos níveis básicos e destina apenas 3,9% do PIB à educação — abaixo da média da OCDE. Isso poderia sugerir baixo comprometimento. Mas quando se mede o gasto em relação à renda per capita do país, o Japão gasta 29,4% do PIB per capita por aluno, acima da média da OCDE de 25,3%. Em outras palavras: o esforço relativo japonês é considerável — o país simplesmente não é rico em excesso.
- Quem paga a universidade?
Há uma diferença fundamental entre como o ensino básico e o ensino superior são financiados. No fundamental e no médio, os governos pagam quase tudo: em média, 90% do total gasto nos países da OCDE vem de fontes públicas. Na universidade, essa participação cai para cerca de dois terços — e o restante vem principalmente de mensalidades pagas pelos próprios estudantes ou suas famílias. Essa diferença não é técnica: é uma escolha política. Ela expressa a visão de cada sociedade sobre quem deve arcar com o custo da formação universitária.
Num extremo estão países como Noruega e Alemanha, onde as universidades públicas são essencialmente gratuitas e o gasto por aluno no ensino superior norueguês ultrapassa USD 33.000 ao ano — financiado integralmente pelo Estado. No outro extremo está o modelo inglês, onde mensalidades elevadas e empréstimos estudantis fazem com que o financiamento privado seja predominante, embora mediado por subsídios públicos indiretos. Os Estados Unidos ficam numa posição intermediária: gastam USD 14.603 por aluno nos níveis básicos, na faixa mediana da distribuição internacional, mas o custo no ensino superior é um dos mais altos do mundo — em parte porque inclui pesquisa científica, estrutura de internato e grandes campi que outros países não contabilizam da mesma forma.
- O paradoxo brasileiro
O Brasil é um dos casos mais instigantes da amostra. O país destina 4,3% do PIB ao financiamento público da educação — proporção acima da média da OCDE de 3,6%. Isso poderia sugerir alto comprometimento. No entanto, o gasto por aluno — do fundamental à universidade — é de apenas USD 3.762, aproximadamente um terço da média da OCDE. Como isso é possível? A resposta está no tamanho da economia. O PIB per capita brasileiro é muito menor do que o dos países da OCDE, de modo que destinar uma fatia maior do bolo resulta num gasto unitário modesto quando medido em termos absolutos.
Há ainda uma assimetria interna importante: o Brasil gasta proporcionalmente muito mais por aluno em universidades federais do que nos níveis básicos. O problema é que o acesso ao ensino superior público e gratuito é seletivo — e tende a favorecer estudantes oriundos de escolas privadas de melhor qualidade no ensino médio. O resultado é um sistema com traços regressivos: os recursos mais generosos chegam a quem, em geral, já partiu de condições mais favoráveis. Some-se a isso uma das maiores relações aluno-professor no ensino superior entre os países parceiros da OCDE — 28,8 alunos por docente, terceiro lugar entre 37 países com dados disponíveis.
- O fosso global
Se os dados da OCDE já revelam disparidades expressivas, o quadro global é ainda mais perturbador. Em 2022, os países de baixa renda gastavam, em média, apenas USD 55 por criança ao ano em educação; os de renda média-baixa, USD 309; os de alta renda, USD 8.543. A proporção entre os extremos é de 155 vezes.
Na África Subsaariana, onde vive mais da metade das crianças fora da escola no mundo, a mediana do gasto público em educação como proporção do PIB é de 3,4% — a mais baixa entre todas as regiões. Em muitas salas de aula da região, a relação aluno-professor ultrapassa 60 para 1. O diagnóstico do Banco Mundial é direto: o aumento global nos gastos com educação na última década não se traduziu em aumento significativo do gasto por criança nos países mais pobres, em parte porque a população em idade escolar cresce mais rápido do que os orçamentos educacionais. Em 2022, 41 entre 80 países com dados disponíveis não atingiram nenhuma das duas metas internacionais para o setor: destinar pelo menos 4% do PIB à educação ou pelo menos 15% do orçamento público total. Em vários países africanos, o serviço da dívida externa já compete em magnitude com o gasto em educação.
- O que os números não contam
Seria ingênuo tratar o gasto por aluno como o único indicador que importa. A Finlândia, no início dos anos 2000, gastava menos por aluno do que vários países da Europa ocidental e produzia consistentemente os melhores resultados nas avaliações internacionais do PISA. O que fazia a diferença era formação docente de alto nível, autonomia escolar e cultura de aprendizagem — fatores que não aparecem em nenhuma planilha de gastos. A Coreia do Sul, por sua vez, apresenta resultados excepcionais num sistema que combina alto gasto público nos níveis básicos com uma pressão privada complementar de cursinhos e aulas particulares que os dados oficiais simplesmente não contabilizam.
Vale também distinguir entre gasto corrente — salários, material didático, custeio — e gasto de capital em infraestrutura. Em muitos países pobres, a pressão sobre o gasto corrente é tão intensa que praticamente nenhum recurso sobra para manutenção e expansão da rede física, criando um ciclo silencioso de deterioração que os dados agregados não revelam.
- Por que isso tudo importa
Os países que trataram o ensino fundamental e médio como alavanca central do desenvolvimento — Coreia do Sul, Finlândia, Singapura — descobriram empiricamente que cada real investido nesses níveis tem retornos sociais mais amplos e mais difusos do que no ensino superior, especialmente em sociedades com alta desigualdade de partida. Os países que ainda não fizeram essa escolha — ou que sabem, mas optam por não agir — tendem a concentrar recursos no topo da pirâmide enquanto os alicerces se deterioram.
A educação talvez seja o único investimento em que o prazo de maturação é longo demais para caber num ciclo eleitoral, mas curto demais para que os países que não o fazem hoje possam escapar das consequências amanhã. Os números existem e são cada vez mais precisos. O que ainda falta, em muitos lugares, é a vontade política de levá-los a sério.

