Remuneração e Complexidade Setorial no Brasil: Uma Análise a Partir dos Dados da RAIS 2023

A estrutura do mercado de trabalho formal brasileiro

A análise dos dados da Relação Anual de Informações Sociais de 2023 para os 19 setores econômicos da Classificação Nacional de Atividades Econômicas revela um mercado de trabalho formal profundamente segmentado, no qual uma minoria de setores concentra alta remuneração e sofisticação produtiva enquanto a maioria dos trabalhadores formais está empregada em atividades de baixa remuneração e baixa complexidade. O total de vínculos formais ativos no país em 2023 era de aproximadamente 57,5 milhões, com salário médio geral de R$ 3.162 mensais — valor que esconde uma dispersão extraordinária entre setores, que vai de R$ 1.865 no Alojamento e Alimentação a R$ 9.043 na Eletricidade e Gás.

Os setores de alta remuneração: capital, não conhecimento

Apenas três setores da economia formal brasileira remuneram seus trabalhadores acima de R$ 5.000 mensais em média: Eletricidade e Gás (R$ 9.043), Financeiro e Seguros (R$ 8.560) e Indústria Extrativa (R$ 8.425). Juntos, esses três setores empregam aproximadamente 1,47 milhão de trabalhadores — menos de 3% de toda a força de trabalho formal do país. A escassez de empregos de alta remuneração é, por si só, um dos dados estruturais mais relevantes da economia brasileira.

O cruzamento entre remuneração e complexidade produtiva — medida pelo Índice de Complexidade das Atividades Regionais (ICA-R) — revela, no entanto, uma distinção crítica dentro desse grupo de alta remuneração. O setor Financeiro apresenta ICA-R de +0,89, o mais elevado de toda a economia formal, indicando que sua alta remuneração está associada a capacidades produtivas sofisticadas, escassas e de difícil replicação — exatamente o padrão que a teoria da complexidade econômica associa a trajetórias sustentáveis de desenvolvimento. Já a Eletricidade e Gás apresenta ICA-R de -0,57 e a Indústria Extrativa de -1,08: ambos remuneram bem não porque concentram conhecimento raro, mas porque são intensivos em capital físico, operam com barreiras regulatórias elevadas e dependem de recursos naturais não replicáveis. Essa distinção é decisiva para a política industrial: um país que quer elevar a qualidade do emprego precisa expandir setores de alta remuneração e alta complexidade — não apenas setores de alta remuneração sustentada por monopólios naturais ou concessões públicas.

O setor de média remuneração: onde reside o potencial transformador

A faixa de remuneração intermediária, entre R$ 3.000 e R$ 5.000 mensais, reúne sete setores com perfis muito distintos entre si. O destaque analítico mais relevante é o setor de Tecnologia da Informação e Comunicação, com remuneração média de R$ 5.968 e ICA-R de +0,59 — a combinação mais favorável de toda a economia formal brasileira em termos de qualidade do emprego. O TIC é o único setor que simultaneamente remunera acima da média, apresenta alta complexidade produtiva e tem demonstrado crescimento consistente do número de vínculos formais nos últimos anos, hoje com 1,19 milhão de trabalhadores. Em um país que busca ampliar a participação de atividades intensivas em conhecimento na sua estrutura produtiva, o setor de TIC representa o principal vetor disponível de sofisticação do mercado de trabalho formal.

Os Serviços Profissionais e Científicos (R$ 4.170, ICA-R +0,18) e a Indústria de Transformação (R$ 3.597, ICA-R +0,19) compõem a segunda camada de setores com remuneração e complexidade acima da média. A Indústria de Transformação merece atenção especial por combinar o segundo maior contingente de empregos formais do país — 7,81 milhões de trabalhadores — com remuneração próxima à média e complexidade levemente positiva. Esse setor é, ao mesmo tempo, o principal alvo das políticas de reindustrialização em curso no país e o mais heterogêneo internamente: dentro da Indústria de Transformação convivem CNAEs com salários acima de R$ 15.000 mensais, como a fabricação de cloro e álcalis e de produtos petroquímicos básicos, e CNAEs com remuneração próxima ao salário mínimo, como a confecção de roupas e o processamento de couro.

A Administração Pública, com salário médio de R$ 4.250 mensais e 8,61 milhões de vínculos, ocupa posição ambígua nessa análise. É o setor de maior massa salarial individual do país — concentrando uma fração expressiva de toda a renda do trabalho formal brasileiro — e remunera acima da média nacional. Mas seu ICA-R de -0,99 é dos mais baixos de toda a economia, o que não reflete necessariamente baixa qualificação dos trabalhadores, mas o fato de que o emprego público está distribuído por praticamente todos os territórios do país de forma relativamente uniforme — ao contrário dos setores privados sofisticados, que se concentram em poucos polos. O problema estrutural que a Administração Pública representa não é sua remuneração em si, mas sua função como substituto do mercado de trabalho privado qualificado em regiões onde este é ausente — fenômeno que, como veremos a seguir, define a geografia do trabalho formal no Norte e no Nordeste do Brasil.

Os setores de baixa remuneração: onde está a maioria dos trabalhadores

Nove dos dezenove setores da economia formal brasileira remuneram abaixo de R$ 3.000 mensais — e é nesse grupo que se concentra a maioria absoluta dos trabalhadores formais do país. O Comércio, com 10,25 milhões de vínculos, é o maior empregador da economia formal brasileira e paga salário médio de R$ 2.562 — apenas 81% da média nacional e menos do que o dobro do salário mínimo vigente em 2023. Os Serviços Administrativos empregam 5,78 milhões de trabalhadores a R$ 2.351, e a Construção Civil absorve 2,85 milhões a R$ 2.638. O setor de Alojamento e Alimentação fecha o ranking com a menor remuneração média de toda a economia formal — R$ 1.865 mensais para 2,16 milhões de trabalhadores, valor que se situa apenas R$ 453 acima do salário mínimo de 2023 e que praticamente não deixa margem de consumo além das necessidades básicas.

O traço comum a todos esses setores é o ICA-R consistentemente negativo — Ind. Extrativa (-1,08), Agropecuária (-1,02), Adm. Pública (-1,00), Água e Saneamento (-0,65) — o que indica atividades ubíquas, de baixa especificidade de conhecimento e alta disponibilidade de oferta de trabalho. No espaço de produto, atividades de ICA-R fortemente negativo tendem a se conectar com poucos outros setores de maior complexidade, dificultando trajetórias espontâneas de diversificação produtiva. Isso significa que um trabalhador empregado em Alojamento e Alimentação ou em Serviços Administrativos tem poucas oportunidades de migrar para atividades de maior remuneração sem investimento deliberado em qualificação e mudança de setor — ao contrário do que ocorre em economias mais complexas, onde a mobilidade entre setores adjacentes é mais fluida.

A dimensão territorial: o Brasil dos setores dominantes

A análise da distribuição territorial dos setores econômicos revela uma das assimetrias mais profundas do desenvolvimento brasileiro. A Administração Pública é o setor dominante — entendido como o de maior massa salarial — em 23 dos 27 estados da federação. Apenas São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul têm a Indústria de Transformação como setor de maior peso na massa salarial formal, e apenas o Mato Grosso apresenta o Comércio como setor dominante. Em todos os demais estados — incluindo Alagoas, Maranhão, Piauí, Tocantins, Amapá, Roraima, Acre, Sergipe, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco — o Estado é, literalmente, o principal pagador de salários formais.

Esse dado não é apenas uma curiosidade estatística: é a expressão quantitativa de uma falha estrutural de desenvolvimento que perpassa décadas de história econômica brasileira. Em estados onde o mercado privado não gerou, ao longo do tempo, setores de média e alta complexidade em escala suficiente para absorver a força de trabalho qualificada, o emprego público acabou ocupando esse vácuo — sustentando a classe média local, financiando o consumo urbano e mantendo a coesão social mínima em territórios que, sem essa transferência implícita de renda, teriam economias formais ainda mais restritas. O problema é que esse equilíbrio é fiscalmente frágil, remuneratoriamente limitado e produtivamente estéril: o gasto público pode sustentar renda, mas não cria as capacidades produtivas que geram riqueza de forma autônoma e crescente.

O ranking estadual de remuneração média sintetiza com precisão essa geografia da desigualdade. O Distrito Federal lidera com R$ 5.045 mensais — único estado na faixa de alta remuneração média, reflexo da concentração massiva de servidores federais de alto escalão. São Paulo (R$ 3.972) e Santa Catarina (R$ 3.671) aparecem em segundo e terceiro lugar, sendo os únicos estados em que a liderança da Indústria de Transformação na massa salarial reflete uma estrutura produtiva privada efetivamente diversificada e sofisticada. Rio de Janeiro (R$ 3.567) e Paraná (R$ 3.519) completam o grupo dos estados acima de R$ 3.500.

Na base do ranking, Amapá (R$ 2.229), Maranhão (R$ 2.250) e Tocantins (R$ 2.325) registram os menores salários médios do trabalho formal no país — todos com Administração Pública dominante e estrutura produtiva privada incapaz de gerar empregos de média ou alta remuneração em escala relevante. Alagoas (R$ 2.536) e Ceará (R$ 2.510) aparecem no mesmo grupo, confirmando o padrão nordestino e amazônico de dependência do gasto público como âncora do mercado de trabalho formal.

Síntese: três Brasis salariais

Os dados da RAIS 2023 permitem identificar com precisão três configurações distintas de mercado de trabalho formal no país, que se superpõem mas não coincidem com as divisões geográficas tradicionais.

O primeiro grupo é formado pelos estados com estrutura produtiva privada diversificada — São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná e, em menor medida, Minas Gerais e Espírito Santo —, nos quais a Indústria de Transformação e os Serviços sofisticados geram empregos suficientes para que o mercado privado seja o principal determinante da renda formal. Nesses estados, a remuneração média do trabalho formal supera R$ 3.200 e a participação da Administração Pública na massa salarial tende a ser menor.

O segundo grupo é formado pelos estados com estrutura dual — Bahia, Pernambuco, Goiás, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro —, nos quais coexistem ilhas de alta remuneração ligadas à indústria pesada, ao agronegócio mecanizado ou ao setor financeiro, com uma base ampla de serviços de baixa remuneração e um funcionalismo público que ainda desempenha papel central na estrutura da renda formal. Nesses estados, a remuneração média oscila entre R$ 2.800 e R$ 3.500, e a diversificação produtiva é incipiente mas real.

O terceiro grupo é formado pelos estados de dependência fiscal — concentrados no Norte e no Nordeste, com destaque para Amapá, Maranhão, Tocantins, Alagoas e Piauí —, nos quais o mercado de trabalho formal é sustentado primordialmente pelo gasto público e onde a ausência de setores privados de média e alta complexidade em escala relevante cria um equilíbrio de baixa remuneração que se reproduz de geração em geração. Nesses estados, superar a armadilha do funcionalismo como único empregador de qualidade exige não apenas políticas sociais, mas uma estratégia deliberada de construção de capacidades produtivas que o mercado, por si só, não tem conseguido criar.

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