Poucos conceitos são tão utilizados no debate econômico quanto produtividade. Países crescem porque aumentam sua produtividade. Salários reais dependem da produtividade. Economias ricas são mais produtivas do que economias pobres. E uma das medidas mais utilizadas para acompanhar esse processo é a chamada produtividade total dos fatores, a famosa PTF.
Mas existe uma questão anterior, e muito mais complicada: o que exatamente estamos medindo quando dizemos que a produtividade de uma economia aumentou ou diminuiu?
Essa pergunta está no centro de uma diferença importante entre a tradição associada a Robert Solow e a abordagem estrutural desenvolvida por Luigi Pasinetti.
O mundo de Solow
No modelo tradicional de Solow, podemos representar a produção de uma economia por uma função relativamente simples:
Y=A F(K,L)
O produto depende do estoque de capital, do trabalho e de um componente (A), associado à eficiência com que esses fatores são utilizados.
A partir daí surge a conhecida decomposição do crescimento.
Uma parte do crescimento econômico pode ser explicada pelo aumento do capital. Outra pelo aumento do trabalho. Aquilo que sobra aparece como crescimento da produtividade total dos fatores.
É o famoso resíduo de Solow.
A ideia é extremamente poderosa. Se uma economia cresce 4% ao ano e o aumento de capital e trabalho consegue explicar 2,5 pontos percentuais, os 1,5 pontos restantes aparecem como crescimento da PTF.
Esse procedimento tornou-se uma das ferramentas fundamentais da macroeconomia moderna.
Mas há uma dificuldade.
Uma economia não é uma grande fábrica produzindo um único bem.
A crítica estrutural de Pasinetti
Pasinetti parte de uma visão muito diferente. A economia é composta por setores que produzem coisas diferentes, apresentam taxas diferentes de crescimento da produtividade e enfrentam padrões diferentes de demanda.
A produtividade de uma fábrica de automóveis pode crescer 5% ao ano. A produtividade de um restaurante talvez cresça 1%. A de uma escola pode praticamente não crescer quando medida pelo número de professores necessários para ensinar determinado número de alunos.
Essas diferenças não são acidentes estatísticos. Elas fazem parte do próprio processo de desenvolvimento econômico.
À medida que a produtividade cresce na agricultura e na indústria, trabalhadores são liberados desses setores e migram para os serviços. Simultaneamente, conforme a renda aumenta, as famílias passam a consumir proporcionalmente mais serviços.
A estrutura da economia muda.
E aqui aparece o problema para as medidas agregadas de produtividade.
Uma economia pode ficar mais produtiva e parecer menos produtiva
Imagine uma economia com apenas dois setores.
Na indústria, a produtividade cresce 5% ao ano.
Nos serviços, cresce 1%.
Inicialmente, metade dos trabalhadores está na indústria e metade nos serviços. Depois de algumas décadas, apenas 20% trabalham na indústria e 80% estão nos serviços.
Nenhum dos dois setores ficou menos produtivo. Pelo contrário: a produtividade aumentou nos dois.
Mas a produtividade agregada da economia passa a crescer mais lentamente porque uma parcela cada vez maior dos trabalhadores está justamente no setor em que os ganhos de produtividade são menores.
Temos então um paradoxo aparente: o sucesso do aumento da produtividade industrial pode contribuir para reduzir o crescimento da produtividade agregada.
A indústria ficou tão produtiva que passou a precisar de menos trabalhadores. Esses trabalhadores migraram para atividades nas quais os ganhos de produtividade são estruturalmente menores.
Isso nos leva diretamente a William Baumol.
Baumol entra na história
O famoso efeito Baumol mostra que setores com baixo crescimento da produtividade podem ocupar parcelas crescentes da economia.
Uma orquestra continua precisando de quatro músicos para executar um quarteto de Beethoven. Um professor continua precisando de tempo para dar uma aula. Um médico continua precisando de tempo para examinar um paciente.
Enquanto isso, uma fábrica moderna pode produzir várias vezes mais utilizando uma fração do trabalho necessário algumas décadas atrás.
Mas os salários dos músicos, professores e médicos não podem ficar indefinidamente atrás dos salários industriais. Caso contrário, ninguém permaneceria nessas profissões.
O resultado é que o preço relativo dos serviços aumenta.
A economia passa a gastar uma parcela maior de sua renda justamente nos setores que apresentam menor crescimento da produtividade física.
E aqui está o problema da mensuração
PIB não é simplesmente a soma de carros, consultas médicas, cortes de cabelo, toneladas de aço e aulas universitárias.
Precisamos transformar coisas completamente diferentes em uma unidade comum de valor.
Isso significa utilizar preços.
E, quando os preços relativos mudam sistematicamente, a maneira como agregamos os setores também muda.
Essa é uma das grandes mensagens que emerge da abordagem estrutural: produtividade agregada, mudança estrutural e preços relativos não podem ser tratados como fenômenos independentes.
Quando a produtividade industrial cresce rapidamente, os preços relativos dos bens industriais tendem a cair. Quando a produtividade dos serviços cresce lentamente, seus preços relativos tendem a subir.
Ao mesmo tempo, o emprego migra da indústria para os serviços.
O resultado observado nas contas nacionais é uma combinação de pelo menos três fenômenos:
ganhos de produtividade dentro dos setores, mudanças na composição setorial da economia e mudanças nos preços relativos.
Separar essas três coisas é muito mais difícil do que parece.
O resíduo de Solow não é simplesmente “tecnologia”
É por isso que devemos ter cuidado com a interpretação da PTF.
O resíduo de Solow é uma medida extremamente útil, mas ele não deve ser automaticamente interpretado como uma medida pura de progresso tecnológico.
Ele pode capturar várias coisas ao mesmo tempo: progresso técnico, economias de escala, utilização da capacidade, mudanças na qualidade do trabalho e do capital, erros de mensuração e, sobretudo, transformações na estrutura produtiva.
A crítica de Pasinetti não significa que devemos abandonar as medidas agregadas de produtividade.
Significa que precisamos olhar por baixo do agregado.
Uma economia pode apresentar baixo crescimento da produtividade agregada enquanto determinados setores experimentam enormes avanços tecnológicos.
Da mesma maneira, dois países podem apresentar produtividades agregadas muito diferentes não apenas porque suas empresas possuem tecnologias diferentes, mas porque suas estruturas produtivas são diferentes.
A desindustrialização vista por outro ângulo
Isso é particularmente importante para entender a desindustrialização das economias desenvolvidas.
Quando a produtividade da indústria cresce mais rapidamente do que a produtividade dos serviços, a indústria consegue produzir cada vez mais utilizando relativamente menos trabalhadores.
O emprego industrial cai.
Como os preços dos bens industriais também tendem a crescer menos do que os preços dos serviços, a participação da manufatura no PIB a preços correntes também pode cair.
Isso não significa necessariamente decadência industrial.
Em determinadas circunstâncias, pode significar exatamente o contrário: a indústria está perdendo participação porque sua produtividade cresce rapidamente.
É muito diferente do caso de um país que perde indústria porque suas empresas deixam de ser competitivas, o investimento desaparece e a produção industrial estagna.
As duas situações podem produzir estatísticas aparentemente semelhantes de participação da manufatura no PIB, mas representam processos econômicos completamente diferentes.
Solow e Pasinetti estão olhando para perguntas diferentes
Talvez essa seja a maneira mais interessante de interpretar o debate.
Solow pergunta:
quanto do crescimento econômico não pode ser explicado simplesmente pela acumulação de capital e trabalho?
Pasinetti nos força a perguntar algo anterior:
faz sentido tratar uma economia composta por setores radicalmente diferentes como se ela produzisse um único bem com uma única tecnologia?
As duas perguntas são importantes.
Mas, quando queremos entender desenvolvimento econômico, desindustrialização e transformação estrutural, a segunda se torna indispensável.
Produtividade não é apenas uma história sobre produzir mais com os mesmos fatores.
É também uma história sobre o que produzimos, onde os trabalhadores estão empregados, como os preços relativos mudam e como a própria estrutura da economia se transforma ao longo do desenvolvimento.
E talvez seja justamente aí que algumas das medidas mais utilizadas de produtividade começam a esconder tanta coisa quanto revelam.


