Destaque da manhã: mais um pacote da China, um anúncio de mais de 140 bilhões de dólares de injeção de capital nos bancos públicos, para sustentar os bancos e tentar reciclar dívidas de empresas e hipotecas. Falamos muito sobre a China, mas não acredito que isso recoloca o país na antiga rota de crescimento de 5%, 6%, 7% ou 8% ao ano. Grande parte da infraestrutura já está construída e agora precisa ser absorvida. O que estamos observando é basicamente uma reciclagem de dívidas e gestão de ativos construídos em excesso. A China está passando por uma sobreoferta de capital, o oposto do que acontece no Brasil. Essa sobreoferta é uma das razões pela qual o país enfrenta deflação, especialmente nos preços de atacado. O governo continuará apoiando o processo que, na economia, chamamos de “debt deflation”, envolvendo dívida e deflação. O desafio é evitar que isso se transforme em uma grande crise. Eles conseguem contornar isso em parte porque o setor industrial e o consumo continuam ativos, embora seja difícil atingir a meta de crescimento de 4% que o governo está buscando. O minério de ferro reagiu levemente com pequenos picos, mas acredito que esse processo de absorção da infraestrutura imobiliária e logística vai se estender por vários anos.Esta semana foi marcada por várias notícias de estímulos vindos da China.
Para Brasil o grande destaque foi o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) do Banco Central publicado hoje. Esse relatório é uma peça-chave na comunicação do BC, que utiliza três principais instrumentos: o comunicado da decisão de juros, a ata do Copom e o RTI. Este último, com quase 100 páginas, oferece uma visão abrangente sobre o que está acontecendo no Brasil. A mensagem principal do RTI é clara: o Brasil está aquecendo. O BC revisou sua previsão de crescimento para 3,2% este ano e coloca a inflação (IPCA) em 3,3% para o horizonte relevante da política monetária, ainda acima da meta de 3,2% para o primeiro trimestre de 2027. O Banco Central recalculou o hiato do produto, com a previsão de que o hiato, que estava em -0,4%, agora esteja em +0,3%. Isso mostra que a economia está aquecida. O desemprego caiu significativamente, e a utilização da capacidade instalada na indústria está próxima do limite. O Banco Central está monitorando esses indicadores, e a questão é como pilotar esse processo para que ele continue sustentável, com aumento de investimento e controle da inflação. Além disso, há uma preocupação com a desancoragem prolongada das expectativas de inflação, o que é prejudicial para a inércia inflacionária. O relatório também ressalta o impacto da política fiscal sobre o câmbio, criando prêmio de risco e desvalorizando a moeda, o que também é inflacionário. Outro ponto de atenção é a inflação de serviços, que está acelerando devido à forte atividade econômica. Por fim, o BC destaca a desaceleração da China, que pode ter impactos importantes na economia brasileira e mundial.
Hiato de produto
O conceito de hiato do produto é uma ferramenta usada por economistas para medir a diferença entre o nível de produção real de uma economia (PIB real) e o seu nível de produção potencial (PIB potencial). O PIB potencial é o que uma economia seria capaz de produzir se todos os seus recursos – como mão de obra, capital e tecnologia – estivessem sendo utilizados de forma eficiente, sem gerar pressões inflacionárias.
Existem dois tipos principais de hiato do produto:
- Hiato do produto negativo: Ocorre quando o PIB real está abaixo do PIB potencial. Isso significa que a economia está operando com ociosidade, ou seja, não está utilizando plenamente seus recursos, como trabalhadores e fábricas. Em outras palavras, há desemprego elevado e capacidade produtiva ociosa. Esse cenário geralmente indica um período de recessão ou crescimento econômico abaixo do esperado.
Hiato do produto positivo: Ocorre quando o PIB real está acima do PIB potencial. Nesse caso, a economia está operando “acima da capacidade”, ou seja, seus recursos estão sendo utilizados ao máximo, muitas vezes de forma insustentável. Isso pode gerar pressões inflacionárias, já que a demanda por bens e serviços supera a oferta, fazendo os preços subirem.
O hiato do produto é uma métrica importante porque ajuda a determinar se a política econômica precisa ser ajustada. Por exemplo, se há um hiato negativo, o governo ou o banco central podem adotar políticas expansionistas, como redução de juros ou aumento dos gastos públicos, para estimular a economia. Por outro lado, um hiato positivo pode sugerir a necessidade de medidas para controlar a inflação, como o aumento dos juros.
O cálculo do hiato do produto envolve estimar o PIB potencial, o que pode ser complicado, pois depende de diversas variáveis, como produtividade, tecnologia e condições do mercado de trabalho.


