R$ 445 bilhões a mais: quanto o gasto federal realmente cresceu desde 2022

Poucos temas geram tanto calor e tão pouca luz no debate econômico brasileiro quanto o gasto público. De um lado, fala-se em “gastança descontrolada”; de outro, em “austeridade que sufoca”. Vale olhar os números com calma, em reais de hoje, para entender o que de fato aconteceu com a despesa primária do Governo Central, que reúne Tesouro, Previdência e Banco Central, entre 2021 e 2026.

O ponto de partida é distorcido pela pandemia. Em 2020, o gasto federal chegou a cerca de R$ 2,78 trilhões em valores atualizados, inflado pelo auxílio emergencial e pelas transferências a estados e municípios. Em 2021, com o fim da maior parte dessas medidas, a despesa caiu 23,6% em termos reais, voltando para algo como R$ 2,14 trilhões. Foi um corte de mais de R$ 600 bilhões num único ano, que devolveu o gasto ao patamar de 18,6% do PIB, próximo ao de 2014. Em 2022, ano eleitoral e ainda sob o teto de gastos, a despesa cresceu modestos 2,1% reais, cerca de R$ 45 bilhões a mais.

A grande inflexão veio em 2023. A despesa saltou 12,5% em termos reais, um acréscimo de aproximadamente R$ 270 bilhões em valores de hoje. Dois fatores explicam a maior parte do movimento. O primeiro foi a PEC da Transição, que ampliou o Bolsa Família em cerca de R$ 48 bilhões reais. O segundo foi a decisão do STF que obrigou o governo a quitar o estoque de precatórios represados no governo anterior, R$ 92,4 bilhões pagos de uma só vez. Esse segundo item é importante porque não representa aumento estrutural de gasto, e sim o pagamento de uma conta que havia sido empurrada para frente. Descontado esse efeito, a alta de 2023 teria ficado mais perto de R$ 165 bilhões.

É justamente por causa dessa base inflada que 2024 aparece com uma leve queda real de 0,7%. Se tirarmos os precatórios extraordinários de 2023 da comparação, o crescimento subjacente de 2024 foi de algo como R$ 90 bilhões. Em 2025, a despesa total fechou em R$ 2,394 trilhões nominais, alta real de 3,2%, ou cerca de R$ 80 bilhões a mais em valores de hoje. Já em 2026, o acumulado até julho mostra crescimento real de 6,2%, ou R$ 92,9 bilhões. A mediana do mercado no Prisma Fiscal projeta despesa de R$ 2,625 trilhões para o ano, o que implicaria uma alta de cerca de R$ 110 bilhões reais sobre 2025.

Somando tudo, o gasto primário federal passou de cerca de R$ 2,19 trilhões em 2022 para algo próximo de R$ 2,63 trilhões projetados para 2026, sempre em reais de hoje. São aproximadamente R$ 445 bilhões a mais em quatro anos, um crescimento real acumulado da ordem de 20%. Não é pouco. Mas também não é o descontrole que muitas vezes se sugere, sobretudo quando se considera que parte relevante desse aumento foi a regularização de passivos judiciais e que, a partir de 2024, a trajetória passou a ser disciplinada pelo arcabouço fiscal.

A pergunta mais interessante, a meu ver, não é quanto se gasta, e sim no que se gasta. O crescimento recente foi puxado principalmente por transferências de renda, benefícios previdenciários indexados ao salário mínimo e despesas obrigatórias que se expandem quase automaticamente. O investimento público, que é o gasto com maior efeito multiplicador e maior capacidade de transformar a estrutura produtiva, continua marginal na composição do orçamento, ainda que tenha acumulado alta real de 42,7% entre janeiro e julho deste ano, somando R$ 56,5 bilhões. Um Estado que gasta 18% ou 19% do PIB e dedica uma fração tão pequena disso à infraestrutura, à ciência e à política industrial dificilmente conseguirá sustentar crescimento de longo prazo. Dívida se estabiliza com PIB crescendo, e PIB cresce com investimento e sofisticação produtiva.

O debate fiscal brasileiro ganharia muito se deixasse de lado a contabilidade moral do “gastou demais” versus “gastou de menos” e passasse a discutir a qualidade do gasto. A questão central é se o dinheiro público está ajudando o país a produzir coisas mais complexas, com mais produtividade e mais tecnologia, ou apenas financiando o consumo presente.

Nota metodológica: valores nominais do Resultado do Tesouro Nacional, corrigidos pelo IPCA até agosto de 2026. Os números são arredondados e têm margem de erro de um a dois por cento. O dado de 2026 é projeção de mercado (Prisma Fiscal de setembro).


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