Os subsídios industriais da China operam sobre uma base estrutural incomparavelmente mais favorável do que a brasileira. Lá, o câmbio é administrado e competitivo, os juros reais são baixos, a carga tributária é moderada e os custos de energia e insumos são bem menores — inclusive por conta de tributos reduzidos. Assim, quando o governo chinês injeta recursos em determinados setores, esses subsídios se somam a um ambiente econômico já propício à inovação e à competitividade, potencializando o empreendedorismo e a capacidade de gerar valor tecnológico.
No Brasil, ocorre o oposto. As renúncias fiscais e incentivos setoriais têm efeito limitado: servem, quando muito, para aliviar o peso dos juros, dos tributos e dos custos elevados que afligem o setor produtivo. Em vez de funcionarem como motores de inovação, acabam beneficiando apenas segmentos que possuem força política suficiente para obtê-los. O resultado é um sistema de incentivos distorcido, voltado mais para a sobrevivência de grupos estabelecidos do que para o estímulo de novas fronteiras produtivas.
Enquanto a China faz uma verdadeira injeção de recursos em seu setor produtivo — estimada em 4% a 6% do PIB —, o Brasil impõe uma extração fiscal de magnitude semelhante. Em outras palavras, lá o Estado injeta capital para criar valor; aqui, retira capital do setor produtivo e ainda tributa pesadamente o investimento e a produção. É um contraste gritante entre um modelo que impulsiona o desenvolvimento e outro que o estrangula.
No agronegócio brasileiro, há um raro caso de política coerente: carga tributária reduzida, crédito subsidiado e apoio tecnológico via Embrapa. O modelo funciona — o setor é competitivo e inovador dentro das suas fronteiras. O problema é que o valor adicionado do agro é limitado. Mesmo nos Estados Unidos, todo o agronegócio gera cerca de US$ 300 bilhões — apenas 1% de um PIB de US$ 30 trilhões.
Ou seja, escolhemos o setor errado para subsidiar. Enquanto países como a China canalizam recursos para manufatura avançada, eletrônica, energia e tecnologias verdes — setores de alto valor agregado e efeito multiplicador —, o Brasil concentrou seus incentivos no campo. O resultado é um país que produz muito, exporta commodities de baixo valor e continua importando a tecnologia e os bens complexos que moldam o futuro.
Não é errado apoiar o agronegócio — grandes potências como os Estados Unidos e a China também possuem setores agropecuários fortes, eficientes e tecnologicamente avançados. O equívoco está em fazê-lo de modo a asfixiar a indústria. Um país desenvolvido precisa de ambos: um agro moderno, produtivo e competitivo, e uma indústria capaz de transformar essa produção em valor agregado, tecnologia e empregos qualificados. O equilíbrio entre esses dois pilares é o que sustenta o poder econômico das nações mais avançadas.

