Shark Tank e as pobres sardinhas brasileiras

*escrito com André Roncaglia

Shark Tank mostra como a economia brasileira não aprende. O programa Shark Tank é um sucesso da TV a cabo nos EUA e alguns anos atrás veio para o Brasil. Trata-se de um cenário em que pequenos empreendedores têm uma ideia inovadora mas bateram nos limites do modelo de negócios que eles criaram de forma improvisada. Sem financiamento, sem conhecimento de negócios e sem acesso a grandes estruturas de distribuição, eles aparecem na frente de grandes – e claramente predatórios – investidores para vender uma parte de seu negócio. A ideia é tornar uma grande ideia em um grande negócio. As diferenças entre as versões americana e brasileira revelam a essência do que tentamos mostrar em nosso livro Brasil, uma economia que não aprende. A economia brasileira não oferece um ecossistema amigável a “grande ideias” que se transformam em grandes e complexas corporações. Aqui é o país das “pequenas empresas” e, por vezes, “grandes negócios”.

Lá, há um número muito maior de propostas de negócios com patentes já registradas, envolvendo algum grau de elaboração tecnológica. No ambiente de elevada produção de tecnologia farmacêutica, um cientista PhD desenvolve uma empresa que faz a coleta de amostras para testes clínicos, pagando US$ 50 dólares a cada pessoa que lhe conceder um pouco de sua saliva. Motivo: as empresas gastariam mais de US$ 200 por pessoa na ausência daquele negócio. Além disso, um corretor de imóveis consegue desenvolver uma patente de uma trava eletrônica comandada remotamente, de forma a ampliar e facilitar o acesso de corretores às casas, reduzindo custos e elevando o compartilhamento de dados sobre interesse dos clientes. Temos aí tecnologia hard (tranca eletrônica) e a soft (a programação de controle). Há vários outros exemplos menos complexos, como um vendedor de frango frito que conseguiu angariar o apoio de um tubarão por US$ 600 mil, mas é apenas uma exceção. Isso não significa que estes negócios sejam, por si sós, tecnologicamente avançados. O ponto é que eles se encaixam numa rede complexa de negócios sob comando dos Sharks. É esta economia de escopo que permite a polinização cruzada de tecnologia entre produtos e mercados. O Capital não tem este nome à toa: é a cabeça que controla o processo!

Na versão brasileira, em geral o que se vê é revendas de móveis e armários, serviços com escalabilidade limitada de pet shop, barbearia e cabelereiro, vendas de pastel e coxinhas gourmetizadas. Todas iniciativas válidas do ponto de visto do pequeno empreendedor individual, mas muito limitadas do ponto de vista do efeito germinador e difusor de novas tecnologias pelo sistema econômico. Sem atacar a ausência de um sistema amigável à inovação, o Brasil continuará criando “pequenas empresas, grandes negócios”. Só que estes só servirão à nossa economia e não nos levarão ao campeonato mundial da produção e nem a subir a escada tecnológica. Seguiremos sendo uma economia “da padoca” ou “25 de março” que faz comércio de bugigangas; mergulhada em setores de serviços simples e produção industrial de baixíssimo conteúdo tecnológico. Um tanque de sardinhas perdidas!

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