Acabamos de concluir o mapeamento preliminar da complexidade produtiva dos 185 municípios de Pernambuco, com dados da RAIS 2023 e da SECEX 2024 processados na plataforma DataViva. O resultado mais impressionante do trabalho tem nome e endereço: o Recife registra um Índice de Complexidade Econômica regional (ICE-R) de 2,90, o maior valor que encontramos em todos os estados que já mapeamos — e um dos mais altos do Brasil.
Para quem não é do ramo, vale a lembrança metodológica. O ICE-R, na linha de Hidalgo e Hausmann adaptada ao emprego formal brasileiro, combina duas dimensões: diversidade (quantas atividades diferentes um território abriga com vantagem comparativa) e ubiquidade (quão comuns são essas atividades pelo país afora). Territórios complexos fazem muitas coisas que poucos lugares sabem fazer; territórios simples fazem poucas coisas que todo mundo faz. O índice é padronizado com média zero para o conjunto dos municípios brasileiros. Um 2,90 é, portanto, um outlier.
O que sustenta o número
A estrutura ocupacional da capital pernambucana explica bem o resultado. São 722,8 mil vínculos formais — 38% de todo o emprego com carteira de Pernambuco concentrado numa única cidade. Sobre essa base, três camadas se sobrepõem.
A primeira é a saúde: 7,7% do emprego, 55 mil vínculos, com o atendimento hospitalar sozinho respondendo por 5,2%. O Recife é o segundo polo médico do país e atrai pacientes de todo o Nordeste — uma exportação de serviços que não aparece na balança comercial, mas que é complexidade pura, porque hospital de alta complexidade exige capacidades raras, difíceis de copiar e lentas de acumular.
A segunda é a economia digital. O Porto Digital, no Recife Antigo, é o maior parque tecnológico urbano do Brasil, e seu efeito é visível na RAIS: a consultoria em TI paga em Pernambuco salário médio de R$ 9,4 mil — padrão sudestino —, e o Recife concentra praticamente todos esses vínculos, além de desenvolvimento de software, games e economia criativa.
A terceira é a função de praça financeira e centro de comando regional: bancos múltiplos (6,9 mil vínculos no estado, quase todos na capital, com salário médio de R$ 8,3 mil), sedes de empresas, consulados, SUDENE, Chesf, TRF-5. O Recife manda no Nordeste oriental — e mandar, em economia, também é uma capacidade produtiva.
Some-se a isso uma pauta exportadora que é modesta em valor (US$ 86,7 milhões) mas notável em variedade: 208 produtos diferentes, de petróleo refinado e barras de ferro forjadas a crustáceos, açúcares e instrumentos. Diversidade, de novo.
O Recife não está sozinho
O detalhe que torna Pernambuco singular na nossa série de mapeamentos é que a capital não é uma ilha solitária. O estado inteiro tem ICE-R agregado de +0,27 — é o primeiro estado que mapeamos cuja cesta de atividades supera a média nacional (compare com −0,51 do Rio Grande do Norte e −1,16 do Piauí). E 75 dos 185 municípios pernambucanos, ou 40% do total, estão acima da média brasileira — proporção sem paralelo no Nordeste.
Logo atrás do Recife vem um contínuo metropolitano-industrial que não existe em nenhum outro estado da região: Cabo de Santo Agostinho (2,36), Jaboatão dos Guararapes (2,30), Itapissuma (2,11), Ipojuca (2,10) — a refinaria Abreu e Lima, a petroquímica, o estaleiro —, Olinda (2,04), e o colar de Igarassu, Abreu e Lima e Paulista. Fora da região metropolitana, Goiana (1,76) transformou-se em uma década no maior exportador do estado (US$ 733 milhões, dois terços em automóveis) e Caruaru (1,76), capital do Agreste, comanda o maior polo de confecções da América Latina. Petrolina, Garanhuns, Serra Talhada, Belo Jardim, Toritama, Araripina e Salgueiro também aparecem com ICE-R positivo. É a rede de cidades médias mais densa do Nordeste.
E, no entanto…
Aqui está o paradoxo que o relatório documenta município a município. Com toda essa sofisticação, entre 2002 e 2023 o PIB pernambucano cresceu apenas 54,8% em termos reais — média de 2,1% ao ano, abaixo do Brasil — e o PIB per capita segue em 55% da média nacional, praticamente o mesmo patamar relativo de vinte anos atrás.
A complexidade existe. Ela apenas não escalou. Está encapsulada no eixo Recife–Suape–Goiana e em meia dúzia de polos do interior. Entre eles, estende-se um semiárido de economia rala, com dezenas de municípios onde a prefeitura responde por mais de 80% do emprego formal — Carnaubeira da Penha (−1,93), Ibirajuba (−1,81), Itacuruba (−1,80) fecham o ranking. Até dentro da região metropolitana há fronteira interna: Araçoiaba, encravada entre canaviais a poucos quilômetros da capital mais complexa do Brasil, tem ICE-R de −0,31 e menos vínculos formais que Fernando de Noronha.
O ponto é conceitual e importa para a política pública. Complexidade alta é condição necessária, não suficiente, para renda alta. Ela indica que o território domina capacidades raras — mas se essas capacidades empregam 2,5 mil pessoas em TI numa cidade de 1,5 milhão de habitantes, o efeito sobre a renda média é pequeno. As atividades de ponta do Recife empregam frações do que empregam suas equivalentes em São Paulo.
Por isso o desafio da capital pernambucana, na linguagem da complexidade, não é diversificar — é escalar e irradiar. O Recife já sabe fazer as coisas difíceis. Precisa fazê-las em volume dez vezes maior e transbordá-las para a periferia metropolitana, para o Agreste, para o Sertão. Cada ponto percentual de crescimento do Porto Digital, do polo médico, da cadeia farmoquímica de Goiana ou da química de Suape vale mais para a economia pernambucana do que qualquer política de atração de novos setores do zero.
Pernambuco é o estado do Nordeste que menos precisa inventar vocação nova. Precisa de escala nas vocações que já tem.
Baseado no relatório preliminar “Mapeamento da complexidade produtiva dos municípios de Pernambuco” (RAIS 2023, SECEX 2024/DataViva, metodologia ICE-R), que traz fichas individuais dos 185 municípios do estado.

