O grande destaque desta manhã está na expectativa crescente de novos cortes de juros nos Estados Unidos. O mercado agora precifica até três cortes ao longo deste ano, um movimento que se intensificou após os dados fracos do Payroll divulgados na última sexta-feira. Na semana anterior, ainda havia dúvidas sobre a possibilidade de apenas um corte. Mas os dados recentes, somados à polêmica em torno da demissão da pessoa responsável pela coleta do Payroll — supostamente ordenada por Donald Trump —, reforçaram a tese de que o Fed será pressionado a reduzir juros mais rapidamente.
Na sexta-feira, houve até um pedido de demissão de um diretor do Fed, o que agravou ainda mais a percepção de instabilidade. O mercado, portanto, ajusta sua visão para um Federal Reserve mais “dovish”, com maior probabilidade de cortes ainda em 2025.
No Brasil, esse cenário externo ajuda bastante. Já vimos uma queda forte nas taxas de juros longas brasileiras, com alívio também no câmbio. O real se valorizou cerca de 1% frente ao dólar futuro, em resposta a esse reposicionamento dos investidores globais. Tudo isso é consequência direta dos dados fracos do mercado de trabalho dos EUA, especialmente do Payroll de julho — que mostrou criação de vagas muito abaixo do esperado, além de fortes revisões para baixo nos dados de maio e junho. A média de empregos criados nos últimos três meses caiu para 30 a 40 mil.
Trump chegou a afirmar que os dados ruins fazem parte de uma conspiração para derrubá-lo politicamente, e teria substituído o responsável pela coleta desses números. Independentemente da retórica, o mercado reagiu com força, apostando em juros mais baixos.
No Brasil, o Boletim Focus desta semana trouxe mais boas notícias: novas revisões para baixo nas projeções de inflação. A expectativa para o IPCA de 2025, que chegou a estar acima de 5%, já se aproxima de 4,43%, com viés de queda. O cenário de diferencial de juros muito elevado entre Brasil e EUA é um dos fatores que contribuem para isso. Com o Fed podendo levar os juros para algo como 3,75% e a Selic mantida em 15% o diferencial de juros pode ultrapassar 11 pontos percentuais — o maior dos últimos 20 anos.
Historicamente, sempre que esse diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos é elevado, o real tende a se valorizar. Já vimos isso em três momentos recentes: entre 2011 e 2013, na pandemia e no fim de 2022. Quando o diferencial é pequeno, como em 2021, o dólar dispara e o real se desvaloriza.
Além disso, há um efeito deflacionário vindo do choque tarifário iniciado por Trump. Como cerca de 50% dos produtos brasileiros ficaram de fora do mercado americano, houve um excedente de oferta no Brasil — afetando itens como carne, café e peixes. Isso pressionou os preços para baixo no mercado doméstico. Embora o efeito sobre a produção e o PIB seja negativo — com projeções indicando uma possível subtração de 0,2 a 0,3 ponto percentual no crescimento deste ano e do próximo —, o impacto inflacionário é benigno no curto prazo.
Ainda é cedo para entender o efeito total das tarifas sobre o comércio bilateral, pois as negociações seguem em curso. Mas, por ora, o resultado mais visível na economia brasileira é a desinflação, que deve continuar ajudando a derrubar o IPCA. Com juro longo em queda e câmbio favorável, o cenário inflacionário segue melhorando no Brasil.


