Substituição de Dependência: por que o Brasil fracassou em construir uma indústria nuclear autônoma

*Por João Paulo Nicolini Gabriel

Durante a década de 1970, o regime militar brasileiro apostou alto no sonho de transformar o Brasil em uma potência tecnológica. Em meio à crise do petróleo e à disputa pela autonomia internacional, o governo firmou o ambicioso Acordo de Cooperação Nuclear com a Alemanha Ocidental, em 1975. O objetivo era claro: dominar o ciclo do combustível nuclear, produzir reatores no território nacional e reduzir a dependência dos Estados Unidos. Contudo, como mostramos em nosso artigo recém-publicado na Science and Public Policy (Oxford University Press – João Paulo Nicolini Gabriel e Dawisson Belém Lopes), o que se consolidou foi o contrário: uma trajetória de dependência reforçada, marcada por descoordenação institucional e miopia estratégica.

A pesquisa, baseada em mais de 2.500 documentos oficiais e 25 entrevistas com diplomatas, cientistas e gestores públicos, revela que a elite tecnocrática do período — a chamada nucleocracia — conduziu o processo de forma verticalizada, excluindo universidades, institutos de pesquisa e o setor produtivo nacional. Em vez de fomentar capacidades endógenas, optou-se por importar tecnologias complexas e montar um aparato estatal centralizado, sem raízes nas redes de inovação locais. A ideia era “pular etapas”, alcançar rapidamente o status de país avançado, sem investir na base que sustenta a inovação: tempo, aprendizado e coordenação entre Estado, academia e indústria.

Em termos pós-keynesianos, trata-se de uma falha clássica de coordenação intertemporal: o Estado brasileiro investiu pesadamente no presente, mas sem garantir a sustentabilidade desses investimentos ao longo do tempo, tampouco articulá-los com uma política fiscal e industrial coerente que também contemplasse a necessidade crucial da participação das instituições de ensino superior (IES) no contexto. Complementando com a óptica neoschumpeteriana, o caso representa a interrupção de uma trajetória de aprendizado cumulativo — o Brasil não criou os “caminhos de construção de competência” que permitissem, por exemplo, projetar e fabricar seus próprios reatores ou dominar a conversão de urânio de maneira autônoma. O investimento ficou confinado ao topo da cadeia decisória, gerando pouco efeito sistêmico.

O artigo emprega o referencial dos Sistemas Nacionais de Inovação (SNI) e do modelo da tríplice hélice (interação entre governo, setor produtivo e academia) para mostrar como o Brasil falhou em alinhar seus atores estratégicos. O PRONUCLEAR, programa lançado em 1977 para formar engenheiros nucleares, treinou centenas de profissionais que não encontraram ambiente institucional para aplicar seus conhecimentos. O setor privado não foi mobilizado, a universidade permaneceu marginalizada e as decisões foram centralizadas por militares e diplomatas — muitos com formação sólida, mas sem inserção no ecossistema científico nacional.

Além disso, nosso estudo destaca um paradoxo relevante para países em desenvolvimento: a diplomacia científica, embora possa ser uma ponte para o progresso tecnológico, pode também aprofundar a dependência quando o país receptor não tem capacidade institucional para absorver, adaptar e internalizar as tecnologias adquiridas. O Brasil importou reatores, turbinas e tecnologias de enriquecimento, mas não construiu o ecossistema que sustenta a inovação tecnológica contínua. Como consequência, tornou-se um consumidor de máquinas sofisticadas e não um produtor de conhecimento estratégico.

Os efeitos dessa escolha ainda estão presentes. A produção de urânio enriquecido, por exemplo, só foi alcançada em escala industrial em 2006, e o país ainda não domina plenamente etapas-chave como a conversão em UF6. Projetos estratégicos como o Reator MultipropósitoBrasileiro estão paralisados, e o setor nuclear segue dependendo de importações para reagentes médicos, peças e know-how. A ausência de uma política nacional de inovação robusta, articulada e de longo prazo impede que os esforços sejam consolidados em resultados duradouros.

O caso nuclear brasileiro é, assim, mais do que um episódio histórico: é um espelho das dificuldades estruturais do Estado brasileiro em lidar com políticas públicas de longo prazo e setores intensivos em conhecimento. Ao ignorar o papel da academia, do empresariado e das instituições de ciência e tecnologia, o país comprometeu sua chance de se tornar uma potência autônoma na área. Diferentemente de países como Coreia do Sul ou Índia, que combinaram nacionalismo tecnológico com forte investimento em pesquisa, o Brasil optou por um atalho — que levou a lugar nenhum.

Como alerta final, o estudo mostra que não há soberania sem coordenação institucional e acúmulo de capacidades nacionais. A verdadeira autonomia tecnológica não se compra em prateleira. Ela se constrói — com políticas intertemporais, sistemas de inovação integrados e uma visão de país que vá além da retórica nacionalista. O acordo com a Alemanha foi um passo importante, mas mal implementado. E, no campo da ciência e tecnologia, a história ensina: atalhos custam caro e raramente funcionam.

 https://academic.oup.com/spp/advance-article-abstract/doi/10.1093/scipol/scaf002/8015937?redirectedFrom=fulltext

https://www.youtube.com/watch?v=vduKTRVbNKY

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