O grande destaque da semana foi o anúncio de corte de gastos públicos de R$ 15 bilhões. O mercado estava muito estressado com a ideia de que o arcabouço fiscal poderia ser abandonado; um fantasma que ronda as mesas de operação. Será que o governo vai de fato cumprir o arcabouço fiscal? Tenho dito aqui que acho que o desenho do arcabouço está bem feito, mas ele precisa ser cumprido. O governo obviamente tem privilegiado o aumento de receita, aumento de arrecadação para tentar fechar as contas. No entanto, com base apenas no aumento de arrecadação, não será possível cumprir as metas. A equipe da Fazenda acredita no arcabouço e trabalhará para cumpri-lo. Isso é fundamental para que o Banco Central possa cortar a taxa de juros no ano que vem. Para este ano, acho que os cortes de juros já estão encerrados. Não vejo a Selic caindo abaixo dos 10,5% com uma inflação projetada em 4% e a meta de inflação em 3%. A grande questão agora é se haverá cortes em 2025 e, para que esses cortes ocorram, três coisas precisam acontecer. Primeiro, o FED precisa começar a cortar juros. A segunda condição é que o arcabouço fiscal seja cumprido neste ano, no ano que vem e nos próximos anos. Isso traria também a ponta longa da curva de juros para baixo e ajudaria muito o Banco Central brasileiro a cortar juros. A terceira condição é a indicação de um presidente de Banco Central com credibilidade e compromisso com o cumprimento da meta de inflação. Só isso fará os juros longos também caírem de forma consistente. Cortar juros na marra, com um Banco Central extremamente dovish, provavelmente provocaria uma inclinação ainda maior da curva, levando os juros longos para 13% ou eventualmente 14%, e provocando uma desvalorização cambial muito forte. O oposto desses três eventos benignos seria o FED não cortar juros, o governo não cumprir o arcabouço fiscal e indicar alguém para o Banco Central que cortaria juros na marra, trazendo a Selic para 9%, 8% ou 7%, independentemente do que está acontecendo com as expectativas de inflação e com a inflação corrente. Qual seria a consequência disso? Muito provavelmente, o câmbio iria para R$ 6, e a ponta longa da curva de juros subiria para 13% ou mais, até 14%; o que agravaria as condições monetárias. A desvalorização cambial e a alta do juro longo poderiam ter o efeito contrário ao de uma redução muito forçada de juros. Cortar juros na marra, com um Banco Central ultra dovish, teria a consequência de aumentar a inflação, que já está em 4% este ano. Podemos imaginar países que têm feito isso e conseguido aumentar a produção industrial e crescer, como a Turquia, que tem inflação de 30% a 40% ao ano, ou a Argentina da era Kirchner, com inflação de 150% ao ano. Esses são exemplos de países que abriram mão do controle monetário e fiscal no passado, com consequências dramáticas. Para o Brasil, o desafio é cumprir o arcabouço, indicar alguém para o Banco Central que tenha compromisso com o controle da inflação, e acho que Galípolo é ideal para isso, claramente se posicionando dessa maneira. Se as 3 condições acima forem cumpridas é possível ver um corte de juros no ano que vem, o que seria um cenário bastante positivo para a economia brasileira. Nesse sentido o anúncio de corte de R$ 15 bilhões é simbólico e mostra o compromisso da equipe econômica, do ministro Haddad, de Simone Tebet e do próprio Lula com o arcabouço fiscal.

