Quem Assume o Risco da Inovação? O Papel Estratégico do Estado e do Setor Privado

Inovar é, por definição, enfrentar incertezas. Ao contrário de investimentos tradicionais, onde os retornos e os riscos são relativamente bem mapeados, a inovação tecnológica lida com um futuro desconhecido, onde não há garantia de sucesso. Por isso, o risco da inovação é, historicamente, elevado. Se depender apenas do setor privado, que responde diretamente a pressões de curto prazo e a exigências de retorno dos investidores, muitos projetos de inovação de alto impacto simplesmente não sairiam do papel. É por isso que, em todo o mundo, os processos de inovação são viabilizados por algum grau de compartilhamento de risco entre Estado e mercado.

Os países que lideram fronteiras tecnológicas — como Estados Unidos, Alemanha, Coreia do Sul, Israel e China — possuem mecanismos robustos de financiamento público à inovação. Nos EUA, a DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency) financiou o desenvolvimento de tecnologias que hoje estão na base da internet, do GPS, dos smartphones e de inúmeras outras inovações. O mesmo vale para o NIH (National Institutes of Health), que investe bilhões de dólares por ano no desenvolvimento de medicamentos e biotecnologias, compartilhando riscos com o setor privado desde a fase mais incerta, a da pesquisa básica.

Na Europa, os bancos públicos como o KfW, da Alemanha, e o Bpifrance, da França, desempenham papel central na mobilização de recursos para inovação, energias limpas e digitalização. Esses bancos oferecem crédito com juros baixos, garantias, participação societária e até subvenções, permitindo que empresas invistam em projetos que, sozinhas, não fariam. Israel é outro exemplo notável: o país criou um modelo de capital semente em que o governo assume uma parte substancial do risco inicial das startups, o que transformou o país em uma potência global em inovação.

O Brasil também possui instituições essenciais nesse ecossistema, como o BNDES, a Finep e a Embrapii. O BNDES, além de financiar grandes projetos industriais, tem linhas específicas para inovação e desenvolvimento tecnológico. A Finep, por sua vez, atua diretamente no financiamento não reembolsável (subvenção econômica) e em linhas de crédito para P&D, reduzindo o risco privado. A Embrapii opera em um modelo bem-sucedido de cofinanciamento de projetos de inovação em parceria com centros de pesquisa e empresas, permitindo o desenvolvimento de tecnologias de forma compartilhada.

Isso não significa que o setor privado não tenha papel central — muito pelo contrário. São as empresas que, na ponta, transformam conhecimento em produtos, processos e serviços comercializáveis. É o setor privado que entende as demandas dos mercados, que gerencia a escala produtiva, que assume os riscos comerciais e industriais. Mas, para que essas empresas inovem de forma contínua, especialmente em economias que ainda não estão na fronteira tecnológica, é necessário que parte dos riscos mais incertos — aqueles associados à pesquisa básica, desenvolvimento de plataformas tecnológicas e capacitação industrial — seja socializada por meio de políticas públicas.

Portanto, o compartilhamento de risco é a regra, e não a exceção, nas economias inovadoras. Quando bem desenhado, esse arranjo gera um ciclo virtuoso: o Estado investe nas fases mais arriscadas, viabiliza o desenvolvimento de tecnologias, que são então exploradas e escaladas pelo setor privado, gerando crescimento econômico, empregos qualificados e aumento de arrecadação, que, por sua vez, retroalimentam a capacidade do Estado de investir. Essa é a lógica que explica, por exemplo, o sucesso da indústria de semicondutores em Taiwan, da indústria aeroespacial no Brasil e do Vale do Silício nos EUA.

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