Space X atinge o valor de u$2 trilhões com a ajuda do Estado americano

No dia 12 de junho de 2026, a SpaceX fez sua estreia na Nasdaq com o ticker SPCX. Os papéis começaram cotados a 150 dólares, dispararam 23% ao longo do dia e fecharam ao redor de 166 dólares — número que empurrou a companhia para além de US$ 2 trilhões de valor de mercado e a colocou entre as seis maiores empresas americanas. Foram captados aproximadamente US$ 75 bilhões, a maior abertura de capital de que se tem registro. Naquele momento, Elon Musk se tornou algo que durante anos soara apenas como hipótese de calculadora: o primeiro trilionário do planeta, com cerca de US$ 1,05 trilhão de patrimônio, ancorado principalmente em sua participação na SpaceX, avaliada em mais de US$ 766 bilhões.

O que de fato representa uma só pessoa acumular mais riqueza do que nações inteiras? Representa estourar as réguas habituais da economia. A fortuna de Musk já supera o PIB de países como Taiwan, Irlanda e Suécia, e é maior do que a soma dos cinco nomes que vêm logo abaixo dele entre os mais ricos do mundo. Colocando em termos palpáveis: esse US$ 1 trilhão é cerca de US$ 200 bilhões superior a tudo o que a NASA desembolsou desde que foi criada, em 1958 — e bastariam menos de 3% desse patrimônio para bancar o orçamento inteiro da agência em 2025, de US$ 24,6 bilhões. Quando um indivíduo dispõe de mais recursos do que o programa espacial de uma superpotência, já não dá para saber onde termina o poder privado e onde começa o público.

Mas para entender o que esse número significa, vale recompor a história inteira da empresa que o produziu — porque ela é tudo, menos a fábula do gênio solitário. A SpaceX nasceu de uma frustração. Em 2001, Musk visitou a agência espacial russa na esperança de comprar foguetes da Roscosmos para uma missão simbólica a Marte; foi recebido com hostilidade, e a viagem de volta lhe deu a epifania de que sairia mais barato construir os próprios foguetes do que comprá-los.  Em 14 de março de 2002, recém-saído da venda do PayPal, ele incorporou a Space Exploration Technologies e bancou o início com cerca de US$ 100 milhões do próprio bolso.  O primeiro produto foi o Falcon 1, um foguete pequeno batizado em homenagem à Millennium Falcon, desenvolvido numa lógica de prototipagem rápida e “falhar logo para aprender rápido”.

Os primeiros anos foram à beira do abismo. Os três lançamentos iniciais do Falcon 1, entre 2006 e 2008, fracassaram um atrás do outro.  A empresa estava com o caixa no fundo do poço quando, em setembro de 2008, o quarto voo do Falcon 1 finalmente chegou à órbita — tornando-se o primeiro foguete de combustível líquido desenvolvido por uma empresa privada a conseguir o feito.  O que veio em seguida foi decisivo: na esteira desse resultado, a NASA concedeu à SpaceX um contrato de serviços de reabastecimento (CRS), e foi esse capital que deu à empresa o fôlego de que precisava para sobreviver.  Sem aquele contrato no instante exato, a história provavelmente teria terminado ali.

Salva, a empresa partiu para o foguete que mudaria tudo. O Falcon 9 voou pela primeira vez em 4 de junho de 2010, concebido para ser confiável e reutilizável.  Em 8 de outubro de 2012, a cápsula Dragon se tornou a primeira espaçonave comercial a entregar carga à Estação Espacial Internacional , provando que empresas privadas podiam fazer o trabalho que antes era exclusivo de Estados. Mas a virada histórica veio na recuperação dos foguetes: em 21 de dezembro de 2015, a SpaceX pousou pela primeira vez o primeiro estágio de um Falcon 9 de volta na Terra após colocar uma carga em órbita.  Em 8 de abril de 2016, repetiu a façanha pousando um estágio sobre uma plataforma flutuante no Atlântico, a “Of Course I Still Love You”.  Em 30 de março de 2017, realizou a primeira reutilização de um foguete de classe orbital, religando o relógio da economia do setor.  Em 6 de fevereiro de 2018, o gigantesco Falcon Heavy fez seu voo inaugural, recuperando dois de seus três propulsores. 

O coroamento veio em 2020. Naquele ano, a missão Demo-2 da Crew Dragon levou astronautas da NASA à ISS, tornando a SpaceX a primeira empresa privada a transportar seres humanos à estação  e encerrando a dependência americana das cápsulas russas Soyuz. Em paralelo, a empresa construiu duas apostas de longo prazo que hoje sustentam seu valuation: a megaconstelação Starlink, que ultrapassou cinco milhões de assinantes no início de 2025 e gera receita recorrente, e o Starship, sistema totalmente reutilizável projetado para levar cem toneladas à órbita e servir de espinha dorsal para missões a Marte e ao programa lunar Artemis. 

E é aqui que o fio condutor se revela. Nada disso foi feito a partir do nada. A SpaceX não subiu apenas graças a fundos de risco e foguetes reaproveitáveis. Subiu com a NASA. Foi a agência que, pelo programa Commercial Orbital Transportation Services, firmou os contratos que permitiram à empresa desenvolver a capacidade de transportar carga — e depois tripulação — até a Estação Espacial. Sem esses contratos, sem o dinheiro e, acima de tudo, sem o aval técnico e institucional da NASA, é improvável que a empresa tivesse atravessado seus primeiros anos, justamente os que quase a mataram.

E há uma camada ainda mais ampla por baixo de tudo: o ecossistema inteiro de pesquisa dos Estados Unidos. A internet veio da Arpanet, paga pelo Pentágono. O GPS que guia cada foguete tem origem militar. Baterias, semicondutores, materiais de ponta e a própria fundação científica da exploração espacial são fruto de gerações de investimento público em universidades, laboratórios nacionais e agências como DARPA, NASA e NSF. É o que Mariana Mazzucato batizou de “Estado empreendedor”: aquele que assume o risco mais radical, de retorno duvidoso e horizonte distante, que nenhum capital privado toparia bancar sozinho. O empresário chega depois — embala o produto, fica com o lucro e leva os créditos.

E aqui está o paradoxo que o IPO de US$ 2 trilhões escancara. Em 2025, a SpaceX faturou US$ 18,67 bilhões, crescimento de 33%, mas trocou o lucro de US$ 791 milhões do ano anterior por um prejuízo líquido de US$ 4,94 bilhões. O que o mercado comprou não foi o resultado de hoje, e sim a aposta no amanhã — Starlink, Marte, data centers de IA em órbita. Uma aposta assentada sobre alicerces pagos pelo contribuinte americano. O risco foi repartido com todos; o ganho foi concentrado em uma única pessoa, numa proporção sem precedentes. O primeiro trilionário da história não desmente o papel do Estado. Talvez seja, na verdade, a sua criação mais impressionante — e a mais incompreendida.

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