A The Economist publicou nesta semana uma reportagem que merece atenção de quem estuda desenvolvimento econômico. O tom da revista é de alarme: os planos de gasto da primeira-ministra Takaichi Sanae estariam desestabilizando os mercados, e ela estaria colocando o Estado no centro da economia japonesa. A frase que resume tudo aparece na boca de um consultor de Tóquio, Tobias Harris: o governo quer fazer “um Rapidus para tudo”.
Vale explicar a referência. A Rapidus é a empresa de semicondutores criada em 2022 com dinheiro público japonês e participação de Toyota, Sony, SoftBank, NTT e outras gigantes, com a missão de produzir chips de 2 nanômetros em solo japonês até 2027. É uma aposta ousada, cara e de resultado incerto — o Japão havia praticamente saído da fronteira tecnológica dos semicondutores nos anos 1990. Pois bem: o que a Economist nos conta é que a Rapidus deixou de ser uma exceção e virou o modelo. Takaichi devolveu poder aos burocratas do METI, o mesmo ministério que coordenou o milagre japonês do pós-guerra, e cortou as asas dos falcões fiscais do Ministério das Finanças.
O tamanho da coisa
Os números impressionam. O pacote aprovado logo no início do governo somou 21,3 trilhões de ienes, algo como 3,7% do PIB japonês. Desse total, cerca de 7,2 trilhões foram destinados a investimento estratégico em dezessete setores prioritários: inteligência artificial, semicondutores, computação quântica, biotecnologia, aeroespacial, construção naval, fusão nuclear, transformação verde e defesa. Cada setor ganhou um ministro responsável. O METI quadruplicou seu orçamento para IA e chips no ano fiscal de 2026, e o plano setorial de semicondutores prevê mais de 10 trilhões de ienes em apoio público até 2030, com a ambição de mobilizar 50 trilhões em investimento público-privado somados — a maior proporção do PIB entre as grandes economias.
O governo chama isso de “investimento de gestão de crise” e “investimento de crescimento”. A primeira categoria é a mais interessante conceitualmente: a ideia de que o país precisa construir capacidade doméstica de produção em tecnologias críticas antes que a crise chegue, e não correndo atrás depois. O trauma de referência é a escassez global de chips durante a pandemia, que paralisou a indústria automobilística japonesa.
Quem acompanha o debate de complexidade econômica reconhece imediatamente o que está acontecendo. O Japão está fazendo, de maneira explícita e coordenada, aquilo que Mariana Mazzucato descreve como Estado empreendedor e que Hidalgo e Hausmann mostram no espaço-produto: capacidades produtivas não caem do céu, elas são construídas por acumulação deliberada de conhecimento tácito em setores adjacentes àqueles que o país já domina. Semicondutores, robótica, equipamento naval e defesa são setores de altíssimo PCI, de alta complexidade, com enorme capacidade de irradiação tecnológica. O Japão não está inventando nada novo — está fazendo o que fez entre 1950 e 1980, quando o MITI, antecessor do METI, organizou a escalada japonesa da têxtil para o aço, do aço para a eletrônica, da eletrônica para os automóveis.
Por que os mercados se incomodam
Aqui entra a parte que a Economist enfatiza e que não pode ser ignorada. O juro de dez anos dos títulos japoneses bateu 3% no começo de setembro, o primeiro 3% desde 1996. O de trinta anos passou de 4%. Em dois anos, o juro longo japonês mais que triplicou. Os ministérios pediram 143 trilhões de ienes no orçamento de 2027, recorde absoluto, e o governo se recusou a estabelecer teto para a nova categoria de investimento estratégico. A dívida bruta japonesa é da ordem de três vezes o PIB. O Banco do Japão, que por três décadas garantiu que o governo pudesse se financiar a custo zero, saiu do controle da curva de juros e está subindo a taxa básica.
A diferença crucial em relação ao Abenomics é o regime de preços. Shinzo Abe fez expansão fiscal e monetária em ambiente deflacionário, onde não havia restrição. Takaichi faz o mesmo em ambiente inflacionário, com inflação rodando acima da meta e pressão de energia. Por isso o mercado de títulos virou a válvula de pressão, e por isso a comparação com o episódio Liz Truss aparece o tempo todo — comparação que a própria primeira-ministra já se deu ao trabalho de negar publicamente.
A pergunta que interessa ao Brasil
Parece evidente que o Japão está certo em querer reconstruir capacidade produtiva em setores complexos. Mas a reportagem escancara um ponto que deveria organizar todo o debate brasileiro sobre o tema: nem todo gasto público é igual.
Dos 21,3 trilhões do pacote japonês, quase 12 trilhões foram para subsídio de energia, corte de imposto sobre gasolina e transferência de renda para famílias. Só 7,2 trilhões foram para os dezessete setores estratégicos. Ou seja: a maior parte do dinheiro foi para alívio de curto prazo no custo de vida, que é politicamente irresistível e economicamente neutro do ponto de vista de complexidade. Subsidiar combustível não constrói capacidade nenhuma. Bancar a Rapidus, sim — se der certo.
O Japão tem o que nos falta: uma burocracia técnica com memória institucional de setenta anos, coordenação entre ministérios, metas setoriais explícitas e mecanismos de avaliação. O METI erra — e errou muito, inclusive nos anos 1990 —, mas erra dentro de um sistema que aprende.
O risco japonês é fiscal e é real. Se o juro longo se firmar acima de 3,5%, o custo de rolagem da dívida come o próprio espaço do investimento estratégico, e a política industrial morre asfixiada pela conta de juros. O risco brasileiro é outro e é pior: é gastar o dinheiro sem construir capacidade alguma e depois concluir, mais uma vez, que política industrial não funciona.
Vale acompanhar o experimento de Takaichi de perto. Se o Japão conseguir transformar dívida em complexidade, a tese do Estado empreendedor ganha seu caso mais forte em décadas. Se não conseguir, teremos aprendido algo igualmente valioso sobre os limites fiscais da ambição industrial.

