Os dados de vendas no varejo divulgados nesta manhã reforçaram o cenário de desaceleração dos dois lados do continente. Nos Estados Unidos, o número veio mais fraco do que o esperado; no Brasil, mesma direção — mais um indicador apontando perda de fôlego da atividade. A leitura se soma à Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) divulgada ontem e ganha um capítulo importante amanhã, com a publicação do IBC-Br, o termômetro mensal do PIB pelo Banco Central. Juntos, são os dados que ajudam a entender o que está de fato acontecendo com o nível de atividade.
No front comercial, saiu a lista do tarifaço americano de 25% sobre produtos brasileiros, que entra em vigor em 22 de julho. A boa notícia foi a extensão das isenções: mais de mil itens ficaram de fora da sobretaxa, com destaque para café, carne bovina, suco de laranja e peças de aeronaves. Não por acaso: são justamente os produtos em que os americanos dependem do Brasil e não encontram substitutos com facilidade. O café brasileiro é peça-chave do consumo americano, e as peças da Embraer são estratégicas para a aviação regional dos EUA — algo que já havíamos observado na rodada anterior de tarifas e que agora se repete. Onde o Brasil tem especialidade real e é difícil de substituir, a isenção prevalece.
As tarifas de fato foram para têxteis, calçados e máquinas agrícolas principalmente. E é aí que mora o problema. Para dimensionar: o Brasil deve exportar cerca de US$ 400 bilhões neste ano, dos quais em torno de 10% vão para os Estados Unidos. Ou seja, não estamos falando do principal parceiro comercial (que é a China); os EUA são o segundo, com uma fatia relativamente pequena da pauta.
O impacto sobre o PIB, portanto, é modesto em proporção. A má notícia não é macroeconômica — é setorial e tecnológica. A tarifa acerta em cheio o coração industrial e de maior sofisticação tecnológica da indústria brasileira, concentrado no Sul e Sudeste — Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e, sobretudo, São Paulo, de onde sai a maior parte dessas exportações. Como a alíquota é elevada, machuca justamente onde o país tem densidade industrial. Não é a proporção do PIB que preocupa, e sim a dinâmica tecnológica e industrial afetada. Esse é o maior problema do tarifaço para o Brasil.


